- O Congresso Autismo em Evidência propõe um diálogo nacional e internacional sobre o Transtorno do Espectro Autista. Na sua área de atuação, quais avanços científicos, profissionais ou sociais merecem maior destaque atualmente?
Como professora, tenho acesso, eventualmente, a formações dentro da própria rede de ensino sobre como lidar com alunos com TEA, e considero esse um avanço importante, que precisa continuar. No entanto, sinto falta de um debate igualmente forte sobre o professor autista: como esse profissional pode se reconhecer, se posicionar e atuar em sala de aula. Esse é um tema que, na minha visão, ainda carece de mais espaço e discussão social. - Como sua trajetória pessoal, acadêmica ou profissional se conectou ao tema do autismo e o que motivou sua participação no Congresso Autismo em Evidência?
Sou professora há quase vinte anos e, no ano passado, recebi meu diagnóstico dentro do Transtorno do Espectro Autista. Depois do laudo, muitas coisas na minha vida se encaixaram. Decidi compartilhar essa trajetória não para que outras mulheres se espelhem ou se inspirem em mim, mas para que também possam se conhecer melhor. O autoconhecimento foi, para mim, uma verdadeira virada de chave, e é isso que me motiva a estar neste congresso. - Sua palestra abordará um tema relevante para a compreensão do TEA. Por que considera esse assunto importante e quais contribuições pretende apresentar ao público do congresso?
TEMA: ESPECTRO AUTISTA FEMININO
Considero fundamental que as mulheres autistas se conheçam, se reconheçam e possam se apoiar mutuamente, sabendo que também são — e sempre foram — produtivas e capazes de contribuir com a sociedade. - A inclusão é um dos eixos centrais do evento. Na prática, quais são atualmente os principais obstáculos para que pessoas autistas tenham participação plena na saúde, na educação, no trabalho e na sociedade?
Tenho saúde plena e sou uma pessoa útil à sociedade; trabalho há muitos anos. Mas o que não aparece na minha carteira de trabalho, nem em nenhum documento de saúde, é o que acontece depois do expediente — o esforço invisível que fica de fora dos registros formais. Por isso, penso que pensar em instrumentos e estratégias que facilitem esse cotidiano pessoal é algo urgente e que merece mais reflexão coletiva. - A programação reúne profissionais de diferentes áreas. Como a atuação interdisciplinar pode contribuir para uma compreensão mais ampla, ética e individualizada das pessoas autistas?
Hoje, sendo uma mulher com diagnóstico tardio, sei que posso contar com outros profissionais da saúde — como neurologista e terapeuta — para meu desenvolvimento pessoal, mesmo já sendo uma mulher adulta e formada. Saber que, a partir de agora, tenho a possibilidade de me conhecer e me cuidar melhor faz uma diferença enorme. Isso mostra como o olhar interdisciplinar segue sendo valioso em qualquer momento da vida. - Considerando sua experiência, quais práticas, estratégias ou formas de acompanhamento podem favorecer o desenvolvimento, a autonomia, o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas autistas?
Como professora, em sala de aula consigo perceber com clareza o aluno que precisa de maior acompanhamento, e procuro sempre adaptar as atividades para atendê-lo. Como mulher autista, também desenvolvi minhas próprias estratégias: mantenho duas agendas, uma pessoal e uma profissional, e na profissional listo, aula a aula, exatamente o que vou fazer. É a minha forma de organizar a rotina e de organizar a minha vida. - O autismo também repercute na vida familiar e na rede de apoio. Que orientações considera essenciais para familiares, cuidadores e profissionais que acompanham pessoas autistas?
Ter uma rotina predefinida ajuda muito na minha vida. Mudanças de última hora em um plano ou em um passeio me incomodam bastante — sei que consigo superar esse obstáculo, mas o desconforto é real. Por isso, oriento familiares e cuidadores a buscarem, sempre que possível, coordenar as atividades com mais antecedência e previsibilidade. - Como congressos científicos e iniciativas educativas podem ajudar a combater preconceitos, informações incorretas, estigmas e visões limitadas sobre o autismo?
Redes sociais e congressos como este são ferramentas fundamentais para divulgar o que de fato é o TEA: não é uma doença, não se “pega” autismo, tampouco por meio de vacinas. Quanto mais se estuda e se descobre sobre o autismo, mais clara sua compreensão se torna, e os estigmas vão sendo superados aos poucos. Numa leitura mais crítica, o autismo não deveria ser visto como um problema individual, mas como uma questão social: um ambiente bem estruturado é capaz de acolher e incluir a todos, inclusive as pessoas autistas. - Em relação aos direitos e às políticas públicas, quais avanços ainda são necessários no Brasil e no cenário internacional para assegurar inclusão, acessibilidade, cuidado e respeito às pessoas autistas?
Ainda precisamos caminhar muito nesse sentido, tanto dentro da sala de aula quanto na sociedade em geral. É essencial falar mais sobre o que é o autismo e suas dificuldades reais, para que, pouco a pouco, as políticas públicas sejam construídas de forma mais adequada e cheguem até nós de maneira efetiva e saudável. - Existe alguma experiência pessoal ou profissional relacionada ao autismo que tenha transformado sua forma de compreender o tema ou de exercer sua profissão? Caso se sinta confortável, poderia compartilhá-la?
Depois do diagnóstico, passei por um processo de luto — não no sentido de enterrar a professora que eu era, mas de reconhecer que grandes partes de mim que eu achava genuínas, na verdade, eram uma máscara. Quando consegui elaborar melhor esse processo, percebi que me tornei uma profissional melhor: hoje consigo chegar mais perto dos meus alunos, autistas ou não. - O que o público pode esperar da sua participação e da palestra que apresentará no Congresso Autismo em Evidência?
O público pode esperar uma conversa sincera, em que mostro quem eu sou sem nenhuma cortina. Espero que minha fala, sobre diagnóstico feminino, possa ajudar outras pessoas a se reconhecerem e se compreenderem melhor. - Para finalizar, qual mensagem gostaria de deixar aos participantes do congresso, às pessoas autistas, às famílias, aos profissionais e à sociedade?
O autismo não é uma doença — é uma deficiência, assim como as deficiências físicas. O que precisamos não é que a pessoa autista se adapte sozinha ao mundo, mas uma reestruturação social: que eu tenha os instrumentos para me adaptar, e que as pessoas também tenham caminhos para chegar até mim. Por fim, nada sobre nós… se nós! Congresso On-line Internacional Autismo em Evidência
Mirela Cristina Leite Mothé
Professora de História (rede pública municipal de Navegantes/SC); Mestre em Educação (PPGE/FURB)
Cidade/País: Navegantes, Santa Catarina, Brasil
Congresso On-line Internacional Autismo em Evidência
📅
⏰ 7, 8 e 9 de outubro: a partir das 20h
⏰ 10 de outubro: a partir das 9h
🌎 Evento internacional 100% on-line
🕒 Horário de Brasília
🎓 Certificado de participação
Site oficial:
https://congressoautismoemevidencia.lovable.app/
Inscrições:
https://www.even3.com.br/congressoonlineautismoemevidencia-772281/
Instagram:
@congressoautismoemevidencia
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