- O Congresso Autismo em Evidência propõe um diálogo nacional e internacional sobre o Transtorno do Espectro Autista. Na sua área de atuação, quais avanços científicos, profissionais ou sociais merecem maior destaque atualmente?
Um dos avanços mais importantes foi ampliar a compreensão do autismo para além da infância. Temos hoje maior atenção ao adulto autista, inclusive às pessoas que atravessaram grande parte da vida sem diagnóstico ou desenvolveram estratégias de compensação que tornaram suas dificuldades menos perceptíveis.
Na Psiquiatria e na área pericial, destaco principalmente o avanço de uma avaliação baseada não somente no diagnóstico, mas também na funcionalidade. Duas pessoas com TEA nível 1 de suporte podem apresentar repercussões completamente diferentes na vida social, profissional e adaptativa. O diagnóstico é importante, mas não substitui a avaliação individual.
- Como sua trajetória pessoal, acadêmica ou profissional se conectou ao tema do autismo e o que motivou sua participação no Congresso Autismo em Evidência?
Minha trajetória profissional reúne Psiquiatria, Neurociências, transtornos do neurodesenvolvimento e Psiquiatria Forense. Na prática clínica e pericial, comecei a receber cada vez mais adultos com diagnóstico ou suspeita de TEA, muitas vezes associados a TDAH, transtornos do humor, ansiedade e outras condições psiquiátricas.
A experiência pericial acrescentou uma questão particularmente interessante: compreender o que determinado diagnóstico representa na vida concreta daquela pessoa. Isso envolve autonomia, capacidade, funcionalidade, trabalho e necessidade efetiva de suporte. Foi essa interface que motivou minha participação no congresso.
- Sua palestra abordará um tema relevante para a compreensão do TEA. Por que considera esse assunto importante e quais contribuições pretende apresentar ao público do congresso?
Minha palestra abordará a perícia no adulto com TEA nível 1 de suporte. Considero esse tema particularmente atual porque precisamos evitar dois extremos: minimizar dificuldades simplesmente porque estamos diante de um TEA nível 1 ou, no sentido contrário, presumir incapacidade apenas pela presença do diagnóstico.
Pretendo discutir a diferença entre diagnóstico, deficiência, necessidade de suporte, funcionalidade e incapacidade. Na avaliação pericial, não basta constatar um código diagnóstico. É necessário compreender história longitudinal, funcionamento adaptativo, comunicação social, comportamento, cognição, comorbidades, demandas ambientais e repercussões concretas sobre a atividade que está sendo analisada.
- A inclusão é um dos eixos centrais do evento. Na prática, quais são atualmente os principais obstáculos para que pessoas autistas tenham participação plena na saúde, na educação, no trabalho e na sociedade?
Talvez um dos principais obstáculos seja tratar o espectro como se fosse uma condição homogênea. Pessoas autistas apresentam necessidades, potencialidades e limitações muito diferentes.
No adulto com TEA nível 1, algumas barreiras podem ser menos visíveis: dificuldades na comunicação pragmática, interação social, flexibilidade, funcionamento executivo, processamento sensorial e adaptação a determinados ambientes. Inclusão efetiva significa reconhecer essas barreiras e promover adaptações razoáveis, sem retirar desnecessariamente autonomia ou presumir incapacidade.
- A programação reúne profissionais de diferentes áreas. Como a atuação interdisciplinar pode contribuir para uma compreensão mais ampla, ética e individualizada das pessoas autistas?
O TEA exige uma compreensão multidimensional. Psiquiatria, neurologia, psicologia, neuropsicologia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, educação e outras áreas podem fornecer informações complementares sobre uma mesma pessoa.
Mas interdisciplinaridade não deve significar apenas somar relatórios. É preciso integrar criticamente essas informações e compreender o indivíduo em seu contexto. Na perícia, essa distinção é ainda mais importante: documentos e avaliações assistenciais constituem elementos relevantes, porém cabe ao perito realizar análise independente e responder tecnicamente ao objeto específico da perícia.
- Considerando sua experiência, quais práticas, estratégias ou formas de acompanhamento podem favorecer o desenvolvimento, a autonomia, o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas autistas?
Não existe uma intervenção única aplicável a todas as pessoas autistas. O acompanhamento precisa considerar necessidades individuais, potencialidades, dificuldades, comorbidades e objetivos de vida.
No adulto, isso pode envolver tratamento adequado das comorbidades psiquiátricas, psicoterapia adaptada quando indicada, estratégias para funções executivas, manejo de questões sensoriais, adaptações ambientais e ocupacionais e orientação da rede familiar. O objetivo deve ser ampliar autonomia, funcionalidade, participação social e qualidade de vida, respeitando as características individuais.
- O autismo também repercute na vida familiar e na rede de apoio. Que orientações considera essenciais para familiares, cuidadores e profissionais que acompanham pessoas autistas?
Uma orientação que considero fundamental é: conheçam primeiro a pessoa, não apenas o diagnóstico. O diagnóstico ajuda a compreender determinadas características, mas não define integralmente inteligência, personalidade, desejos, capacidades ou possibilidades futuras.
Também é necessário encontrar equilíbrio entre suporte e autonomia. Tanto a ausência de apoio quanto a superproteção podem prejudicar o desenvolvimento. Devemos oferecer o suporte necessário sem retirar da pessoa oportunidades de decidir, aprender, trabalhar, relacionar-se e construir seu próprio projeto de vida.
- Como congressos científicos e iniciativas educativas podem ajudar a combater preconceitos, informações incorretas, estigmas e visões limitadas sobre o autismo?
A visibilidade crescente do autismo trouxe conquistas importantes, mas também aumentou a circulação de simplificações e informações sem adequada sustentação científica.
Congressos como o Autismo em Evidência têm a responsabilidade de aproximar ciência e sociedade. Precisamos falar sobre inclusão e direitos, mas também sobre diagnóstico criterioso, heterogeneidade clínica e limites das evidências disponíveis. Defender a pessoa autista também significa protegê-la da desinformação.
- Em relação aos direitos e às políticas públicas, quais avanços ainda são necessários no Brasil e no cenário internacional para assegurar inclusão, acessibilidade, cuidado e respeito às pessoas autistas?
No Brasil, avançamos no reconhecimento jurídico e social do TEA, mas ainda existe distância significativa entre o direito previsto e sua concretização. Precisamos melhorar acesso ao diagnóstico qualificado, assistência longitudinal, transição dos serviços infantis para os serviços destinados ao adulto, inclusão profissional e disponibilidade de atendimento especializado fora dos grandes centros.
Também considero fundamental que as políticas públicas consigam conciliar proteção e autonomia. Reconhecer direitos e necessidades específicas não significa presumir incapacidade. O suporte deve ser proporcional às necessidades concretas de cada pessoa.
- Existe alguma experiência pessoal ou profissional relacionada ao autismo que tenha transformado sua forma de compreender o tema ou de exercer sua profissão?
A prática clínica e, sobretudo, a experiência pericial ensinaram-me algo fundamental: pessoas que compartilham o mesmo diagnóstico podem apresentar funcionamentos completamente distintos.
Isso modificou profundamente minha maneira de avaliar. Hoje considero cada vez mais importante separar aquilo que pertence ao diagnóstico daquilo que efetivamente produz repercussão funcional. Costumo sintetizar essa experiência em uma ideia: o diagnóstico inicia uma investigação; ele não encerra uma avaliação.
- O que o público pode esperar da sua participação e da palestra que apresentará no Congresso Autismo em Evidência?
Pretendo apresentar uma visão prática da avaliação pericial do adulto com TEA nível 1 de suporte, aproximando Psiquiatria, Medicina Legal e avaliação da funcionalidade.
Quero mostrar principalmente que, em uma perícia, a pergunta raramente termina em “essa pessoa tem autismo?”. Precisamos avançar para questões como: quais repercussões funcionais essa condição produz nesta pessoa, diante desta atividade, neste ambiente e neste momento de sua vida? É nessa individualização que a avaliação pericial ganha consistência técnica.
- Para finalizar, qual mensagem gostaria de deixar aos participantes do congresso, às pessoas autistas, às famílias, aos profissionais e à sociedade?
Quanto mais conhecemos o autismo, mais percebemos que nenhum diagnóstico é suficiente para resumir uma pessoa. Precisamos reconhecer dificuldades quando elas existem, oferecer suporte quando necessário e preservar autonomia sempre que possível.
Ciência, inclusão e respeito à individualidade precisam caminhar juntos. Autismo não deve ser sinônimo automático nem de incapacidade, nem de ausência de dificuldades. Entre esses extremos existe uma pessoa — e é ela que precisamos compreender.

Francis Moreira da Silveira
Médico Psiquiatra — CRM-MG 55307 | RQE 44612
Mestre em Neurociências pela UniLogos, com diploma reconhecido pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Doutor em Ciências da Saúde, com ênfase em Psiquiatria, pela Logos University International (UniLogos). Formação em Psiquiatria Forense pelo Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HC-USP). International Fellow da American Psychiatric Association (APA) e Perito Médico Auxiliar da Justiça do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG).
Congresso On-line Internacional Autismo em Evidência
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⏰ 7, 8 e 9 de outubro: a partir das 20h
⏰ 10 de outubro: a partir das 9h
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