Economistas e gestores alertam que juros acima de 15% e dólar elevado podem paralisar investimentos em 2027.
“Se o dólar e os juros ficarem nos níveis desta semana, o investimento produtivo deve praticamente parar de crescer em 2027. No segundo trimestre, o investimento em máquinas, equipamentos e construção cresceu 1,4% sobre o ano anterior. Com os juros futuros de longo prazo acima de 15% e o dólar perto de R$ 5,35, que encarece máquinas e insumos importados, a minha estimativa é de um crescimento entre zero e 1% no ano que vem, ou até de queda, se a incerteza se prolongar. O efeito sobre a economia aparece em duas frentes. O crescimento, que o mercado já projetava em 1,3% para 2027, pode ficar abaixo de 1%. E a inflação, em vez de cair, ganha um empurrão: pelas estimativas do próprio Banco Central, o dólar mais alto pode acrescentar entre 0,4 e 0,8 ponto ao IPCA do ano que vem, mantendo a inflação perto ou acima de 5% e o teto da meta fora de alcance até 2028. É o pior cenário possível: economia fraca e inflação alta ao mesmo tempo. A saída passa pelo fiscal. O país precisa de um superávit de cerca de 2% do PIB para estabilizar a dívida, mas não é preciso chegar lá de uma vez: o que o mercado precisa é de um caminho crível, com melhora de cerca de meio ponto do PIB por ano, definido em lei. A qualidade importa tanto quanto o tamanho. O ajuste deve vir da revisão de gastos obrigatórios e da redução de benefícios tributários, e não do corte do investimento público, que é o gasto que mais ajuda a economia a crescer. A Fazenda disse ontem que tem medidas prontas, e isso é um bom começo. Se elas forem anunciadas logo, junto com uma equipe econômica com credibilidade, o Banco Central pode voltar a reduzir os juros ao longo de 2027, e boa parte da queda desta semana pode ser recuperada. Se o anúncio demorar, o custo será pago em juros mais altos por mais tempo e em menos investimento”, afirma André Matos, CEO da MA7 Capital.
“Encurtar o caminho entre vender e receber pode liberar recursos para investir mesmo com juros elevados. Em uma empresa hipotética com R$ 100 milhões de vendas anuais a prazo, reduzir o recebimento em dez dias libera aproximadamente R$ 2,74 milhões de capital de giro, considerando vendas uniformes ao longo de 365 dias. Se esse dinheiro substituísse financiamento a um custo efetivo de 20% ao ano, a economia seria próxima de R$ 548 mil anuais, antes dos custos de implementação. Esse ganho importa em uma economia na qual o comprometimento da renda com dívidas já limita o consumo, como apontou a Fazenda. Até 2028, integrar pagamentos, cobrança e análise de crédito pode financiar parte da modernização sem aumento proporcional do endividamento. A eficiência financeira não substitui a demanda, mas melhora o uso do caixa. No campo fiscal, estímulos amplos ao consumo precisam ser avaliados pelo risco de prolongar os juros altos e reduzir seu próprio benefício”, afirma Letícia Moschioni, sócia da Finscale.
“A diversificação internacional deve considerar os riscos globais, além das incertezas brasileiras. O FMI alerta para possíveis correções ligadas às expectativas sobre inteligência artificial, à alta dos rendimentos dos títulos públicos e a ataques cibernéticos. Ter ativos em dólar muda a composição do risco, mas não elimina a concentração em empresas ou setores. Em uma simulação, uma carteira com 30% do patrimônio exposto à moeda americana ganha aproximadamente três pontos percentuais com uma valorização cambial de 10%, mantendo constantes os preços dos ativos e desconsiderando custos e tributos; o movimento inverso também vale. Até 2028, uma melhora fiscal brasileira pode favorecer o real e reduzir esse ganho cambial, preservando a utilidade da diversificação para quem tem compromissos no exterior. A alocação deve combinar geografias, setores, prazos e liquidez, com decisões orientadas pelos objetivos patrimoniais”, afirma Fábio Murad, consultor da Wiser Asset.
“A reação ao resultado eleitoral elevou a percepção de risco, pressionando dólar, juros futuros e decisões de investimento. Se câmbio e juros permanecerem elevados em 2027, estimamos que o investimento produtivo privado cresça entre 2 e 4 pontos percentuais menos que em um cenário de estabilidade, retirando de 0,3 a 0,6 ponto percentual do crescimento do PIB. Embora a demanda mais fraca alivie os preços, a desvalorização cambial persistente poderia acrescentar de 0,3 a 0,7 ponto percentual ao IPCA acumulado até 2028. Para reduzir esse risco, defendemos uma melhora do resultado primário de 1 a 1,5 ponto percentual do PIB em dois a três anos, com controle das despesas obrigatórias, revisão de benefícios tributários ineficientes e preservação dos investimentos públicos de maior retorno. Um ajuste crível, sem depender apenas de impostos ou cortes indiscriminados, favoreceria a queda sustentável dos juros e a recuperação do investimento, especialmente no setor imobiliário, em que o custo do capital influencia lançamentos, obras, empregos e oferta de moradias”, afirma André Luiz Haas Caruso, CEO da Pilar Capital.
“A capacidade de produzir mais com os recursos disponíveis será decisiva para sustentar o crescimento brasileiro. O FMI projeta expansão mundial de 3,4% em 2027, enquanto o Focus anterior à eleição indicava 1,31% para o Brasil, distância de 2,09 pontos percentuais. Reduzir essa diferença exige investimentos que ampliem a oferta e comprovem eficiência. Em uma simulação, automatizar 25% de uma atividade que consome 20% das horas de uma operação economiza 5% das horas totais, antes dos custos de implantação. Esse é um critério concreto para avaliar tecnologia em um ambiente global de forte investimento em inteligência artificial. A política fiscal deve preservar infraestrutura e formação profissional, com incentivos avaliados por resultados. No venture capital, essa leitura orienta a seleção de startups que entreguem economia mensurável ao cliente, receita recorrente e crescimento com disciplina de capital”, afirma Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest.
“Medir a exposição consolidada do patrimônio é essencial para transformar volatilidade em decisões consistentes. Em uma simulação, uma família com 20% da carteira efetivamente exposta ao dólar teria ganho cambial de aproximadamente dois pontos percentuais diante de uma valorização de 10% da moeda, mantendo constantes os preços dos ativos. Sem reunir informações de bancos, fundos e proteções, o investidor pode superestimar sua exposição ou contratar proteção duplicada. A inteligência artificial ajuda a organizar esse trabalho, mas exige governança de dados, avaliação de desempenho e supervisão humana, como orientam as práticas publicadas pelo Financial Stability Board em outubro. Até 2028, seu ganho econômico deve aparecer na redução do trabalho operacional e na qualidade do acompanhamento patrimonial. Em um ambiente de incerteza fiscal e juros elevados, informações consistentes permitem atualizar cenários com agilidade, preservando a responsabilidade do profissional sobre as decisões”, afirma Flávio Terni, CEO da Revert.
“O alongamento dos recebimentos pode aumentar a necessidade de financiamento mesmo sem expansão das vendas. Em uma simulação com volume diário constante, passar de 30 para 45 dias no prazo médio de recebimento eleva em 50% os recursos necessários para financiar esses recebíveis. A conta mostra por que liquidez e investimento precisam ser avaliados conjuntamente em um cenário de incerteza sobre juros, câmbio e demanda. No exterior, o FMI também identifica riscos associados aos conflitos, ao comércio e às vulnerabilidades fiscais. Para 2027 e 2028, fundos de crédito estruturado podem conectar poupança a operações produtivas viáveis, com análise dos recebíveis, diversificação e acompanhamento dos pagamentos. Um ajuste fiscal crível melhora as condições gerais, mas não substitui a seleção individual. A contribuição do mercado de capitais está em dar continuidade ao financiamento com prazos e riscos compreensíveis para empresas e investidores”, afirma Valdir Piran Jr., CEO do Intra.