setembro 26, 2026

A locadora fechou. E ninguém sentiu falta.

Blockbuster Video Express - Stratford Road, Shirley

Toda modernização encontra resistência. E toda modernização que serve às pessoas acaba vencendo. Com o CRA-GO não será diferente.

Por Marco Túlio Elias Alves — Profissional de Administração (CRA/GO 5-00011)

Quem tem mais de trinta anos lembra do ritual de sexta-feira: ir à locadora, torcer para o lançamento não estar “todo alugado”, voltar para casa com duas fitas e a promessa de rebobinar antes de devolver. Quem esquecia pagava multa.

Aquilo parecia eterno. Havia uma locadora em cada bairro, redes nacionais, prateleiras de lançamentos. E, no entanto, bastou pouco mais de uma década para que tudo virasse lembrança. Hoje, um adolescente não sabe o que é “rebobinar”, e ninguém pede de volta o direito de pagar multa por atraso.

A locadora não fechou porque alguém a perseguiu. Fechou porque apareceu uma forma melhor de fazer a mesma coisa.

A história se repete — sempre do mesmo jeito

A Blockbuster, maior rede de locadoras do mundo, teve a chance de comprar a Netflix por cerca de 50 milhões de dólares no ano 2000. Recusou. Achou a proposta pequena demais, o modelo estranho demais, o futuro distante demais. Dez anos depois, pediu falência.

A Kodak tem uma história ainda mais curiosa: foi um engenheiro da própria Kodak que inventou a câmera digital, em 1975. A empresa guardou a invenção na gaveta, porque ela ameaçava o negócio de filmes e revelação. Quem tem idade para isso lembra do rolo de 36 poses, da espera de uma semana pela revelação, da foto que saía com o dedo na frente e só se descobria depois de paga. Hoje tiramos centenas de fotos por dia, no telefone, e apagamos as ruins sem custo algum.

O fax já foi o símbolo da empresa moderna. Havia quem jurasse que documento “de verdade” só valia se chegasse pelo aparelho, em papel térmico que desbotava em meses. O e-mail foi recebido com desconfiança — “e se não chegar?”, “e a assinatura?” — até que ninguém mais se lembrou de por que o fax era necessário.

Nós, advogados, vivemos isso na pele. Quando o processo eletrônico chegou, houve quem previsse o caos: sistemas que caem, prazos perdidos, o fim da segurança dos autos em papel. Hoje, peticionamos de madrugada, de qualquer cidade, e ninguém em sã consciência propõe voltar a carregar processos em carrinhos pelos corredores do fórum. O mesmo se deu com o Pix, que em poucos anos tornou o DOC e o TED coisas do passado para a maior parte das transferências do dia a dia.

E agora é a vez da inteligência artificial. Há resistência — em parte legítima, porque toda tecnologia nova exige cuidado, ética e regras. Mas quem trabalha com texto, dados, atendimento ou gestão já percebeu que não se trata de moda passageira. A pergunta deixou de ser “se” e passou a ser “como usar bem”.

Por que se resiste

É preciso dizer com justiça: quem resiste à mudança nem sempre age de má-fé. Muitas vezes resiste porque o modelo antigo funcionou por muito tempo, porque aprendeu a operar nele, porque construiu sua posição dentro dele. A mudança ameaça o que é conhecido — e o conhecido é confortável.

Mas a história do mercado ensina uma lição dura: quem resiste não impede a mudança; apenas decide chegar atrasado a ela. A Blockbuster não impediu o streaming. A Kodak não impediu a fotografia digital. O fax não impediu o e-mail. Todos só perderam o tempo que poderiam ter usado para se adaptar.

E há um padrão que se repete em todos esses casos: a mudança que vence é sempre aquela que serve melhor às pessoas — mais rápida, mais barata, mais transparente, mais acessível. O usuário, o cliente, o cidadão percebe a diferença e não aceita voltar atrás.

E o que isso tem a ver com o CRA-GO?

Tudo.

Um conselho profissional também é uma instituição que presta serviço — no caso, a uma categoria inteira, que o sustenta com suas anuidades. E, como qualquer instituição, ele pode funcionar pelo modelo antigo ou pelo modelo que o seu tempo exige.

O modelo antigo é conhecido: decisões tomadas por poucos, informações difíceis de encontrar, indicações que se resolvem dentro da própria diretoria, eleições de que a maioria da categoria sequer toma conhecimento. Esse modelo funcionou por muito tempo. Foi o “fax” da governança.

O modelo que o nosso tempo exige também é conhecido — e já é praticado em outros lugares. Editais abertos para indicações a cargos de representação, como a OAB adota. Chapas, currículos e propostas publicados em página de fácil acesso, como fez o CRA do Espírito Santo. Regras de compliance claras sobre conflito de interesses. Prestação de contas compreensível a qualquer profissional, e não apenas a quem conhece os corredores do Conselho. Tecnologia a serviço da transparência, e não apenas da arrecadação.

Nada disso é revolucionário. É apenas o equivalente, na governança, a trocar a fita pelo streaming: fazer a mesma coisa — representar e fiscalizar a profissão — de um jeito melhor, mais aberto e mais útil para quem paga a conta.

Alguns vão resistir. A mudança virá assim mesmo.

É natural que haja resistência. Sempre há. Haverá quem diga que “sempre foi assim”, que “está funcionando”, que transparência demais atrapalha. São exatamente os argumentos que se ouviram em defesa da locadora, do filme fotográfico e do fax.

Mas a categoria mudou. Os profissionais de Administração de hoje — bacharéis, tecnólogos e técnicos — trabalham com dados, indicadores, governança e compliance no dia a dia das empresas que administram. Não faz sentido que exijam isso no trabalho e aceitem menos do próprio Conselho. Quem aprendeu a cobrar resultado de uma organização não vai deixar de cobrar da sua.

Por isso digo, sem hesitação: a modernização do CRA-GO não é uma questão de “se”. É uma questão de “quando” — e de quem terá a lucidez de conduzi-la em vez de ser atropelado por ela. E ela será positiva para todos: para a categoria, que ganhará um conselho mais próximo; para o mercado, que ganhará uma profissão mais valorizada; e até para quem hoje resiste, porque instituições transparentes são instituições mais fortes e mais respeitadas.

A locadora fechou. Ninguém sentiu falta. Daqui a alguns anos, olharemos para as práticas antigas de governança dos conselhos profissionais com a mesma curiosidade com que hoje olhamos para uma fita VHS — e nos perguntaremos por que demoramos tanto.

Dia 14 de outubro, das 0h às 22h, pela internet, em votaadministrador.org.br. O voto é obrigatório. E é o primeiro passo dessa mudança.


O autor é profissional de Administração, registrado no CRA-GO sob o nº 5-00011, e advogado. Apoia a Chapa 3 nas eleições de 2026.

Imagem: “Blockbuster Video Express – Stratford Road, Shirley”, de ell brown, licenciada sob CC BY 2.0.

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