setembro 9, 2026

Colheita de cacau inicia um novo capítulo para produtores, indústria e consumidores

Paulo Gonçalves, produtor de cacau e fundador da Espírito Cacau

Por Paulo Gonçalves, produtor de cacau e fundador da Espírito Cacau

A colheita de cacau de 2026 acontece em um momento importante para a cadeia brasileira. De um lado, produtores enfrentam um mercado internacional marcado pela volatilidade, pelos riscos climáticos e pela necessidade de elevar produtividade e qualidade. De outro, o Brasil acaba de estabelecer novas regras para definir o que pode ser comercializado como chocolate, criando um cenário que poderá aumentar a demanda por cacau e trazer impactos para toda a cadeia produtiva.

Os números mostram um cenário de recuperação da produção brasileira. Segundo o IBGE, a estimativa de junho aponta para 321 mil toneladas de cacau em amêndoas em 2026, crescimento de 8,9% em relação a 2025. O rendimento médio esperado também avançou, passando de 458 kg por hectare em 2025 para 499 kg por hectare na estimativa deste ano. O Pará permanece como principal produtor nacional, respondendo por 49,4% da produção estimada. Na Bahia, as perspectivas também são positivas, impulsionadas por investimentos em tecnologia, controle fitossanitário, sustentabilidade e melhoria da produtividade, com expansão para novas regiões como o Oeste baiano.

Mas produção maior não significa preços menores para o produtor. O mercado internacional de cacau continua sujeito a fortes oscilações. Depois dos preços elevados registrados nos últimos anos, a recuperação da oferta trouxe algum alívio, mas os riscos climáticos continuam influenciando as expectativas para a próxima temporada. Para o produtor brasileiro, o desafio é transformar o aumento da produtividade em maior rentabilidade — o que passa por qualidade, eficiência, manejo, tecnologia e, principalmente, capacidade de agregar valor à matéria-prima.

A nova lei do chocolate

É nesse ponto que a Lei nº 15.404/2026 ganha relevância. Sancionada em maio, a legislação estabelece critérios mínimos para que um produto possa ser denominado chocolate: pelo menos 35% de sólidos totais de cacau, dos quais no mínimo 18% devem ser manteiga de cacau e 14% sólidos isentos de gordura. A lei também determina que os rótulos informem de maneira clara o percentual de cacau presente no produto. Os produtos que não atenderem aos critérios não poderão utilizar a denominação “chocolate” e deverão adotar denominações específicas previstas na legislação.

A lei só entra em vigor 360 dias após sua publicação oficial, dando à indústria um período de adaptação para reformular produtos, ajustar fornecedores, rever custos e reorganizar estratégias de portfólio. É justamente nessa transição que poderá surgir um dos principais efeitos econômicos da nova legislação: se uma parcela dos produtos comercializados precisar aumentar sua quantidade de cacau para atender ao novo percentual mínimo, a demanda por derivados da amêndoa tende a crescer, o que poderá elevar a importância econômica do cacau dentro da composição dos produtos.

É preciso evitar uma conclusão simplista de que a nova lei fará o preço do cacau subir — o mercado é influenciado por diversos fatores, como produção brasileira e mundial, estoques, clima, câmbio, consumo, custos industriais e preços internacionais. O que a legislação pode fazer é criar uma demanda estrutural adicional por cacau de qualidade, especialmente à medida que os fabricantes ajustarem suas formulações.

Um chamado à profissionalização

Para os produtores, essa mudança representa uma oportunidade, mas também um chamado à profissionalização. A valorização da amêndoa dependerá cada vez mais de atributos como qualidade, fermentação, secagem, rastreabilidade, origem e regularidade de fornecimento. O produtor que conseguir entregar uma matéria-prima diferenciada poderá estar melhor posicionado para capturar valor em uma cadeia que tende a exigir mais cacau.

Ao determinar que o percentual de cacau seja informado no painel principal da embalagem, a lei dá ao consumidor uma ferramenta objetiva para escolher, em vez de olhar apenas preço, marca ou embalagem. Para a indústria, será necessário comunicar melhor a diferença entre as categorias; para o varejo, será uma oportunidade de educar o consumidor; e, para o produtor, uma chance de mostrar que, na origem de um chocolate de maior qualidade, existe uma matéria-prima que precisa ser valorizada.

Afinal, antes de chegar à indústria, à embalagem e às prateleiras, o chocolate começa no campo. Neste ano, a colheita de cacau pode estar dando início não apenas a uma nova safra, mas a uma nova relação entre produtor, indústria e consumidor.

Paulo Gonçalves é fundador da Espírito Cacau, indústria brasileira especializada na produção de chocolates premium com cacau de origem.

Mais resultados...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors