A inteligência artificial avança nas empresas brasileiras, mas adotar a tecnologia não significa necessariamente transformar a maneira de trabalhar. A pesquisa TIC Empresas, divulgada pelo Cetic.br em junho de 2026, mostrou que 17% das companhias no país já utilizavam algum tipo de IA em 2025, proporção que chegou a 50% entre as grandes organizações. À medida que o uso cresce, aumenta também a pressão para transformar investimento em ganho concreto de produtividade e eficiência.
Para Bruno Omeltech, administrador, contador e especialista em gestão de pessoas, fundador e CEO da Omeltech, hub de educação corporativa que desenvolve jornadas de aprendizagem e capacitação para médias e grandes empresas, um dos principais riscos é usar inteligência artificial apenas para acelerar atividades que nunca foram questionadas.
“Existe uma diferença grande entre automatizar uma tarefa e transformar a maneira como o trabalho é realizado. Se a empresa coloca inteligência artificial sobre um processo cheio de etapas desnecessárias, ela pode ganhar velocidade sem resolver os gargalos que limitam produtividade e tomada de decisão”, afirma.
Um estudo global da PwC, publicado em abril de 2026, realizado com 1.217 executivos de 25 setores, identificou que empresas com melhor desempenho financeiro relacionado à IA são duas vezes mais propensas a redesenhar seus fluxos de trabalho para incorporar a tecnologia, em vez de apenas adicionar novas ferramentas às rotinas existentes.
Inteligência artificial exige revisão dos processos
Redesenhar o trabalho significa analisar uma atividade do início ao fim antes de decidir onde aplicar IA. Isso pode envolver eliminar etapas, integrar informações, automatizar tarefas repetitivas e redefinir quais decisões continuam dependendo diretamente das pessoas.
Na avaliação do administrador, a ordem dessas escolhas faz diferença. “A pergunta não deveria ser onde podemos colocar inteligência artificial, mas qual problema estamos tentando resolver. Depois disso, é possível avaliar o que precisa continuar sendo feito por uma pessoa, o que pode ser apoiado pela tecnologia e o que talvez nem precise mais existir”, ressalta.
Na prática, um profissional que reúne dados de diferentes sistemas, transfere informações para uma planilha, prepara uma apresentação e encaminha o material para aprovação pode utilizar IA apenas para realizar cada etapa mais rapidamente. Outra possibilidade é revisar todo o fluxo, reduzir atividades manuais e direcionar esse profissional para análise e tomada de decisão.
Por onde o empresário pode começar
Para empresas que ainda não redesenharam seus processos, o primeiro passo pode ser menos tecnológico do que parece. Bruno recomenda começar pelo mapeamento das atividades que mais consomem tempo, geram retrabalho ou dependem de muitas aprovações.
A partir daí, a liderança pode identificar quais etapas realmente agregam valor, quais podem ser eliminadas e onde a inteligência artificial pode apoiar a execução sem comprometer controle e qualidade. Outro ponto é observar onde decisões importantes ainda dependem de informações dispersas ou consolidadas manualmente. Processos desse tipo costumam revelar oportunidades de integração, automação e revisão de responsabilidades.
“O empresário não precisa começar pela ferramenta mais sofisticada. Precisa começar pela dor mais clara. Se existe retrabalho, demora, excesso de etapas ou gente qualificada gastando tempo com tarefas repetitivas, ali já existe um ponto de partida para redesenhar o trabalho”, explica.
O modelo de gestão também entra na conta
O Work Trend Index 2026, da Microsoft, mostrou que fatores organizacionais, como cultura, apoio da liderança e desenvolvimento de talentos, exercem influência relevante sobre o impacto percebido da IA no trabalho.
Para o especialista, isso ajuda a explicar por que empresas com acesso às mesmas ferramentas podem obter resultados diferentes. “A vantagem não está apenas no acesso à inteligência artificial, mas na capacidade de reorganizar processos, preparar pessoas, rever responsabilidades e mudar a forma como as decisões são tomadas. É aí que a tecnologia começa a se transformar em vantagem competitiva”, afirma.
Na Omeltech, essa abordagem já aparece em projetos de educação corporativa. Em uma iniciativa voltada a profissionais de uma empresa de telecomunicações, foram estruturadas academias de digital, IA e dados com foco na aplicação das competências ao cotidiano. Em outro projeto, direcionado a lideranças da construção civil, os encontros trataram a inteligência artificial como instrumento de decisão e gestão.
Produtividade começa pelo que deixa de ser feito
A adoção da inteligência artificial também muda a forma de medir produtividade. Se uma atividade passa de quatro horas para uma, o ganho não está apenas no tempo economizado, mas no que o profissional passa a conseguir fazer com a capacidade liberada. “Ganhar tempo não é o objetivo final. O valor aparece quando esse tempo passa a ser usado para analisar melhor, criar, conversar com clientes, desenvolver pessoas ou tomar decisões que antes eram adiadas. O maior desperdício da inteligência artificial acontece quando a tecnologia muda, mas a forma de trabalhar e de gerir continua exatamente igual”, conclui o administrador.
Sobre Bruno Omeltech
Administrador, contador e especialista em gestão de pessoas, fundador e CEO da Omeltech. Há mais de 12 anos na área, participou de projetos que já impactaram mais de 300 mil pessoas no Brasil, Estados Unidos, América Latina e Europa. Sua atuação reúne educação corporativa, desenvolvimento de lideranças, inteligência artificial aplicada ao trabalho, reskilling e upskilling.
Sobre a Omeltech
Fundada em 2011, a Omeltech é um hub de educação corporativa especializado na criação de jornadas de aprendizagem, programas de liderança e soluções educacionais personalizadas para médias e grandes empresas. Com atuação no Brasil e nos Estados Unidos, já alcançou mais de 300 mil pessoas. Entre as organizações que desenvolveram projetos com a empresa estão OLX, HCor, Algar, Mattel, Novartis e BNP Paribas Cardif.
Fontes: Cetic.br (TIC Empresas); PwC (2026 AI Performance Study); Microsoft (Work Trend Index 2026).