Por Fabrício Ribeiro
Administrador, economista e jornalista
O Brasil não foi eliminado da Copa do Mundo apenas pela Noruega.
Foi eliminado por uma forma antiga de administrar o futebol: muita fé no talento, pouca gestão do processo. A derrota por 2 a 1, nas oitavas de final da Copa de 2026, expôs mais que erros em campo. Mostrou uma estrutura que ainda confunde camisa pesada com planejamento.
Como administrador, vejo uma organização sem continuidade. Como economista, vejo desperdício de capital humano. Como jornalista, vejo a repetição de uma história que o País insiste em tratar como acidente.
Não foi acidente em 2006, contra a França. Não foi acidente em 2010, contra a Holanda. Não foi acidente em 2014, no 7 a 1 contra a Alemanha. Não foi acidente em 2018, diante da Bélgica. Não foi acidente em 2022, nos pênaltis contra a Croácia. E não pode ser tratado como acidente agora, contra a Noruega.
Quando o mesmo problema se repete por seis Copas, ele deixa de ser acaso. Vira método. Ou falta dele.
A Seleção Brasileira virou uma empresa que tem marca forte, receita alta, ativos valiosos e governança frágil. Em qualquer organização, esse conjunto cobra preço. No futebol, ele aparece no placar. Na economia, aparece na perda de competitividade. Na administração, aparece no retrabalho, na troca constante de comando e na falta de metas claras.
O Brasil ainda administra a Seleção como se o improviso fosse virtude permanente. Não é. Improviso resolve uma emergência. Não sustenta uma estratégia. A genialidade individual pode decidir um jogo. Não organiza um ciclo de quatro anos.
A Europa entendeu isso antes. Formou treinadores, integrou categorias de base, mediu desempenho, estudou adversários e tratou o futebol como indústria. O Brasil seguiu tratando o talento como salvação. O resultado está no histórico recente: desde o título de 2002, a Seleção não voltou a uma final de Copa.
Há um custo econômico nessa sequência. A camisa da Seleção é um ativo global. A cada eliminação precoce, perde força simbólica, reduz impacto comercial e afeta patrocínios, produtos, audiência e imagem. O futebol brasileiro não perde só o jogo. Perde valor.
A economia ensina que recursos escassos exigem boa alocação. O Brasil tem jogadores, torcida, tradição e mercado. Falta transformar esses recursos em vantagem organizada. Talento sem gestão é estoque parado. Potencial sem projeto é promessa vencida.
A administração ensina que toda organização precisa de diagnóstico, planejamento, execução e controle. No futebol brasileiro, o diagnóstico costuma vir tarde. O planejamento muda conforme a pressão. A execução depende do brilho de poucos. O controle aparece depois da queda, em forma de entrevista, cobrança e demissão.
Depois passa.
Essa talvez seja a maior derrota: a capacidade nacional de se indignar por poucos dias e esquecer por quatro anos.
A eliminação para a Noruega deveria provocar uma pergunta simples: quem administra o futuro do futebol brasileiro? Não basta trocar técnico. Não basta culpar um pênalti perdido, uma substituição ou uma tarde ruim. Empresas sérias não explicam fracassos recorrentes por episódios isolados. Elas revisam processos.
O Brasil precisa fazer o mesmo.
É necessário discutir governança na CBF, formação de treinadores, calendário, base, ciência de dados, preparação mental, integração entre clubes e Seleção, critérios de convocação e modelo de jogo. Nada disso tira a poesia do futebol. Ao contrário. A organização protege o talento.
Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e tantos outros fizeram o mundo acreditar que o Brasil nascia pronto para ganhar. Esse passado é grandioso. Mas passado não entra em campo. História inspira. Não marca gol.
A Noruega não venceu apenas com Haaland. Venceu com leitura, disciplina e eficiência. O Brasil perdeu também para a própria dificuldade de aceitar que o futebol mudou. Hoje, seleção campeã não é só a que tem craques. É a que sabe o que fazer com eles.
A Seleção Brasileira virou um estudo de caso. Ela mostra como marcas líderes podem perder espaço quando deixam de inovar. Mostra como organizações tradicionais podem se acomodar. Mostra como a ausência de gestão transforma vantagem competitiva em saudade.
O Brasil continua sendo o único país pentacampeão mundial. Mas vive de uma glória que completou 24 anos. Em termos empresariais, é como uma companhia que ainda exibe um prêmio antigo na recepção, enquanto concorrentes avançam em tecnologia, método e cultura.
A pergunta não é se o Brasil voltará a revelar grandes jogadores. Vai voltar. A pergunta é se saberá administrá-los.
Uma Copa do Mundo não se ganha apenas no mês do torneio. Ganha-se no ciclo. Ganha-se na escolha de pessoas, na coerência das decisões, no ambiente criado, na análise dos erros e na coragem de mudar antes que a crise imponha a mudança.
A eliminação dói porque o futebol mexe com a identidade nacional. Mas talvez ela sirva para algo maior. Talvez obrigue o País a entender que paixão sem gestão produz frustração. E que talento, sem administração, pode até encantar. Mas não sustenta liderança.
O Brasil não precisa abandonar sua essência. Precisa administrá-la melhor.
A bola pune quem improvisa demais. A economia também. A gestão, quando falta, sempre aparece no resultado.