agosto 7, 2026

Brasil arrecada mais de R$ 4 trilhões por ano e mudança na forma de recolher tributos impacta empresas

Renato Souza, especialista tributário da ASIS Tax Tech

Com a chegada do Split Payment, modelo que separará automaticamente os tributos no momento do pagamento, empresas precisarão rever uma prática histórica do mercado: utilizar o intervalo entre a venda e o recolhimento dos impostos como fôlego para o fluxo de caixa

Todos os anos, trilhões de reais em tributos circulam pela economia brasileira antes de serem efetivamente recolhidos aos cofres públicos. Apenas a arrecadação tributária nacional supera R$ 4 trilhões por ano, considerando União, estados e municípios. Esse volume ajuda a dimensionar um fenômeno pouco discutido fora das áreas financeira e tributária: o chamado “fluxo de caixa gratuito” gerado pelo prazo existente entre a realização da venda e o recolhimento dos impostos.

Com a Reforma Tributária, esse cenário começa a mudar. A implementação do Split Payment — mecanismo previsto no novo modelo de tributação sobre o consumo — fará com que os valores correspondentes aos tributos sejam segregados automaticamente no momento do pagamento da operação. Na prática, a parcela referente ao IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e à CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) deixará de passar pelo caixa da empresa antes de seguir para o governo.

Segundo Renato Souza, especialista tributário da ASIS Tax Tech, empresa com soluções para gestão tributária, a mudança representa uma transformação estrutural na forma como as empresas administram capital de giro.

“Hoje existe um lapso temporal entre a venda e o recolhimento dos tributos. Dependendo do segmento e do ciclo financeiro da empresa, esse intervalo acaba funcionando como um respiro de caixa. Não se trata necessariamente de uma estratégia deliberada, mas é um efeito natural do sistema atual. Com o Split Payment, esse espaço tende a desaparecer”, afirma.

Embora não existam pesquisas oficiais que mensurem quantas empresas utilizam esse intervalo como fonte indireta de capital de giro, especialistas do setor concordam que o impacto será disseminado por praticamente toda a economia, especialmente em negócios com margens mais apertadas e operações de alto volume.

“É importante entender que o Split Payment não é um fator de opção pelas empresas; mesmo com outras formas de liquidação do débito tributário, este mecanismo será o principal para o pagamento dos tributos sobre o consumo. O imposto deixa de percorrer o fluxo financeiro da companhia e passa a ser direcionado automaticamente ao governo”, explica Souza.

Testes começam em 2027

As primeiras fases de testes do novo sistema estão previstas para começar em 2027, inicialmente em operações entre empresas (B2B) e com participação voluntária de contribuintes. Em maio de 2026, a Receita Federal e o Comitê Gestor do IBS publicaram a documentação técnica oficial da Plataforma Pública do Split Payment, detalhando aspectos tecnológicos e operacionais do modelo.

“As empresas precisam começar agora. A documentação técnica já existe e os times financeiros, fiscais e de tecnologia precisam entender como o processo vai funcionar. Quem deixar para a última hora corre o risco de enfrentar dificuldades de adaptação justamente quando a nova sistemática começar a ser testada”, afirma Souza.

O que as empresas ganham em troca

Se por um lado o Split Payment reduz o fôlego de caixa proporcionado pelo modelo atual, a Reforma Tributária traz um contraponto importante: a não cumulatividade plena. O novo IVA Dual brasileiro (formado por IBS, CBS e Imposto Seletivo) foi concebido para ampliar significativamente o aproveitamento de créditos tributários ao longo das cadeias produtivas.

“Uma das grandes promessas da reforma é justamente a efetivação da não cumulatividade plena. Isso permite que as empresas recuperem créditos tributários de forma muito mais ampla do que ocorre atualmente, reduzindo distorções e diminuindo o efeito cascata dos tributos na formação dos preços”, explica Souza. Segundo ele, porém, não é possível afirmar que os ganhos com créditos compensarão integralmente a perda daquele antigo espaço de fluxo de caixa: “São mecanismos diferentes. Não existe uma equivalência direta. Mas a ampliação do creditamento certamente tende a melhorar a eficiência tributária das empresas.”

Tecnologia passa a ser fator de sobrevivência

Na avaliação do especialista, a principal consequência da Reforma Tributária será obrigar empresas a adotarem um nível de controle fiscal e financeiro sem precedentes. “O Brasil caminha para ter um dos sistemas tributários mais digitais e monitorados do mundo. O que antes podia ser corrigido semanas depois passará a acontecer praticamente em tempo real. Isso exige processos mais robustos, informações mais confiáveis e uma gestão tributária muito mais integrada ao financeiro”, afirma.

“Ainda é cedo para mensurar percentuais de economia ou perdas evitadas, mas estamos falando de uma mudança estrutural. Quem estiver preparado terá muito mais capacidade de adaptação em relação a quem tratar a reforma apenas como uma alteração de legislação”, conclui o especialista da ASIS Tax Tech.

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