Por Fabrício Ribeiro
O dólar fechou a quinta-feira (1º) a R$ 5,224, com alta de 0,97% ante o real. A valorização ocorreu em meio ao aumento da tensão no Oriente Médio, à alta do petróleo e à elevação dos rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos. No mercado brasileiro, a proximidade do primeiro turno das eleições também ampliou a cautela dos investidores.
A alta, porém, não significa que o real tenha entrado em uma trajetória contínua de perda de valor. O dólar ainda acumulava queda de 4,83% no ano até o fechamento de quinta-feira, segundo a Agência Brasil. O Banco Central registrou cotação de venda de R$ 5,2079 para a Ptax do mesmo dia.
Pressão vem do exterior
Um dos principais fatores recentes é o comportamento do dólar no mercado internacional. A moeda ganhou força diante da maior procura por ativos considerados mais seguros em um ambiente de tensão geopolítica.
A alta do petróleo reforçou esse movimento. O barril do Brent, referência para o mercado internacional, fechou quinta-feira a US$ 102,31, avanço de 4,37%. O WTI subiu 2,71%, para US$ 92,87. A elevação dos preços da energia aumenta a preocupação com a inflação e pode alterar as expectativas sobre os juros americanos.
O mercado americano também passou a conviver com juros e títulos públicos mais pressionados. Uma pesquisa da Reuters publicada nesta sexta-feira mostra que o dólar acumulou alta superior a 3% desde o início de setembro. Estrategistas ouvidos pela agência associaram o movimento recente à elevação dos juros pelo Federal Reserve e ao aumento dos rendimentos dos Treasuries.
O cenário, contudo, começou a mudar nesta sexta-feira. Dados do mercado de trabalho dos Estados Unidos mostraram a criação de apenas 29 mil vagas em setembro, abaixo das expectativas, enquanto a taxa de desemprego subiu para 4,2%. O resultado reduziu a pressão por novos aumentos de juros nos Estados Unidos e ajudou o dólar a perder força durante a manhã.
Brasil entra no cálculo
No Brasil, a proximidade das eleições acrescenta uma variável ao comportamento do câmbio. O mercado acompanha as pesquisas, as declarações dos candidatos e, principalmente, as possíveis mudanças na política econômica a partir de 2027.
O efeito não ocorre apenas pela disputa presidencial. Investidores também avaliam a composição do Congresso e a possibilidade de aprovação de medidas que afetem as contas públicas. O dólar tende a reagir rapidamente quando aumenta a percepção de risco sobre o cenário econômico.
Esse movimento ficou evidente na segunda-feira (28), quando a moeda americana atingiu o maior valor de fechamento em seis meses, a R$ 5,2264. Na ocasião, a alta também foi influenciada pelo avanço do dólar no exterior e por novas pesquisas eleitorais no Brasil.
Juros ainda protegem o real
Há, ao mesmo tempo, um fator que limita a pressão sobre a moeda brasileira: a taxa de juros doméstica. O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic para 13,75% ao ano em setembro, mas manteve o alerta sobre a inflação e a incerteza externa.
Juros elevados tornam aplicações em reais mais atrativas para parte dos investidores. Isso pode aumentar a procura pela moeda brasileira e ajudar a conter uma desvalorização maior.
O Banco Central, porém, destacou que as expectativas de inflação permanecem acima da meta. Na ata da reunião de setembro, o Copom projetou inflação de 5,2% para 2026 e 3,9% para 2027. O comitê também afirmou que o ambiente exige cautela diante da maior incerteza.
O que explica a alta
A leitura dos últimos dias indica que a valorização do dólar não tem uma causa única. O câmbio está reagindo à combinação de fatores externos e domésticos.
No exterior, a guerra no Oriente Médio, o petróleo mais caro, os juros americanos e os rendimentos dos títulos dos Estados Unidos aumentaram a procura pela moeda americana. No Brasil, a eleição acrescenta incerteza ao cenário.
A economia brasileira também apresenta sinais mistos. A produção industrial caiu 0,6% em agosto, segundo o IBGE. O resultado interrompeu a alta registrada em julho e mostrou perda de ritmo da atividade. No mercado de trabalho, porém, o quadro continua mais resistente: o Caged registrou 165,8 mil novos empregos formais em agosto.
Por isso, a cotação do dólar deve continuar sensível às novas informações. Uma melhora do ambiente externo pode aliviar a pressão sobre o real. Já novas tensões geopolíticas ou mudanças nas expectativas sobre os juros americanos podem produzir o efeito contrário.
No curto prazo, portanto, a marca de R$ 5,20 funciona mais como um retrato da elevada volatilidade do mercado do que como uma indicação isolada do rumo da moeda. O comportamento do câmbio dependerá da combinação entre cenário internacional, juros, petróleo e incertezas domésticas.
Fontes: Banco Central do Brasil, Agência Brasil, Reuters, IBGE, Ministério do Trabalho e Emprego e UOL. As referências foram incorporadas ao texto para permitir a conferência dos dados.