outubro 16, 2026

As empresas estão criando insiders que não são humanos

Isabel Silva, da Add Value

A mudança acontece quando a IA deixa de apenas responder perguntas e passa a executar tarefas.

Artigo de Opinião – Por Isabel Silva*

Durante anos, a cibersegurança tratou o insider threat como um problema humano. Um funcionário com acesso indevido, uma credencial comprometida ou alguém agindo de má-fé poderia atravessar controles e chegar a informações críticas. A inteligência artificial (IA) está criando uma nova categoria de risco: o insider não humano.

A mudança acontece quando a IA deixa de apenas responder perguntas e passa a executar tarefas. Um agente pode emitir um pedido, outro aprová-lo e um terceiro realizar o pagamento. Em outro cenário, um agente pode administrar infraestrutura, alterar configurações ou criar permissões. A empresa começa, na prática, a colocar “funcionários digitais” dentro de seus processos.

Isso não é uma hipótese distante. A Gartner prevê que pelo menos 15% das decisões de trabalho do dia a dia serão tomadas autonomamente por IA agêntica até 2028, contra zero em 2024. A Microsoft, por sua vez, identificou em 2025 que 46% dos líderes já afirmavam utilizar agentes para automatizar completamente fluxos ou processos.

O problema é que a velocidade de adoção pode superar a capacidade de controle. Hoje discutimos gestão de vulnerabilidades, identidade, privilégios e políticas de segurança. Amanhã, parte dessas mesmas disciplinas terá de responder a uma pergunta adicional: quem controla os agentes que receberam autorização para agir?

Um agente sem governança pode explorar permissões que não deveriam existir, acessar informações além de sua finalidade ou até criar acessos. E existe um agravante: muitas identidades não humanas já são difíceis de inventariar e controlar. Quando um agente recebe autonomia sobre múltiplos sistemas, a diferença entre automação legítima e risco interno começa a desaparecer.

A própria IBM encontrou sinais dessa lacuna. No relatório Cost of a Data Breach 2025, 13% das organizações pesquisadas relataram incidentes envolvendo modelos ou aplicações de IA. Entre essas organizações, 97% disseram não ter controles de acesso específicos para IA. Além disso, 63% não possuíam uma política de governança de IA ou ainda estavam desenvolvendo uma. No Brasil, apenas 29% das organizações pesquisadas haviam implementado tecnologias de governança de IA.

A questão, portanto, não é impedir a IA de acessar sistemas. É estabelecer limites claros para aquilo que ela pode fazer, em nome de quem, durante quanto tempo e com qual capacidade de impacto.

É quase como deixar uma pessoa dentro da empresa com a chave de tudo. Ela pode ser do bem. Pode cumprir perfeitamente sua função. Mas também pode ser comprometida, manipulada ou simplesmente tomar uma decisão errada. A diferença é que essa “pessoa” pode trabalhar 24 horas por dia, acessar diversos sistemas simultaneamente e executar decisões em uma escala que nenhum funcionário humano conseguiria reproduzir.

A próxima fronteira da cibersegurança, portanto, não será apenas proteger a IA contra quem está do lado de fora. Será impedir que uma IA sem controle se transforme no insider mais privilegiado da organização.

*Isabel Silva é Security Business Development Director da Add Value.

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