Com mais de 42% das tarefas realizadas por profissionais entre 20 e 34 anos potencialmente executáveis por inteligência artificial, debate sobre aprendizagem chega às estratégias de desenvolvimento das empresas
A inteligência artificial já participa da aprendizagem dos jovens e coloca em debate como preservar a autonomia intelectual e o pensamento crítico dos estudantes. No Brasil, o Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou, em 1º de setembro, o Parecer CNE/CP nº 15/2026, aguardando homologação, que propõe diretrizes para o uso da tecnologia na educação, com foco na ampliação das capacidades humanas e na preservação da autoria e da capacidade de julgamento.
A discussão acompanha uma prática já presente na rotina escolar. Dados do Pisa 2025, divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mostram que 48% dos estudantes brasileiros de 15 anos utilizam chatbots de IA pelo menos uma vez por semana para aprender, acima da média de 46% da organização. Entre as atividades realizadas com apoio da tecnologia, 40% dos estudantes brasileiros afirmam utilizá-la para pesquisas preliminares, 31% para resumir textos e 27% para elaborar versões iniciais de trabalhos escritos.
Além do papel dessas ferramentas na aprendizagem, o debate também encontra espaço no mercado de trabalho. A análise “O Mercado de Trabalho e a Inteligência Artificial”, da E2+ Economia e Estratégia, estima que 42,3% das tarefas realizadas por profissionais de 20 a 24 anos e 42,7% daquelas executadas por trabalhadores de 25 a 34 anos são potencialmente realizáveis por IA. São os maiores percentuais entre as faixas etárias analisadas, acima da estimativa de 39% para o conjunto dos trabalhadores brasileiros.
A análise parte de estimativas de um estudo da Anthropic, adaptadas à realidade do mercado de trabalho brasileiro com base em dados da PNAD Contínua de 2025, do IBGE. O levantamento mede o potencial de execução de tarefas pela tecnologia, e não a proporção de empregos que será eliminada. Embora não investigue efeitos sobre a aprendizagem, o cenário abre uma discussão sobre o desenvolvimento profissional: como construir experiência e capacidade de decisão quando parte das atividades que ajudam nesse processo pode ser automatizada?
Para Samir Karam, COO da Performa_IT, empresa com atuação em transformação digital, inteligência artificial, dados e produto, a adoção da tecnologia precisa considerar tanto os ganhos nas entregas quanto a formação de quem participa delas. “Uma tarefa pode gerar uma entrega e, ao mesmo tempo, ensinar alguma coisa a quem a executa. Quando a empresa decide automatizá-la, precisa olhar para essas duas dimensões. O ganho de eficiência é importante, mas também é necessário pensar em como o profissional vai desenvolver o conhecimento que aquela experiência ajudava a construir”, afirma.
Da resposta pronta à compreensão do processo
O debate na educação também ajuda a compreender a importância de como a IA é utilizada na aprendizagem. Segundo a OCDE, os dados do Pisa 2025 mostram que estudantes que usam a tecnologia com frequência e aprendem a avaliar a qualidade das informações geradas apresentam melhor desempenho em ciências, embora os resultados não estabeleçam uma relação direta de causa e efeito.
No ambiente profissional, atividades como pesquisar informações, organizar dados e preparar análises também contribuem para a construção de conhecimento. Quando essas tarefas são automatizadas, as empresas precisam considerar como manter essas oportunidades de aprendizagem.
A preocupação com a perda de competências também aparece entre os profissionais ouvidos pela Wharton e pela GBK Collective. Nos Estados Unidos, 46% dos funcionários de nível inicial e intermediário entrevistados disseram temer um declínio das próprias habilidades ou capacidades cognitivas em decorrência do uso de IA, enquanto 44% perceberam queda na proficiência das habilidades em seu departamento. Os resultados registram percepções dos participantes, sem medir diretamente uma perda de competências.
O desafio, portanto, não está em preservar toda execução manual, mas em reconhecer o que precisa continuar sendo aprendido quando a forma de trabalhar muda. Uma análise produzida por IA ainda exige alguém capaz de avaliar suas fontes, identificar uma conclusão inadequada e explicar por que determinada recomendação faz sentido para o problema apresentado.
“Não basta dizer que o profissional vai deixar de executar e passar a atuar de forma estratégica. Essa transição precisa ser construída. Para questionar uma resposta da IA e tomar uma decisão, ele precisa conhecer o assunto, entender o contexto e ter espaço para aprender com a prática e com outras pessoas”, explica Karam.
Letramento vai além de aprender comandos
Para a Performa_IT, o letramento em IA vai além da familiaridade com chatbots e envolve compreender as possibilidades da tecnologia, avaliar seus riscos e saber aplicá-la aos desafios do negócio.
A percepção sobre esse preparo, porém, varia conforme a posição ocupada na empresa. Publicado em outubro de 2026 pela Wharton Human-AI Research e pela GBK Collective, o relatório “The Adaptive Advantage: Who’s Winning With AI and How” ouviu cerca de 1.400 profissionais de grandes empresas dos Estados Unidos. Enquanto 78% dos respondentes em cargos de gestão ou superiores consideram adequado o treinamento em IA oferecido aos funcionários, essa avaliação é compartilhada por 56% dos profissionais de nível inicial e intermediário.
À medida que a tecnologia assume parte da execução das tarefas, o desenvolvimento profissional também precisa acompanhar essa reorganização. Se determinadas atividades deixam de fazer parte da rotina, as empresas precisam avaliar como as competências associadas a elas continuarão sendo construídas.
“O objetivo do letramento não pode ser apenas ensinar alguém a obter uma boa resposta da IA. O profissional precisa construir repertório para saber quando usar a tecnologia, avaliar o resultado e identificar quando uma resposta aparentemente convincente está errada. Quanto mais a IA participa da execução, mais importante se torna a capacidade humana de questionar e decidir”, afirma Samir Karam.
AI Cards conectam a tecnologia aos problemas reais
Entre as iniciativas da Performa_IT voltadas ao letramento estão os AI Cards, ferramenta que ajuda pessoas que não são da área de tecnologia a identificar qual aplicação de IA é mais adequada para cada problema. A proposta parte do desafio a ser resolvido e estimula a reflexão sobre o objetivo da atividade e os critérios necessários para avaliar os resultados.
Para Zeh Negri, diretor de estratégia e educação da Performa_IT, esse movimento ajuda a transformar o interesse pela inteligência artificial em uma aplicação mais consciente. “Os AI Cards ajudam a trazer a conversa para o problema que a pessoa precisa resolver. Antes de sair usando um chatbot para tudo, ela precisa entender o que quer alcançar e qual aplicação de IA faz sentido naquele contexto. Esse exercício de escolha é parte do letramento, porque exige reflexão, e não apenas a reprodução de um comando”, explica.
A iniciativa se conecta à discussão sobre formação profissional ao estimular a compreensão das possibilidades da tecnologia. O profissional precisa construir critérios para decidir como utilizar a IA e o que verificar antes de incorporar uma resposta ao trabalho.
A discussão reforça o posicionamento da Performa_IT de colocar a IA no centro das soluções e pessoas no centro da transformação. Para a empresa, os ganhos de eficiência precisam caminhar junto ao desenvolvimento das equipes, garantindo que a automação também abra espaço para novas oportunidades de aprendizagem e preparação profissional.
Sobre a Performa_IT
A Performa_IT é uma empresa de tecnologia e inovação que atua como parceira estratégica na construção do futuro dos negócios, impulsionando processos de transformação digital por meio do desenvolvimento de soluções com inteligência artificial, engenharia e metodologias próprias para resolver desafios reais do mercado. Fundada por Léo Tristão, André Paganuchi e Samir Karam, a empresa tem presença no Brasil e atuação internacional a partir de Lisboa. Site: performait.com