setembro 3, 2026

Do off-road aos negócios: as lições de liderança e relacionamento do Rally dos Sertões

Thais Medina participou da competição

Por Thais Medina

Como você descansa quando sua rotina é feita de muitas horas de trabalho, reuniões, decisões, viagens, clientes, equipe e uma agenda pra lá de intensa? No meu caso, a resposta provavelmente foge bastante do convencional para uma mulher de negócios. Eu descanso dirigindo. De preferência em estrada de terra, cercada pela natureza, conhecendo lugares onde nunca estive e, algumas vezes, com pouco ou nenhum sinal de celular. Foi assim que escolhi passar alguns dias de agosto, participando da Expedição Piratas do Rally e acompanhando de perto a movimentação do Rally do Sertões.

Segundo dados divulgados pelo próprio Sertões, apenas cerca de 10% dos pilotos são profissionais. Entre os demais, 40% são empresários, 40% executivos C-level e 20% grandes produtores rurais. É um perfil que ajuda a explicar por que, ao redor da poeira, dos carros, dos problemas mecânicos e das longas horas de estrada, existe também um ambiente de relacionamento e negócios.

O Sertões já movimenta aproximadamente R$ 250 milhões por ano considerando inscrições, patrocínios, licenciamento, turismo e os gastos diretos e indiretos de competidores e equipes. O Rally do Sertões e o Sertões Series representam cerca de R$ 175 milhões desse volume.

Os números ajudam a mostrar algo que pude perceber na prática. O Rally reúne esporte, turismo, aventura e uma convivência intensa entre pessoas que dificilmente passariam tantos dias juntas em outro contexto. Em uma reunião de negócios tradicional, normalmente temos uma hora para apresentar uma empresa, discutir uma oportunidade e tentar conhecer quem está sentado do outro lado da mesa. No Rally, são dias compartilhando estradas, refeições, dificuldades, histórias e imprevistos. Empresários, executivos, equipes técnicas, pilotos e navegadores dividem os mesmos desafios e, quando aparece um problema, importa menos quem ocupa qual posição profissional e mais quem consegue ajudar a resolvê-lo.

Trabalho há mais de 20 anos com Marketing, Turismo, Comunicação e geração de negócios e sempre acreditei que relacionamento é um dos ativos mais importantes de qualquer empresa. O que mudou nos últimos anos foi o ambiente em que essas relações estão sendo construídas. Eventos, viagens, competições esportivas e experiências passaram a ocupar um espaço que antes pertencia quase exclusivamente aos congressos, feiras e reuniões formais.

Você começa conversando sobre um trecho difícil, um pneu, uma rota ou o desempenho de um carro. Algumas horas depois, está falando sobre empresas, projetos, desafios de gestão ou oportunidades. E muitas vezes o negócio começa justamente porque ninguém chegou ali tentando vender alguma coisa. As relações profissionais mais interessantes nem sempre começam falando de negócios.

A experiência também me fez pensar sobre a forma como tomamos decisões em ambientes de pressão. No mundo corporativo, velocidade costuma ser associada à eficiência. Na estrada, porém, acelerar sem conhecer o terreno pode custar caro. Há momentos em que ganhar velocidade é necessário, mas há outros em que a melhor decisão é reduzir, observar, avaliar o obstáculo e só então seguir. A lógica vale também para a gestão: nem todo problema exige resposta imediata, e nem toda oportunidade precisa ser aceita no primeiro minuto.

Outro ponto que fica evidente no off-road é o limite da visão de quem está ao volante. Em determinados trechos, o motorista simplesmente não consegue avaliar sozinho o melhor caminho — alguém precisa sair do carro, observar o terreno de outro ângulo e orientar a condução. Para quem lidera uma empresa, essa imagem é familiar. À medida que um negócio cresce, aumenta também a impossibilidade de acompanhar tudo pessoalmente. Delegar, nesse contexto, exige mais do que distribuir tarefas: exige confiança na leitura e na capacidade de decisão de quem está ao lado.

Voltei com histórias, novos relacionamentos e reflexões que se conectam diretamente com a vida profissional. Liderar exige leitura de cenário, confiança, capacidade de adaptação e disposição para rever caminhos quando necessário. Construir negócios exige relacionamento e tempo de convivência. E descansar, pelo menos para mim, às vezes significa simplesmente trocar o tipo de desafio.

Sobre Thais Medina

Com mais de 20 anos de experiência em Marketing, Comunicação, Vendas e Estratégia para o Turismo, Thais Medina é CEO da agência de marketing e representação de destinos Business Factory e professora na pós-graduação da Fundação Getulio Vargas e Senac-SP. É jornalista e Master Coach, com MBAs em Marketing (FGV), Gestão Estratégica (USP) e Gestão de Empresas com técnicas de Coaching (SBC), e estudou Management na University of Ohio.

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