setembro 22, 2026

ENTREVISTA ESPECIAL — CONGRESSO AUTISMO EM EVIDÊNCIA

1.             O Congresso Autismo em Evidência propõe um diálogo nacional e internacional sobre o Transtorno do Espectro Autista. Na sua área de atuação, quais avanços científicos, profissionais ou sociais merecem maior destaque atualmente?

Na neurociência aplicada à arquitetura, considero um avanço importante a compreensão de que o ambiente físico não é neutro. Luz, som, aroma, temperatura, organização espacial, materiais, densidade de estímulos e possibilidades de controle são percebidos pelo organismo e participam continuamente das respostas do sistema nervoso. Isso amplia muito a responsabilidade do projeto arquitetônico, porque nos conscientiza a considerar não apenas forma e função, mas também a experiência da pessoa naquele espaço.

Ao mesmo tempo, precisamos reconhecer os limites atuais da ciência. Ainda temos um longo caminho de pesquisa para afirmar com segurança como determinadas características arquitetônicas produzem respostas específicas em diferentes pessoas e contextos. Por isso, considero problemático falar em soluções universais. O avanço mais relevante talvez seja justamente uma postura mais crítica, baseada em evidências, na qual projetamos hipóteses, avaliamos resultados e aprendemos com o uso real dos ambientes.

2.             Como sua trajetória pessoal, acadêmica ou profissional se conectou ao tema do autismo e o que motivou sua participação no Congresso Autismo em Evidência?

Minha aproximação com o autismo aconteceu a partir dos meus estudos sobre neurociência aplicada à arquitetura e sobre a relação entre ambiente, percepção e comportamento. Quanto mais eu estudava essa relação, mais evidente ficava que pessoas diferentes podem perceber e utilizar o mesmo ambiente de maneiras muito distintas. O autismo torna essa diversidade especialmente visível e nos faz questionar soluções e diretrizes projetuais padronizadas.

Minha participação no congresso nasce desse interesse. Pretendo contribuir a partir da arquitetura e, ao mesmo tempo, aprender com os profissionais da saúde e da educação, porque acredito que uma compreensão mais ampla do autismo depende desse diálogo interdisciplinar. Quero compartilhar como podemos projetar com mais responsabilidade quando sabemos que a experiência sensorial e ambiental pode variar muito entre indivíduos, especialmente em populações neurodivergentes.

3.             Sua palestra abordará um tema relevante para a compreensão do TEA. Por que considera esse assunto importante e quais contribuições pretende apresentar ao público do congresso?

Minha palestra, “Autismo e ambiente construído: entre evidências, individualidade e projeto”, parte de uma questão simples: se o ambiente participa da experiência humana, como podemos projetar para pessoas cuja percepção sensorial e relação com o espaço podem ser muito diferentes entre si? O ponto principal é mostrar que não existe uma fórmula arquitetônica universal para o autismo.

Pretendo apresentar critérios de projeto relacionados à acústica, iluminação, organização espacial, previsibilidade, controle ambiental, transições e possibilidades de refúgio. Mas quero fazer isso deixando muito claro que essas estratégias precisam ser interpretadas como possibilidades, não como prescrições. Em ambientes para pessoas neurodivergentes, o briefing individual, a escuta da família e a parceria com outros profissionais são fundamentais.

4.             A inclusão é um dos eixos centrais do evento. Na prática, quais são atualmente os principais obstáculos para que pessoas autistas tenham participação plena na saúde, na educação, no trabalho e na sociedade?

Um dos principais obstáculos é que muitos ambientes ainda são pensados para um usuário considerado “padrão”. Isso aparece na arquitetura, na comunicação, nas rotinas e nos serviços. Um espaço pode ser fisicamente acessível e, ainda assim, apresentar excesso de ruído, iluminação desconfortável, circulação confusa, pouca previsibilidade ou ausência de alternativas para diferentes necessidades sensoriais.

Além disso, ainda existe uma expectativa de que a pessoa se adapte ao ambiente, quando muitas vezes o ambiente também poderia ser ajustado. A inclusão real exige essa mudança de perspectiva. Não significa criar um espaço totalmente específico para cada indivíduo, o que seria inviável em muitos contextos, mas oferecer mais possibilidades de escolha, adaptação e controle.

5.             A programação reúne profissionais de diferentes áreas. Como a atuação interdisciplinar pode contribuir para uma compreensão mais ampla, ética e individualizada das pessoas autistas?

Considero a atuação interdisciplinar essencial. O arquiteto entende espaço, circulação, iluminação, materiais e organização ambiental. Outros profissionais compreendem aspectos clínicos, educacionais, comportamentais, comunicacionais e sensoriais. Quero contribuir com o olhar da arquitetura e principalmente aprender com todos os demais profissionais.

Essa colaboração também ajuda a evitar interpretações excessivas. Um comportamento observado em determinado ambiente não pode ser atribuído automaticamente à arquitetura. Precisamos compreender a pessoa, sua história, suas necessidades e o contexto. Para mim, o projeto precisa ser humanizado e ele somente atinge esse objetivo quando o conhecimento técnico de diferentes profissionais se soma à experiência da própria pessoa autista e de sua família.

6.             Considerando sua experiência, quais práticas, estratégias ou formas de acompanhamento podem favorecer o desenvolvimento, a autonomia, o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas autistas?

Na minha área, eu começaria sempre pela investigação. Antes de propor qualquer estratégia ambiental, precisamos observar como aquela pessoa utiliza o espaço, quais situações geram conforto ou desconforto, quais estímulos parecem relevantes e quais adaptações ela própria já desenvolveu.

O design baseado em evidências pode contribuir bastante nesse processo. Podemos utilizar o conhecimento científico disponível para fundamentar decisões, mas também precisamos verificar o que acontece depois que o ambiente é ocupado. A avaliação pós-ocupação é extremamente importante porque permite comparar a intenção do projeto com a experiência real de quem utiliza o espaço e corrigir aquilo que não funcionou como esperado.

7.             O autismo também repercute na vida familiar e na rede de apoio. Que orientações considera essenciais para familiares, cuidadores e profissionais que acompanham pessoas autistas?

Começar sempre pela observação cotidiana através das perguntas. As perguntas são poderosas ferramentas para compreender como aquela pessoa se relaciona com cada ambiente. Onde ela prefere ficar? Quais espaços evita? Que tipos de luz, som ou organização parecem incomodar? Em que situações ela busca mais isolamento ou mais proximidade?

Também considero essencial ouvir toda a família, porque a casa é um sistema compartilhado. Uma adaptação pode beneficiar uma pessoa e dificultar a rotina de outra. Por isso, as perguntas precisam envolver não apenas a pessoa autista, mas também quem convive diretamente com ela. O objetivo é identificar os padrões familiares e buscar as estratégias que respeitem necessidades individuais sem perder de vista a dinâmica familiar.

8.             Como congressos científicos e iniciativas educativas podem ajudar a combater preconceitos, informações incorretas, estigmas e visões limitadas sobre o autismo?

Congressos científicos favorecem a difusão de conhecimento fundamentado e a atualização profissional, contribuindo para reduzir a circulação de informações simplificadas ou sem respaldo científico. Hoje existe uma quantidade enorme de informações circulando sobre autismo e neurociência, especialmente nas redes sociais, mas nem sempre essas informações refletem o que a literatura científica realmente demonstra.

Também considero importante que os eventos apresentem não apenas resultados positivos, mas limitações, lacunas e perguntas ainda sem resposta. Acredito que a ciência avança com mais robustez na medida em que reconhece onde ainda não sabe, e isso leva tempo. Esse entendimento se faz especialmente relevante no autismo, porque simplificações excessivas podem gerar estereótipos e intervenções inadequadas.

9.             Em relação aos direitos e às políticas públicas, quais avanços ainda são necessários no Brasil e no cenário internacional para assegurar inclusão, acessibilidade, cuidado e respeito às pessoas autistas?

Ainda precisamos ampliar o conceito de acessibilidade. Durante muito tempo, a discussão ficou muito concentrada nas barreiras físicas, que continuam sendo importantes, mas hoje sabemos que também existem barreiras sensoriais, cognitivas, comunicacionais e sociais.

Na arquitetura e no planejamento urbano, isso significa começar a considerar diversidade desde a concepção dos espaços. Escolas, unidades de saúde, ambientes de trabalho, transporte e equipamentos públicos podem oferecer maior previsibilidade, clareza espacial e possibilidades de adaptação. Também considero importante que as políticas públicas incentivem avaliações pós-ocupação, para que possamos verificar se as soluções realmente funcionam na prática.

10.          Existe alguma experiência pessoal ou profissional relacionada ao autismo que tenha transformado sua forma de compreender o tema ou de exercer sua profissão? Caso se sinta confortável, poderia compartilhá-la?

O que mais transformou minha maneira de pensar foi perceber que, quanto mais eu estudava o tema, menos sentido fazia procurar uma solução arquitetônica universal. Precisei descontruir alguns dogmas da arquitetura, como por exemplo: deixar de começar pelo repertório de soluções e passar a começar pelas pessoas através das perguntas.

Eu não tive uma experiência de projeto diretamente relacionada ao autismo, mas trabalhei em um projeto para uma criança com uma síndrome rara. Justamente por haver poucas referências específicas disponíveis, durante a pesquisa encontrei mais estudos relacionados ao autismo e à neurodivergência, e isso ampliou minha compreensão sobre a importância do trabalho conjunto com profissionais da saúde. Também reforçou algo que hoje considero central na minha prática: a qualidade do projeto depende muito da profundidade do briefing e da observação dos usuários. Para mim, isso não vale apenas para pessoas neurodivergentes. Vale para qualquer projeto em que exista a intenção de compreender de fato quem usa o espaço, como vive, quais são suas rotinas e quais demandas nem sempre aparecem de forma clara em uma primeira conversa.

11.          O que o público pode esperar da sua participação e da palestra que apresentará no Congresso Autismo em Evidência?

Pode esperar uma abordagem prática, mas cuidadosa do ponto de vista científico. Vou abordar um contexto escolar para apresentar estratégias ambientais já utilizadas em projetos voltados a pessoas autistas e discutir em que medida algumas delas podem ser adaptadas ao ambiente residencial.

Entre os conceitos que pretendo abordar estão o design biofílico, o design salutogênico, princípios do Design Universal, além de noções como wayfinding e affordances. Mais do que apresentar soluções prontas, quero mostrar um processo de raciocínio: conhecer a pessoa, compreender o contexto, buscar evidências, formular hipóteses de projeto, trabalhar de forma multidisciplinar e avaliar o ambiente em uso.

12.          Para finalizar, qual mensagem gostaria de deixar aos participantes do congresso, às pessoas autistas, às famílias, aos profissionais e à sociedade?

Minha principal mensagem é que precisamos olhar para o ambiente físico como parte da experiência humana, sem esquecer que essa experiência nunca é igual para todos. O espaço físico é continuamente percebido pelo nosso sistema nervoso e participa da forma como nos orientamos, reagimos e nos relacionamos com o mundo, mas ainda há muito a compreender sobre essas relações.

Quando falamos de autismo, essa escuta precisa ser ainda mais cuidadosa. Não existe um único modo de perceber, sentir ou usar um espaço, por isso dificilmente existe uma resposta arquitetônica que sirva para todos. Escutar a pessoa autista, compreender sua rotina e sua família, dialogar com diferentes profissionais, recorrer às melhores evidências disponíveis e observar o ambiente depois de ocupado me parece hoje um caminho mais humano, mais ético e mais responsável para projetar.

Ivinara Romero Fogaça
Autismo e ambiente construído: entre evidências, individualidade e projeto
Ivinara Romero Fogaça é Arquiteta Urbanista e pesquisadora na área de neurociência aplicada à arquitetura. É Mestranda em Neurociência, Master em Neuroarquitetura e MBA em Projetos para Ambientes de Trabalho. Cofundadora do GEP Neuroarq, grupo de estudos e pesquisas em Neurociência e Arquitetura, e autora do livro Neuroarquitetura: Projetando Ambientes para os Desafios Contemporâneos. Dedica-se a compreender como os espaços construídos influenciam o comportamento, a saúde e a qualidade de vida, com atenção especial às necessidades sensoriais das pessoas neurodivergentes.

Fotógrafa: By Gisele Espindola

Congresso On-line Internacional Autismo em Evidência
📅
⏰ 7, 8 e 9 de outubro: a partir das 20h
⏰ 10 de outubro: a partir das 9h
🌎 Evento internacional 100% on-line
🕒 Horário de Brasília
🎓 Certificado de participação

Site oficial:
https://congressoautismoemevidencia.lovable.app/

Inscrições:
https://www.even3.com.br/congressoonlineautismoemevidencia-772281/

Instagram:
@congressoautismoemevidencia

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