setembro 21, 2026

ENTREVISTA ESPECIAL – CONGRESSO AUTISMO EM EVIDÊNCIA

  1. O Congresso Autismo em Evidência propor um diálogo nacional e internacional sobre o Transtorno do Espectro Autista. Na sua área de atuação, quais avanços científicos, profissionais ou sociais merecem maior destaque atualmente?
    Um dos avanços mais importantes é o reconhecimento de que o autismo não corresponde a um perfil humano único. O espectro reúne pessoas com diferentes formas de perceber, comunicar-se, aprender, movimentar-se e relacionar-se com o ambiente. Essa heterogeneidade exige que abandonemos explicações generalizantes e compreendamos cada pessoa a partir da interação entre suas características, sua história, suas potencialidades, suas necessidades e seu contexto de vida.
    Nas Ciencias do Movimento Humano, nas Neurociencias e na Educacao, também cresce a compreensão de que cognição, emoção, percepção e ação não funcionam separadamente. O corpo não é apenas executor de comandos cerebrais: ele participa da produção da experiencia e do conhecimento. Por isso, movimento, atividade física, experiencias sensoriais e oportunidades de exploração corporal precisam ser considerados de forma individualizada, respeitando interesses, condições clínicas, modos de autorregulação e preferências pessoais.
  2. Como sua trajetória pessoal, acadêmica ou profissional se conectou ao tema do autismo e o que motivou sua participação no Congresso Autismo em Evidência?
    Minha trajetória profissional começou na Educação Fisica e, ao longo de mais de duas décadas de docência e pesquisa, ampliou-se para a Fisiologia do Exercício, a Biomecanica, as Ciencias do Movimento Humano, a Educacao e as Neurociencias. Sempre me interessaram as diferenças entre as pessoas: por que aprendem de maneiras distintas, por que respondem de formas diferentes aos mesmos estímulos e como corpo, ambiente, emoção e cognição participam desses processos.
    Essa conexão também adquiriu uma dimensão pessoal quando, já na vida adulta, recebi o diagnóstico de autismo associado a indicadores de altas habilidades e superdotacao. O diagnostico não criou uma nova pessoa nem apagou minha história. Ele ofereceu uma linguagem para reinterpretar características, potencialidades, estratégias de adaptação e custos que permaneceram pouco compreendidos durante muitos anos. Participar do congresso representa a oportunidade de reunir conhecimento científico, experiencia profissional e reflexão vivida, sem transformar uma experiência individual em regra para todas as pessoas autistas.
  3. Sua palestra abordará um tema relevante para a compreensão do TEA. Por que considera esse assunto importante e quais contribuições pretende apresentar ao público do congresso?
    A palestra parte de uma questão fundamental: o que consideramos inteligência e quais manifestações da capacidade humana permanece invisíveis quando utilizamos critérios excessivamente estreitos? Pretendo discutir a inteligência como um fenômeno complexo, que não se reduz ao quociente intelectual, ao desempenho escolar ou ao domínio da linguagem. Ela se manifesta também na percepção, no movimento, na criatividade, na capacidade de reconhecer padrões, na resolução de problemas e na relação entre corpo, tarefa e ambiente.
    Abordarei as inteligências múltiplas como uma lente educacional, reconhecendo suas contribuições e seus limites científicos, e dialogarei com concepções contemporâneas de cognição incorporada, neurodiversidade e dupla excepcionalidade. A intenção não é afirmar que toda pessoa autista possui uma capacidade extraordinária, mas mostrar que alguns perfis apresentam assimetrias marcantes: grandes potencialidades podem coexistir com necessidades específicas e custos adaptativos pouco visíveis. Precisamos olhar para além do déficit, sem cair na romatizacao da genialidade.
  4. A inclusão é um dos eixos centrais do evento. Na prática, quais são atualmente os principais obstáculos para que pessoas autistas tenham participação plena na saúde, na educação, no trabalho e na sociedade?
    O primeiro obstáculo é confundir presença física com participação efetiva. Colocar uma pessoa em uma escola, universidade, serviço de saúde ou ambiente de trabalho não significa que ela esteja verdadeiramente participando. Muitas vezes existe inserção institucional, acompanhada de práticas padronizadas, barreiras comunicacionais, ambientes sensorialmente inadequados e expectativas construídas sem conhecimento da pessoa concreta.
    Outro obstáculo é a oscilação entre dois extremos: enxergar a pessoa autista exclusivamente pelo déficit ou idealiza-la como alguém necessariamente genial. Ambos são reducionistas. A participação plena exige reconhecimento individualizado, escuta, acessibilidade, suporte proporcional às necessidades e oportunidades reais de desenvolvimento. Não se trata simplesmente de diminuir exigências, mas de compreender a singularidade para que as exigências sejam justas, os recursos estejam disponíveis e as potencialidades não permaneçam invisíveis.
  5. A programação reúne profissionais de diferentes áreas. Como a atuação interdisciplinar pode contribuir para uma compreensão mais ampla, ética e individualizada das pessoas autistas?
    Nenhuma área, isoladamente, consegue compreender todas a complexidade de uma pessoa. Medicina, Psicologia, Terapia Ocupacional, Fonoaudiologia, Educacao Fisica, Fisioterapia, Pedagogia, Servico Social, Neurocienas e Educacao observam dimensões diferentes, mas interdependentes. A interdisciplinaridade torna-se efetiva quando esses conhecimentos dialogam entre si e também com a pessoa autista e sua rede de apoio.
    É preciso, entretanto, evitar que a multiplicidade de profissionais produza fragmentação. A pessoa não pode ser reduzida a um conjunto de relatórios, sintomas ou intervenções desconectadas. Uma atuação ética deve integrar saúde, movimento, comunicação, aprendizagem, autonomia, participação social, interesses e projeto de vida. O centro do acompanhamento precisa ser a pessoa em sua totalidade, e não a defesa corporativa de uma técnica ou profissão.
  6. Considerando sua experiência, quais práticas, estratégias ou formas de acompanhamento podem favorecer o desenvolvimento, a autonomia, o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas autistas?
    As práticas mais promissoras são aquelas que começam por uma avaliação individualizada e funcional. É necessário compreender o que aquela pessoa consegue realizar, o que deseja desenvolver, quais barreiras enfrenta, quais situações provocam sobrecarga e quais recursos favorecem sua participação. Objetivos significativos devem ser construídos com a própria pessoa sempre que possível, considerando também sua família e os profissionais envolvidos.
    No campo do movimento humano, atividades físicas e experiências corporais podem contribuir para saúde, autonomia, consciência corporal, autorregulação, socialização e qualidade de vida. Entretanto, elas não devem ser impostas como receita universal. Modalidade, intensidade, ambiente, estímulos sensoriais, previsibilidade e forma de interação precisam ser ajustados. Favorecer desenvolvimento não significa normalizar comportamentos ou apagar singularidades; significa ampliar possibilidades concretas de viver, escolher, participar e realizar projetos pessoais.
  7. O autismo também repercute na vida familiar e na rede de apoio. Que orientações considera essenciais para familiares, cuidadores e profissionais que acompanham pessoas autistas?
    A primeira orientação é conhecer a pessoa antes de tentar enquadrá-la em uma descrição genérica do autismo. O diagnóstico é importante, mas não substitui a observação cotidiana, o diálogo e a compreensão dos interesses, desconfortos, capacidades e formas particulares de comunicação. É fundamental não interpretar toda dificuldade como falta de vontade, nem toda competência aparente como ausência de necessidade de apoio.
    Também considero essencial equilibrar proteção e autonomia. A família precisa oferecer segurança e suporte sem construir antecipadamente uma identidade de incapacidade. Ao mesmo tempo, não deve ignorar sofrimentos ou exigir adaptação permanente a qualquer custo. Estimular escolhas, responsabilidades e participação nas decisões ajuda a desenvolver autonomia. Cuidar da saúde e do bem-estar de familiares e cuidadores também é indispensável, pois nenhuma rede de apoio se sustenta por muito tempo se estiver permanentemente esgotada.
  8. Como congressos científicos e iniciativas educativas podem ajudar a combater preconceitos, informações incorretas, estigmas e visões limitadas sobre o autismo?
    Congressos científicos criam espaços de encontro entre pesquisa, prática profissional e experiência vivida. Eles ajudam a diferenciar evidência de opinião, questionam soluções milagrosas e permitem reconhecer que o conhecimento sobre o autismo continua em construção. Também favorecem o diálogo entre diferentes áreas e realidades culturais, evitando que uma única narrativa seja tratada como explicação suficiente.
    Esses encontros, entretanto, não devem apenas divulgar informações: precisam qualificar o pensamento. Combater preconceitos significa superar tanto a visão da pessoa autista como incapaz quanto sua representação romantizada como gênio incompreendido. A ciência contribui quando amplia a compreensão da diversidade existente no espectro, reconhece limites do conhecimento disponível e transforma evidências em práticas responsáveis e socialmente consequentes.
  9. Em relação aos direitos e às políticas públicas, quais avanços ainda são necessários no Brasil e no cenário internacional para assegurar inclusão, acessibilidade, cuidado e respeito às pessoas autistas?
    O Brasil possui uma base legal relevante, mas ainda existe grande distância entre o direito formalmente reconhecido e sua concretização. Precisamos fortalecer redes públicas integradas, reduzir desigualdades regionais, qualificar profissionais, melhorar o acesso ao diagnóstico e assegurar acompanhamento ao longo de toda a vida — não apenas durante a infância. Também são necessários caminhos mais consistentes para educação, formação profissional, ingresso e permanência no trabalho, saúde integral, moradia e participação comunitária.
    Outro avanço indispensável é produzir políticas orientadas por dados e avaliadas por resultados concretos. Não basta contabilizar atendimentos, matrículas ou documentos emitidos; é necessário verificar se houve desenvolvimento, autonomia, aprendizagem, saúde, participação e qualidade de vida. No cenário internacional, as políticas precisam respeitar diferenças econômicas e culturais, sem abandonar princípios comuns de dignidade, acessibilidade, equidade e participação das próprias pessoas autistas na construção das decisões que lhes dizem respeito.
  10. Existe alguma experiência pessoal ou profissional relacionada ao autismo que tenha transformado sua forma de compreender o tema ou de exercer sua profissão? Caso se sinta confortável, poderia compartilhá-la?
    Receber o diagnóstico na vida adulta foi uma experiência profundamente reorganizadora. Ele não alterou quem eu era, mas modificou a forma como passei a compreender minha trajetória. Situações que antes pareciam isoladas começaram a formar um conjunto mais inteligível: modos particulares de aprender, interesses intensos, grande exigência pessoal, diferenças de interação e estratégias desenvolvidas ao longo da vida para responder às expectativas sociais.
    Uma dessas estratégias foi o mascaramento ou camuflagem. Reconheço que ele pode ter contribuído para minha adaptação e para a construção de repertórios sociais e profissionais, mas também compreendo hoje que essa adaptação teve custos. Essa experiência tornou meu olhar ainda mais atento às potencialidades que podem esconder dificuldades e às dificuldades que podem encobrir potencialidades. Como professor, fortaleceu minha convicção de que compreender a singularidade não significa reduzir expectativas, mas construir condições mais justas para o desenvolvimento.
  11. O que o público pode esperar da sua participação e da palestra que apresentará no Congresso Autismo em Evidência?
    O público pode esperar uma reflexão interdisciplinar sobre inteligência, corpo, movimento, aprendizagem, autismo e altas habilidades. Partiremos de concepções tradicionais de inteligência para discutir como diferentes capacidades podem se organizar em perfis singulares e como determinadas potencialidades podem aparecer de forma muito expressiva, enquanto outras dimensões exigem maior esforço, suporte ou adaptação.
    Pretendo aproximar Gardner, as Neurociências, as Ciências do Movimento Humano e o pensamento complexo, sem apresentar respostas simplistas. A palestra não será uma defesa do autismo como deficiência absoluta nem como vantagem extraordinária. Será um convite para compreender a pessoa para além dessas duas imagens, reconhecendo capacidades, necessidades, estratégias adaptativas, contextos e custos invisíveis.
  12. Para finalizar, qual mensagem gostaria de deixar aos participantes do congresso, às pessoas autistas, às famílias, aos profissionais e à sociedade?
    Nenhuma pessoa pode ser compreendida apenas por um diagnóstico, por uma dificuldade ou por uma habilidade extraordinária. Somos constituídos por relações complexas entre corpo, mente, história, ambiente, cultura, limites, escolhas e possibilidades. Reconhecer o autismo é importante, mas reconhecer a pessoa em sua totalidade é indispensável.
    Às famílias e aos profissionais, deixo um convite: ofereçam apoio sem produzir tutela, reconheçam dificuldades sem decretar incapacidade e valorizem potencialidades sem transformar a pessoa em uma expectativa de genialidade. Às pessoas autistas, deixo meu respeito por suas trajetórias singulares. E à sociedade, uma reflexão: não precisamos diminuir a exigência diante da diferença; precisamos compreender a diferença para que a exigência seja justa, o suporte seja digno e nenhuma potência permaneça invisível.

Fabio da Silva Ferreira Vieira
Profissional de Educação Física, Mestre em Performance Humana, Doutor em Ciências do Movimento Humano, PhD em Educação e pós-doutorando em Neurociências.
Professor de Educação Física, Professor Universitário e pesquisador com atuação acadêmica e profissional em âmbito nacional e internacional.
Título da Palestra: “A Inteligência Humana em Movimento: Corpo, Singularidade e Complexidade – Autismo, Altas Habilidades e Perfis Cognitivos para Além do Deficit e da Genialidade”.

Congresso On-line Internacional Autismo em Evidência
📅
⏰ 7, 8 e 9 de outubro: a partir das 20h
⏰ 10 de outubro: a partir das 9h
🌎 Evento internacional 100% on-line
🕒 Horário de Brasília
🎓 Certificado de participação

Site oficial:
https://congressoautismoemevidencia.lovable.app/

Inscrições:
https://www.even3.com.br/congressoonlineautismoemevidencia-772281/

Instagram:
@congressoautismoemevidencia

Ciência • Conhecimento • Prática • Impacto

Mais resultados...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors