*Guilherme Pianezzer
Imagine uma nota de R$ 100 circulando pela economia. João compra carne no açougue por R$ 100. O açougueiro utiliza esses mesmos R$ 100 para comprar mercadorias no mercado. O dono do mercado contrata um mecânico e paga R$ 100 pelo serviço. O mecânico compra jornais e café na banca da esquina. A banca, por sua vez, utiliza os mesmos R$ 100 para pagar um fornecedor. Após cinco transações, foram gerados R$ 500 em atividade econômica. No entanto, os R$ 100 originais continuam existindo. Apenas mudaram de mãos. Essa é uma das características fundamentais da moeda: ela pode servir de base para inúmeras trocas sem perder valor ao longo do processo. Quanto mais circula, maior tende a ser sua contribuição para a atividade econômica local.
Mas o cenário muda quando cada uma dessas transações passa por intermediários financeiros que cobram taxas. Suponha que cada pagamento seja realizado por cartão e que o custo médio da operação seja de aproximadamente 2%. Após a primeira venda, o comerciante recebe R$ 98. Na segunda, R$ 96,04. Na terceira, R$ 94,12. Na quarta, R$ 92,24. Na quinta, R$ 90,39. Ao final da cadeia, os mesmos R$ 100 que antes circulavam integralmente entre trabalhadores, comerciantes e prestadores de serviço transformaram-se em R$ 90,39. Os R$ 9,61 restantes foram absorvidos pelos intermediários financeiros. O exemplo é simplificado, mas ilustra um fenômeno real: cada etapa de intermediação reduz a quantidade de recursos que permanece circulando na economia produtiva.
Os números ajudam a compreender a dimensão desse processo. Dados divulgados pelo Banco Central mostram que, em 2024, foram realizadas aproximadamente 138,2 bilhões de transações eletrônicas no Brasil, movimentando cerca de R$ 116,8 trilhões. No mesmo período, a taxa média de desconto cobrada dos estabelecimentos comerciais foi de aproximadamente 2,33% nas operações de crédito e 1,10% nas operações de débito. Percentuais aparentemente modestos, mas que, aplicados sobre trilhões de reais, representam valores bilionários transferidos anualmente da economia real para os agentes que controlam a infraestrutura de pagamentos.
Durante décadas, essa infraestrutura foi construída sobre redes privadas. Bandeiras internacionais, adquirentes, processadoras e diversos intermediários passaram a ocupar posição central na realização de pagamentos. Muitas dessas organizações possuem sede fora do Brasil e distribuem parte de seus resultados para acionistas espalhados pelo mundo. Isso significa que uma parcela da riqueza gerada por consumidores, trabalhadores e empresas brasileiras deixa o circuito econômico nacional e passa a integrar fluxos financeiros globais.
A questão não é meramente tecnológica. Trata-se de um tema estratégico. Em um mundo cada vez mais digital, controlar a infraestrutura pela qual a riqueza circula é tão importante quanto controlar estradas, portos, aeroportos ou redes de energia. Países que dependem exclusivamente de sistemas privados externos para movimentar sua economia tornam-se mais vulneráveis a interesses que nem sempre coincidem com os interesses nacionais.
Foi nesse contexto que surgiu o Pix. Muito além de um sistema rápido de transferências, o Pix representa a construção de uma infraestrutura pública de pagamentos administrada pelo Banco Central do Brasil. Diferentemente dos modelos tradicionais, as transações são liquidadas em segundos, durante vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, sem a necessidade de longas cadeias de intermediação. O impacto econômico dessa inovação é significativo. Menos intermediários significam menores custos de transação. Menores custos de transação significam que uma parcela maior da riqueza permanece nas mãos de consumidores, comerciantes e prestadores de serviço. Em vez de perder valor a cada troca, o dinheiro pode continuar circulando entre os agentes econômicos que efetivamente produzem bens e serviços.
Sob a ótica da Teoria Monetária Moderna, a moeda é uma instituição pública criada e garantida pelo Estado. Se a moeda é pública, parece razoável que ao menos parte da infraestrutura necessária para sua circulação também seja pública. O Pix materializa essa ideia ao oferecer um mecanismo de pagamentos que reduz a dependência de estruturas privadas para a realização das transações cotidianas. O sucesso do Pix demonstra que a inovação não precisa surgir exclusivamente do setor privado. Em poucos anos, o sistema tornou-se um dos meios de pagamento mais utilizados do país, reduzindo custos, ampliando a inclusão financeira e oferecendo uma alternativa nacional para a circulação da riqueza.
O debate, portanto, não deve ser reduzido à escolha entre cartão, dinheiro ou Pix. A questão central é quem controla os canais pelos quais a riqueza circula. Quando uma compra realizada em um pequeno comércio brasileiro depende de múltiplos intermediários privados, parte do valor gerado localmente deixa de permanecer na comunidade. Quando essa mesma transação pode ocorrer por meio de uma infraestrutura pública de baixo custo, aumenta-se a capacidade de retenção da riqueza dentro da própria economia nacional.
Em uma sociedade marcada por profundas desigualdades, preservar a circulação da riqueza pode ser tão importante quanto produzi-la. Afinal, quando R$ 100 entram em uma comunidade, o que gera prosperidade não é apenas o valor da nota, mas o número de vezes que ela consegue mudar de mãos antes de ser absorvida por mecanismos de extração financeira. O Pix representa, nesse sentido, uma rara oportunidade de fortalecer a soberania econômica brasileira e ampliar a capacidade de o dinheiro permanecer onde ele é produzido: nas mãos da população e das empresas que movimentam a economia real.
*Guilherme Augusto Pianezzer é professor de Matemática Financeira, doutor em Métodos Numéricos pela UFPR e professor-tutor dos cursos de Exatas do Centro Universitário Internacional Uninter. É autor de mais de 10 livros nas áreas de matemática, estatística, economia e educação financeira. Atualmente é estudante do curso de Ciências Econômicas na mesma instituição.