O pedido de recuperação judicial das Casas Bahia é um sinal de alerta para o varejo brasileiro, mas não representa uma crise generalizada no setor. Essa é a avaliação de Felipe Cima, analista de renda variável da Manchester Investimentos, para quem juros elevados, crédito caro, inadimplência e competição digital afetam as empresas de maneiras diferentes.
O Grupo Casas Bahia protocolou o pedido de recuperação judicial em 16 de agosto, com R$ 17,3 bilhões em dívidas reconhecidas no processo. A medida ocorreu após a companhia registrar prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre e anunciar o fechamento de 298 lojas.
Para Cima, o caso levanta uma questão mais ampla: “É preciso entender quanto da crise da companhia é específico da Casas Bahia e quanto reflete desafios estruturais do varejo”.
Um dos principais fatores é o ambiente de juros elevados. A política monetária restritiva reduz a atividade e encarece o crédito, afetando especialmente varejistas com operações próprias de financiamento. Durante a pandemia, o crédito era visto como um instrumento para estimular vendas e aumentar a recorrência dos clientes. Com a alta dos juros e da inadimplência, porém, essa percepção mudou. “Aquilo que antes ajudava a impulsionar as vendas passou, em alguns casos, a pressionar a rentabilidade”, afirma. O analista cita as operações de crédito da Renner e da C&A como exemplos do desafio de equilibrar expansão da carteira e controle da inadimplência.
Competição digital
As grandes plataformas de comércio eletrônico acrescentam outra fonte de pressão sobre as varejistas tradicionais. Casas Bahia, Magazine Luiza e Americanas disputam espaço com empresas como Mercado Livre e Amazon em um mercado no qual escala e participação podem pesar tanto quanto a rentabilidade imediata.
Segundo Cima, as plataformas podem aceitar margens menores para ampliar a operação e fortalecer sua posição futura. “Não é necessariamente uma competição por rentabilidade imediata. Existe também uma disputa por participação de mercado e escala”, afirma. Essa dinâmica ajuda a explicar por que o crescimento digital nem sempre se traduz em resultado financeiro.
Consumidor mais seletivo
A pressão é ainda maior sobre negócios voltados às faixas de menor renda. Com o orçamento das famílias comprimido, o consumidor tende a priorizar despesas essenciais e adiar compras de bens duráveis e outros itens considerados menos urgentes.
Ainda assim, Cima ressalta que o varejo não é homogêneo. “É importante evitar a leitura de que todas as empresas estão enfrentando o mesmo problema”, afirma. O analista vê uma dinâmica diferente em negócios com marcas fortes, menor dependência de crédito ou atuação em segmentos específicos, citando como exemplos Vulcabras, Track&Field e Vivara.
Nesse contexto, a recuperação judicial das Casas Bahia pode representar parte de um processo de seleção dentro do setor. Empresas muito endividadas, dependentes de crédito ou expostas à competição digital tendem a sentir mais os efeitos dos juros elevados. Para Cima, eficiência operacional, força de marca e menor dependência de financiamento ao consumidor podem ser diferenciais para atravessar o período.