setembro 16, 2026

O que a IA enxerga quando encontra uma lacuna no seu currículo?

Kauã Leandro, especialista em mercado de trabalho

Dados do IBGE mostram o impacto das interrupções profissionais; com processos seletivos cada vez mais automatizados, especialistas alertam para o risco de transformar lacunas no currículo em critérios automáticos de eliminação

As trajetórias profissionais estão cada vez menos lineares. Se no passado uma lacuna no currículo era vista com desconfiança pelos recrutadores, hoje o mercado começa a entender que um período de afastamento não significa necessariamente perda de capacidade técnica ou desatualização.

Mudanças pessoais, cuidados com a família, períodos de estudo, transições de carreira ou empreendedorismo são alguns dos fatores que podem levar profissionais a fazer pausas temporárias.

Segundo dados do IBGE, no terceiro trimestre de 2024, cerca de 13 milhões de mulheres estavam fora da força de trabalho devido a cuidados domésticos e familiares. Entre os homens nessa situação, o percentual era de 3%. Já no primeiro trimestre de 2026, 1,1 milhão de pessoas buscavam uma oportunidade havia dois anos ou mais.

Para Kauã Leandro, especialista em mercado de trabalho e gerente de Novos Negócios do Trabalha Brasil (TBR), o desafio das empresas é evitar que uma pausa na carreira funcione como um filtro automático de eliminação.

“Uma lacuna no currículo não deve ser interpretada automaticamente como perda de empregabilidade. Carreiras não precisam seguir uma linha contínua para que um profissional desenvolva competências relevantes. É preciso avaliar o contexto, o aprendizado acumulado e o que essa pessoa é capaz de entregar ao retornar”, destaca.

O que o RH deve observar além da lacuna

Na avaliação de candidatos, concentrar a análise apenas no tempo fora do mercado pode fazer com que empresas deixem de identificar profissionais qualificados. Cursos, projetos independentes, trabalhos autônomos, empreendedorismo e trabalho voluntário podem demonstrar que o profissional continuou desenvolvendo conhecimentos e habilidades durante o período.

Também é importante considerar competências como capacidade de adaptação, organização, gestão de tempo e aprendizado, além do histórico profissional completo e da aderência à vaga. A análise da trajetória precisa ir além da sequência de cargos e datas registrada no currículo.

Essa atenção se torna ainda mais relevante quando a primeira triagem é feita por sistemas de recrutamento e inteligência artificial. As ferramentas podem analisar currículos a partir de palavras-chave, experiências, formação e outros critérios definidos pelas empresas antes que o candidato chegue à avaliação humana.

Quando a primeira triagem é feita por IA

O ponto de atenção não está necessariamente no uso da tecnologia, mas nos critérios utilizados para orientar a seleção. Se o sistema estiver configurado para priorizar trajetórias contínuas ou interpretar determinados intervalos profissionais como um sinal negativo, candidatos qualificados podem ser descartados antes mesmo de uma análise mais aprofundada.

“A inteligência artificial pode tornar a triagem mais ágil, mas é fundamental entender quais critérios estão sendo utilizados. Se uma lacuna no currículo for interpretada automaticamente como falta de capacidade, existe o risco de eliminar profissionais que poderiam atender muito bem àquela oportunidade”, explica Isabela Agibert, do RH Estratégico da Employer Recursos Humanos.

Para a especialista, a tecnologia deve funcionar como apoio à tomada de decisão, e não substituir a análise sobre a trajetória profissional. “A IA pode ajudar o recrutador a organizar informações e identificar candidatos aderentes à vaga, mas a decisão precisa considerar o contexto. Uma carreira não pode ser resumida apenas à sequência de cargos e datas que aparecem no currículo”, afirma.

Preparação de ambos os lados

A retomada de carreira exige movimentos tanto dos profissionais quanto das organizações. Para quem busca uma nova oportunidade, atualização técnica, reconstrução da rede de contatos e clareza para explicar o período de pausa durante as entrevistas podem facilitar o retorno ao mercado.

Para as empresas, o movimento passa pela revisão dos critérios de seleção e pela capacitação dos times de RH para identificar competências e potencial de entrega. Também é importante acompanhar como as ferramentas de inteligência artificial estão sendo utilizadas e quais parâmetros orientam a triagem.

“Uma carreira não deixa de existir durante uma pausa. O profissional pode retornar com novas perspectivas e competências ainda mais maduras. As empresas que aprendem a reconhecer esse potencial, inclusive com o uso responsável da tecnologia, saem na frente na atração de talentos”, conclui Kauã.

Trabalha Brasil

O Trabalha Brasil é composto por um time de mais de 100 profissionais de tecnologia e Recursos Humanos, que se dedicam para aprimorar a plataforma que atende cada vez mais as necessidades dos trabalhadores, que buscam dignidade financeira por meio do trabalho.

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