julho 16, 2026

Tarifaço dos EUA acelera aproximação comercial entre Brasil e Ásia com reflexos nos mecanismos de prevenção de disputas

Com o redesenho dos fluxos do comércio internacional, empresas brasileiras precisam adaptar contratos e estratégias de resolução de conflitos às particularidades da cultura de negócios asiática

Legenda: Pedro Ribeiro, vice-presidente de Assuntos Internacionais da CAMARB (Câmara de Mediação e Arbitragem Empresarial – Brasil)

Crédito: Divulgação/CAMARB 

As mudanças provocadas pela política tarifária dos Estados Unidos vêm redesenhando parte dos fluxos do comércio internacional e ampliando o protagonismo da Ásia como principal destino das exportações brasileiras. Mais do que uma mudança geográfica nas relações comerciais, esse cenário impõe novos desafios jurídicos para empresas que atuam no mercado internacional, especialmente na elaboração de contratos e na definição de mecanismos capazes de prevenir e solucionar disputas considerando as diferentes culturas de negócios.

Os números do comércio com a China refletem essa transformação. No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras alcançaram o recorde de US$ 184,8 bilhões, com superávit comercial de US$ 42,3 bilhões. A China consolidou sua posição como principal parceiro comercial do Brasil ao importar US$ 58,3 bilhões em produtos brasileiros, crescimento de 22% em relação ao mesmo período do ano anterior. Já as exportações para os Estados Unidos recuaram 13%, totalizando US$ 17,4 bilhões, o equivalente a apenas 9,4% das vendas externas brasileiras; a menor participação da série histórica.

Para Pedro Ribeiro, vice-presidente de Assuntos Internacionais da CAMARB (Câmara de Mediação e Arbitragem Empresarial – Brasil), o fortalecimento das relações comerciais com a China exige que empresas brasileiras ampliem sua visão sobre gestão de riscos, indo além das questões econômicas e tributárias. “O avanço dos negócios entre os dois países amplia a importância de uma abordagem integrada da gestão de riscos contratuais. Além dos aspectos jurídicos e regulatórios, é fundamental compreender os fatores culturais e as práticas negociais que podem influenciar a execução dos contratos e a forma como eventuais divergências são tratadas pelas partes”, afirma.

Segundo ele, a crescente complexidade das relações comerciais internacionais exige que os contratos contemplem mecanismos adequados para lidar com divergências ao longo de sua execução, especialmente em ambientes multiculturais. “Em operações internacionais de longo prazo, é comum a adoção de mecanismos escalonados de resolução de controvérsias, combinando negociação, mediação e arbitragem. Essa estrutura permite que as partes tentem preservar a relação comercial sempre que possível, sem abrir mão da segurança jurídica e da previsibilidade necessárias aos negócios internacionais”, diz.

Pedro Ribeiro destaca que essa realidade torna ainda mais importante contratos capazes de antecipar riscos e estabelecer procedimentos claros para a resolução de eventuais divergências. “A elaboração de contratos internacionais exige atenção não apenas à legislação aplicável e aos mecanismos de resolução de disputas, mas também à construção de estruturas de governança capazes de prevenir conflitos e lidar adequadamente com mudanças ao longo da execução contratual. Quanto maior a previsibilidade dos procedimentos adotados pelas partes, menor tende a ser o potencial de escalada das divergências.”

Parceria com a Ásia

Atenta a essa evolução do comércio internacional, a CAMARB vem adaptando seus procedimentos para atender às necessidades de operações cada vez mais multiculturais. Um dos marcos desse processo foi a celebração de um acordo formal de cooperação com a China International Economic and Trade Arbitration Commission (CIETAC), uma das mais tradicionais e respeitadas instituições arbitrais da Ásia. A parceria busca fortalecer a cooperação institucional, ampliar o intercâmbio de boas práticas e facilitar a administração de disputas envolvendo empresas brasileiras e chinesas.

“O aumento da complexidade e do volume das relações comerciais internacionais reforça a importância de mecanismos eficazes de prevenção e resolução de disputas que possam acomodar diferenças culturais. Arbitragem, mediação e outros instrumentos adequadamente estruturados podem contribuir para maior segurança jurídica, previsibilidade e estabilidade das relações empresariais em ambientes multiculturais e transnacionais”, conclui Pedro Ribeiro.

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