Na recuperação judicial da Casas Bahia, quase R$ 0,95 de cada R$ 1 devido está nas mãos de credores sem garantia real. Dos R$ 17,3 bilhões incluídos no processo, R$ 16,4 bilhões pertencem à classe dos quirografários, que reúne bancos, fornecedores e outros credores cujo recebimento dependerá das condições negociadas no plano. O caso ganha outra dimensão em um país com mais de 9,1 milhões de empresas inadimplentes e R$ 232,9 bilhões em dívidas negativadas.
Nesse ambiente, esperar anos por um pagamento incerto pode ser menos atraente do que vender o crédito imediatamente, mesmo com um desconto elevado. É justamente nessa decisão que nasce o mercado de distressed assets. A questão, portanto, não é apenas quanto a Casas Bahia deve, mas quais créditos, ativos e operações ainda preservam valor dentro de uma companhia pressionada a levantar caixa.
1) Loan-to-own: transformar dívida em participação acionária
A primeira possibilidade é uma estratégia conhecida como loan-to-own, na qual o investidor compra créditos de credores que preferem sair imediatamente da operação, normalmente por um valor inferior ao registrado na dívida. “Você pode comprar créditos e converter esses créditos de dívida em equity, em participação acionária”, explica Matheus Matos, sócio da MA7 Capital. O retorno não vem do pagamento integral do débito, mas da diferença entre o preço desembolsado pelo crédito e o valor que a participação societária poderá alcançar após a reestruturação.
2) DIP Finance: financiar a companhia durante a recuperação
A segunda rota é financiar diretamente a companhia durante a recuperação judicial. A Casas Bahia negocia um DIP Finance de aproximadamente R$ 1 bilhão com Banco do Brasil, Bradesco e outros credores, segundo o NeoFeed e o Brazil Journal. Para o investidor, a atratividade está na proteção jurídica: o valor efetivamente desembolsado tem natureza extraconcursal e prioridade sobre créditos anteriores em uma eventual falência. “Com o DIP, você tem uma extraconcursalidade dentro do processo falimentar. Se a empresa vier a quebrar, você é um credor preferencial de recebimento”, afirma Matos.
3) M&A distressed: comprar ativos que ainda geram valor
A terceira oportunidade está no M&A distressed, em que um comprador adquire a companhia, uma subsidiária ou apenas uma unidade produtiva por um valor pressionado pela crise. No caso da Casas Bahia, o interesse pode estar em marcas, operações rentáveis, canais digitais, estruturas de logística e a fabricante de móveis Bartira. “É possível encontrar um comprador para fazer um M&A distressed. Uma empresa sólida pode comprar outra que está em maus bocados”, afirma Matos.
Em todos os cenários, o desconto não basta para tornar a operação lucrativa: o investidor precisa calcular quanto ainda terá de investir para recuperar estoques, fornecedores, tecnologia e confiança do consumidor.
Sobre a MA7 Capital
A MA7 Capital é uma boutique de investimentos especializada em ativos estressados e uma das pioneiras do segmento no Brasil. Fundada há 16 anos, a empresa possui uma equipe formada por analistas, advogados e economistas.