agosto 29, 2025

Crise ou Oportunidade? O remédio amargo da economia que mexe com a saúde

Como o cenário econômico tem impactado os serviços de saúde em todo o Brasil?

No primeiro semestre de 2025 observamos um crescimento econômico moderado, seguido de sinais de desaceleração a partir de maio e junho e maior disputa pelo orçamento das famílias. Mesmo sem todos os fechamentos oficiais, os dados do primeiro trimestre e as prévias de maio e junho já permitem identificar tendências claras.

Na Commerciare Gestão em Saúde constatamos queda expressiva nos atendimentos e na conversão de vendas em clínicas e serviços de diagnóstico. Entre março e maio, o elevado número de feriados nacionais e regionais reduziu ainda mais o fluxo de pacientes.

A Odontologia, por exemplo, sente essa pressão desde agosto de 2024. Em muitos casos o faturamento caiu mais do que o volume de pacientes atendidos. Os motivos são recorrentes: famílias destinam recursos a viagens e bens de maior valor agregado, enfrentam perda de poder de compra diante da inflação e dos juros altos ou evitam comprometer renda por causa da instabilidade econômica.

De forma geral, laboratórios, clínicas e centros de diagnóstico por imagem também foram afetados pela sequência de feriados. Mesmo que fevereiro tenha sido um mês completo sem carnaval, a combinação de datas comemorativas nos meses seguintes impactou o varejo e os serviços de saúde.

É importante lembrar que resultados negativos em um serviço de saúde específico não invalidam o crescimento de outros. Nossa análise parte dos indicadores econômicos oficiais e de fontes especializadas, que podem afetar cada negócio de forma diferente.

A seguir reunimos os principais números e discutimos como eles podem influenciar clínicas, laboratórios, consultórios e demais serviços de saúde no segundo semestre.

Fonte: Portal UOL

Atividade econômica e arrecadação

O Produto Interno Bruto (PIB) avançou 1,4% no primeiro trimestre em relação ao quarto trimestre de 2024. A agropecuária respondeu por grande parte do resultado, com expansão de 12,2%, enquanto os serviços cresceram 0,3% e a indústria praticamente se manteve estável.

Já o índice de atividade do Banco Central apontou recuo de 0,7% em maio, sugerindo perda de fôlego na virada do trimestre. Do ponto de vista fiscal, a arrecadação federal atingiu 1,426 trilhão de reais entre janeiro e junho, um crescimento real de 4,38% e o maior valor da série para o período. Esse desempenho, aliado ao avanço do agronegócio, sustenta o caixa do governo mesmo em ambiente de juros elevados.

Fonte: CNN Brasil

Consumo das famílias e varejo

No semestre, o consumo nos lares subiu 2,63% segundo a Associação Brasileira de Supermercados (Abras). O desempenho, contudo, não foi linear. Após um maio aquecido, o varejo físico registrou queda de 1,4% em junho na comparação anual, com retração de dois dígitos em shoppings e no comércio de rua. Índices de operadoras de cartões apontam baixa de 4,2% mês contra mês, e o indicador da Serasa registrou menos 0,8%.

Inflação persistente em itens básicos, aliada a juros nominais de 15%, pressiona o poder de compra e encarece o crédito ao consumidor.

Implicações para a saúde

Ticket médio (TKM) pode sofrer em especial nos procedimentos eletivos, que concorrem diretamente com viagens, eletrônicos e bens duráveis. Oferecer parcelamentos responsáveis, pacotes de valor agregado e comunicação clara sobre benefício clínico torna‑se decisivo.

Fonte: Extra Globo

Turismo e bens de alto valor agregado

A disposição das famílias em gastar com lazer aparece nos números do Banco Central: os brasileiros desembolsaram 1,8 bilhão de dólares em viagens internacionais só em junho, maior montante para o mês em onze anos, e já somam 10,2 bilhões de dólares no acumulado de janeiro a junho. O dado evidencia que o orçamento destinado a viagens e compras no exterior continua forte, mesmo com a elevação do IOF, e concorre diretamente com tratamentos odontológicos estéticos, cirurgias eletivas e outros procedimentos particulares de saúde.

Fonte: Portal G1

Panorama da saúde suplementar

As operadoras médico hospitalares registraram resultado operacional positivo de 4,4 bilhões de reais no primeiro trimestre sobre receita de 92,9 bilhões. As despesas assistenciais ficaram em 83,8 bilhões. Do total de desembolsos judiciais, 62% referem‑se a procedimentos já previstos em contrato, e 38% a demandas adicionais.

Operadoras financeiramente saudáveis tendem a manter autorizações e reajustes, mas o avanço dos custos médicos pede atenção de clínicas e hospitais a glosas, prazos de pagamento e renegociações.

Fonte: Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS)

Custo de capital e apetite por investimento

A taxa Selic permanece em quinze por cento, e a média de 12,5% ao ano desde o início do ciclo de alta figura entre as maiores da série histórica. Apesar disso, fusões e aquisições no setor de tecnologia cresceram 71% no semestre, sinal de que investidores ainda buscam ativos de alto potencial.

Para o setor de saúde, juros altos encarecem expansão física e renovação de equipamentos, mas podem abrir espaço para parcerias estratégicas e M&A, sobretudo em soluções digitais que reduzam custo assistencial capazes de aumentar o acesso a serviços de saúde para uma expressiva parcela da população desatistida de planos de saúde e do SUS.

Fonte: CNN Brasil

Cenários para o segundo semestre

O ritmo de expansão da economia deve desacelerar no segundo semestre. A leitura negativa do IBC‑Br, combinada ao enfraquecimento do varejo, sinaliza um ajuste na demanda, principalmente nos tratamentos que dependem da renda discricionária das famílias. Em um ambiente de crescimento mais lento, clínicas e consultórios precisam projetar cenários conservadores para volume e ticket médio.

Além disso, o orçamento das famílias está mais apertado. Gastos com lazer e turismo ganham espaço nas decisões de consumo e competem diretamente com procedimentos eletivos. Para preservar receita, os serviços de saúde podem adotar planos de tratamento escalonados, fortalecer ações preventivas e facilitar o parcelamento responsável.

Os planos de saúde, por outro lado, iniciaram o ano em posição financeira relativamente confortável. Clínicas que atendem por convênios devem aproveitar esse momento para rever processos, negociações, reduzir glosas e acompanhar de perto as métricas de autorização, garantindo fluxo de caixa estável mesmo com pressões de custo.

O cenário de juros elevados mantém o custo de capital em patamar alto. Diante disso, avaliar cuidadosamente o retorno de cada investimento, priorizar projetos com payback mais curto e buscar fontes alternativas de financiamento tornam‑se medidas essenciais para sustentar a expansão ou, pelo menos, evitar perdas de margem.

Fonte: Valor Econômico

Por fim, mesmo com crédito caro, o apetite por tecnologia permanece robusto. O avanço da telemedicina, dos agendamentos on‑line e da automação de processos pode ajudar a reduzir despesas operacionais e melhorar a experiência do paciente. Quem souber combinar disciplina financeira com inovação digital terá melhores condições de atravessar o semestre e posicionar‑se para a retomada quando o ciclo de juros ceder.

Recomendações práticas

  • Odontologia estética e cirurgia plástica: Ajuste a oferta para pacotes modulares que permitam iniciar tratamento com investimento menor, mantendo opções de upgrade ao longo de 2025.
  • Procedimentos básicos: Use campanhas de educação em saúde e check‑ups preventivos para reduzir sensibilidade a preço e ampliar o volume.
  • Clínicas multiprofissionais: Reforce acordos com operadoras, revise acordos de performance e invista em indicadores de experiência para diferenciar o serviço.
  • Laboratórios: Diversifique carteira de clientes, intensifique relacionamento com empresas de saúde ocupacional e avalie automação de triagem para reduzir custos.
  • Controle de custos: Controle dos custos e do caixa será fundamental para a sobrevivência do seu negócio.
  • Fontes de receitas: Cuide para que o seu faturamento não depência de um mesmo convênio ou fonte de receita que individualmente represente a partir de 30% do total de entradas. Para lugadores onde a concentração de pacientes é pouco divididade, análise profundamente os riscos e busque por novos serviços a serem ofertados e novos negócios de saúde que podem ser anexos a sua operação.

Para o segundo semestre…

Os números ainda parciais mostram que atravessamos um período de transição. A economia continua crescendo, mas perde fôlego; as famílias destinam mais renda a lazer e adiam procedimentos médicos eletivos; as operadoras de planos apresentam resultados operacionais positivos, embora pressionadas por custos; e clínicas particulares de terapia, estética e diagnóstico já sentem o impacto na receita.

Enfrentar esse cenário requer disciplina financeira, controle rigoroso de custos e uma comunicação clara que evidencie o valor clínico de cada intervenção. A fidelização do paciente depende de conveniência, transparência e confiança.

Não solte o manche do seu avião. Acompanhe de perto os indicadores do painel, vigie o nível de combustível e mantenha comunicação constante com a tripulação, ou seja, com a equipe, os parceiros e os líderes. Com pilotagem firme será possível atravessar a turbulência e chegar a um 2025 mais previsível.

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