setembro 3, 2026

A transformação digital das PMEs já não depende de grandes investimentos, mas de boas decisões

Gabriel Camargo, vice-presidente Internacional de Produtos da CLM

Por Gabriel Camargo, vice-presidente Internacional de Produtos da CLM

Durante muito tempo, transformação digital foi sinônimo de orçamento robusto. Quem tinha caixa, investia; quem não tinha, esperava. Esse cenário mudou e mudou rápido. Computação em nuvem, inteligência artificial e modelos de tecnologia como serviço colocaram soluções antes restritas a grandes corporações ao alcance de empresas de qualquer porte, com contratação por assinatura e capacidade de crescer junto com o negócio.

Isso não quer dizer que dinheiro deixou de importar. Implantação, integração, treinamento e segurança continuam custando caro. Mas a barreira financeira parou de ser a única e, cada vez mais, nem é a principal. Hoje o desafio real é outro: onde investir, o que priorizar e como garantir que a tecnologia escolhida resolva um problema que existe de verdade.

Os números confirmam essa mudança de patamar. A pesquisa TIC Empresas 2025, do Cetic.br|NIC.br, mostra que 17% das empresas brasileiras com dez ou mais funcionários já utilizam algum tipo de inteligência artificial. No mesmo levantamento, 36% pagam por capacidade de processamento em nuvem. Lá fora, uma pesquisa da OCDE com mais de 5 mil pequenas e médias empresas em sete países chegou a 31% de adoção de IA generativa entre PMEs.

A adoção avançou rápido porque o retorno aparece rápido. Automatizar tarefas repetitivas, resumir documentos, organizar informações, apoiar análises, criar aplicações, produzir conteúdo, melhorar o atendimento — nada disso exige mais projeto milionário de dois anos. Para uma PME com equipe enxuta, liberar algumas horas por semana já faz diferença concreta na produtividade e, no fim das contas, na capacidade de crescer.

E é exatamente aí que mora o risco maior. Nunca foi tão fácil colocar uma solução no ar sem parar para pensar nas consequências. Antes de fechar qualquer contrato, toda empresa deveria conseguir responder a quatro perguntas simples:

  • Qual problema queremos resolver?
  • Qual resultado esperamos alcançar?
  • Quem vai ser responsável pela adoção?
  • Quais riscos precisam ser controlados?

Comprar o maior número possível de ferramentas não é transformação digital. Transformação digital é olhar para os processos do negócio e enxergar onde a tecnologia reduz desperdício, melhora a experiência do cliente ou aumenta competitividade de forma mensurável. Na maioria dos casos que acompanhamos, o melhor ponto de partida não é um projetão, mas uma aplicação pequena, com objetivo claro, dono definido e prazo para avaliar o resultado antes de escalar.

Em cibersegurança essa combinação pesa ainda mais. PMEs guardam dado financeiro, informação de cliente, contrato, credencial, propriedade intelectual — o mesmo tipo de ativo sensível de uma empresa grande, só que com bem menos gente e menos controle dedicados a proteger isso. O Data Breach Investigations Report 2026, da Verizon, mostra que empresas menores seguem sendo atingidas de forma desproporcional por ataques de ransomware.

No contato com empresas de setores e países diferentes na América Latina, uma coisa se repete: os projetos que dão certo raramente são os de maior orçamento. Começam com um problema bem definido, uma liderança que se envolve de verdade e a disposição de aprender com um resultado pequeno antes de investir mais pesado.

A tecnologia está mais acessível do que nunca esteve. O diferencial competitivo não é mais de quem compra mais solução, é de quem consegue transformar o que já tem em mãos em decisão melhor, processo mais eficiente e crescimento que se sustenta no tempo. Para a pequena e média empresa, essa é a transformação digital que interessa.

Gabriel Camargo é vice-presidente de Produtos e América Latina da CLM Software, onde lidera as operações internacionais da companhia nos países hispano-americanos. Formado em Engenharia Industrial e Mecânica pelo Instituto Mauá de Tecnologia e com MBA em Administração de Empresas pela University of Virginia Darden School of Business.

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