outubro 31, 2026

A IA já está nas empresas. O problema é que ninguém sabe exatamente onde

Igor Moura, COO da Under Protection

Expansão do uso não autorizado de ferramentas de inteligência artificial expõe dados estratégicos e pressiona lideranças a estruturar governança antes que o risco se torne crise.

A inteligência artificial deixou de ser uma aposta para se tornar parte da rotina das empresas. Segundo a consultoria McKinsey, 88% das organizações já utilizam IA em pelo menos uma função de negócio. Ao mesmo tempo, o relatório Future of Professionals 2026, da Thomson Reuters, revela que 38% dos profissionais brasileiros usam ferramentas de inteligência artificial sem autorização das empresas, enquanto 39,1% afirmam não ter acesso a soluções corporativas disponibilizadas pelo empregador.

Para Igor Moura, COO da Under Protection, empresa brasileira especializada em cibersegurança e continuidade operacional, os dois movimentos mostram que a discussão sobre adoção ficou para trás. O desafio agora é estabelecer uma governança capaz de garantir que o uso da tecnologia gere valor sem ampliar os riscos para o negócio.

“Segue a notícia que o conselho ainda não sabe: vocês já estão usando IA, seus usuários já usam, agora é tarde. Temos que ver como controlar o que já é realidade. Hoje, poucas empresas perguntam se devem usar inteligência artificial. A questão passou a ser quem governa essa tecnologia, quais dados ela pode acessar, quais processos podem ser automatizados e como controlar os riscos que surgem a partir dessas decisões. Sem esse direcionamento, a IA pode acelerar tanto a produtividade quanto a exposição da organização”, afirma Moura.

O tema ganhou espaço nas discussões de conselhos de administração e lideranças executivas à medida que cresce o investimento global em inteligência artificial. O debate já não se concentra apenas no retorno financeiro, mas na capacidade de transformar projetos em ganhos reais de eficiência, preservando conformidade, segurança e continuidade operacional.

Na avaliação do especialista, um dos sinais mais claros da falta de governança é a expansão do chamado Shadow AI, quando colaboradores recorrem a plataformas públicas de inteligência artificial sem aprovação da empresa. Embora muitas vezes a iniciativa tenha como objetivo aumentar a produtividade, ela pode expor informações estratégicas, contratos, códigos-fonte, documentos financeiros e dados de clientes a ambientes sem qualquer controle corporativo.

“O risco não está apenas na ferramenta utilizada, mas na ausência de critérios. Quando cada colaborador decide individualmente qual IA utilizar e quais informações compartilhar, a empresa perde visibilidade sobre um ativo extremamente sensível: seus próprios dados”, explica.

O estudo da Thomson Reuters também aponta impactos sobre a gestão de pessoas. Entre os profissionais brasileiros, 66% consideram a tecnologia um fator decisivo para aceitar ou rejeitar uma proposta de emprego, enquanto quase um em cada cinco pretende deixar a empresa nos próximos 12 meses diante da percepção de que existe um descompasso entre o potencial da IA e a capacidade da organização de utilizá-la.

Na visão do COO da Under Protection, esse cenário amplia a responsabilidade das lideranças. “Não basta disponibilizar ferramentas ou incentivar experimentações. É preciso definir políticas claras, responsabilidades, níveis de acesso, critérios para adoção de novos modelos e mecanismos permanentes de monitoramento. Governança significa garantir que inovação e controle caminhem juntos.”

Outro dado do levantamento reforça que a ausência dessa estratégia também começa a afetar a relação com os clientes. Globalmente, 78% consideram essencial que seus fornecedores utilizem inteligência artificial para melhorar a qualidade das entregas, mas apenas 6% percebem essa evolução acontecendo de forma consistente. Além disso, quase um terço afirma que pretende reavaliar fornecedores ao longo dos próximos 12 meses.

“Quanto mais a IA participa de processos críticos, maior precisa ser a maturidade da organização para administrá-la. Empresas que tratam governança apenas como documentação ou política interna tendem a descobrir tarde que produtividade e segurança precisam evoluir na mesma velocidade. A vantagem competitiva não estará em usar mais inteligência artificial, mas em conseguir utilizá-la com controle, previsibilidade e resiliência”, conclui Moura.

À medida que a inteligência artificial assume funções cada vez mais estratégicas, a tendência é que a governança da tecnologia passe a ocupar o mesmo nível de prioridade de áreas como segurança da informação, compliance e gestão de riscos.

Sobre Igor Moura e a Under Protection

Igor Moura é sócio fundador e COO da Under Protection, auditor líder das ISOs 22301, 27001 e 9001. Com mais de 20 anos de atuação, a Under Protection é especializada em cibersegurança e continuidade operacional.

Fontes de pesquisa: McKinsey & Company — The State of AI; Thomson Reuters — 2026 AI in Professional Services Report.

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