novembro 8, 2026

Empreendedor que criou a “Netflix corporativa” e foi eleito Forbes Under 30 aposta em live commerce para empresas e cresce com novo mercado

Empreendedor que criou a "Netflix corporativa" e foi eleito Forbes Under 30 aposta em live commerce

À frente da Netshow.me, Daniel Arcoverde levou as vendas ao vivo para as negociações entre indústrias e lojistas, em um modelo que já movimentou mais de R$ 150 milhões.

Há exatos dois anos, uma executiva da EMS fez uma pergunta que mudaria a rota da Netshow.me: a tecnologia de transmissão ao vivo poderia ser usada para vender de indústrias para farmácias, em vez de para consumidor final? Um ano depois, a resposta a essa pergunta virou uma nova categoria no mercado brasileiro: o live commerce B2B. E já movimentou mais de R$ 150 milhões em vendas.

Por trás da aposta está Daniel Arcoverde, 36, cofundador e Co-CEO da Netshow.me, eleito Forbes 30 Under 30 e protagonista de uma das trajetórias mais não-lineares do ecossistema brasileiro de SaaS.

Ele criou a empresa em 2013, em cima de uma mesa de ping-pong improvisada no escritório de advocacia da mãe do sócio, Rafael Belmonte. Desde então, pivotou três vezes, sempre respondendo a mudanças reais de comportamento e demanda.

O primeiro movimento veio entre 2015 e 2016, quando a proposta inicial de shows online evoluiu para o modelo de live corporativa. Em 2018, diante da crescente demanda por conteúdo sob demanda, a empresa avançou para um modelo que o próprio Arcoverde define como um “Netflix corporativo”, estruturado também via M&A. Mais recentemente, após testar o live commerce no B2C sem tração relevante, a companhia redirecionou a estratégia para o live commerce B2B, em 2024.

E é justamente essa capacidade de recalcular a rota que sustenta o crescimento atual. Ali nasceu a Netshow.me, que, ao longo dos anos, deixaria de ser uma plataforma para artistas independentes para se transformar em uma empresa de tecnologia focada em streaming corporativo, treinamento, eventos e, mais recentemente, live commerce B2B.

Administrador de empresas, com formação ligada à Fundação Getulio Vargas EAESP e passagens acadêmicas por instituições como HEC Montréal, Maastricht University e Babson College, Arcoverde não veio de um ambiente técnico. Ao contrário do estereótipo do fundador de startup nascido na programação, ele surgiu de um caminho mais próximo do mercado financeiro. Antes de empreender, trabalhou em uma gestora de investimentos. O ponto de inflexão veio quando decidiu, ao lado do sócio, abandonar esse percurso previsível para construir uma empresa de tecnologia.

“O maior desafio parecia técnico, mas hoje, olhando em perspectiva, eu vejo que tecnologia talvez seja 10%”, diz. “Todo o resto é validação de produto, aquisição de cliente, construção de time, fundraising. A tecnologia é um meio.”

Tinha 24 anos e hoje, aos 36, costuma resumir a própria trajetória como uma sequência de mudanças necessárias para continuar relevante. “Eu comecei muito novo a empreender e tive que me transformar muitas vezes ao longo dessa jornada para conseguir chegar onde estou”, afirma. “A gente está sempre nessa eterna transformação”.

Naquele momento, a leitura que ele fez era prematura para o Brasil da época: com a expansão da banda larga, da fibra óptica e da internet móvel, o vídeo tenderia a ganhar espaço como linguagem dominante na internet. “Eu pensava: se a banda larga melhorar, a tendência de negócios de vídeo e de internet crescerem vai ser muito grande”, relembra.

A faísca inicial da Netshow.me veio de uma reportagem lida no jornal impresso. Arcoverde conta que, ainda nos tempos de faculdade, acompanhava o noticiário de empresas e se deparou com a notícia de que Sean Parker, conhecido por fundar o Napster e por ter sido um dos primeiros investidores do Facebook, havia colocado dinheiro em uma plataforma americana de shows online chamada Stageit, fundada pelo músico e empreendedor Evan Lowenstein, que veio a se tornar amigo de Arcoverde anos depois. O modelo chamava atenção porque permitia aos artistas fazer apresentações ao vivo, vender ingressos digitais e receber gorjetas da audiência.

O que veio depois não foi linear. A empresa começou organizando shows online, conectando artistas independentes e mainstream a uma audiência disposta a pagar ou contribuir durante a transmissão. Em dois anos, realizou mais de 3 mil apresentações. O modelo funcionava, até deixar de funcionar.

O crescimento das grandes plataformas tornou o modelo inviável em pouco tempo. Entre 2015 e 2016, a entrada de ferramentas como Meerkat, Periscope, Facebook Live e YouTube Live alterou o jogo de forma radical.

Foi nesse momento que aconteceu o primeiro pivô da empresa: a migração de shows online para o universo corporativo, com foco em lives para empresas. “Para uma startup brasileira ainda pequena, disputar atenção com gigantes globais que já concentravam audiência era uma batalha perdida. Se a gente continuasse ali, a gente ia ser engolido”, resume.

A decisão não foi apenas estratégica. Parte do time havia entrado pelo interesse na música, e a mudança significava abandonar o que funcionava naquele momento. Ainda assim, o foco virou outro: usar a tecnologia de transmissão para atender empresas.

“A leitura era essa: se as pessoas estavam adotando vídeo ao vivo no cotidiano, as empresas fariam o mesmo para treinar, comunicar e vender”, conta.

A Netshow.me passou a se apresentar como uma plataforma profissional de streaming ao vivo para empresas, com uma oferta white label voltada a marcas que queriam transmissões personalizadas. O primeiro sinal concreto de que havia mercado veio quase por acaso, quando o diretor de marketing do Napster Brasil procurou a empresa em busca de uma solução sob medida para um festival.

“Ele nem negociou”, lembra Arcoverde ao contar sobre o contrato. “Naquele momento, a gente percebeu que dava para vender uma plataforma personalizada para empresas.”

A partir daí, a empresa começou a modularizar o software, adaptar o produto ao ambiente corporativo e ampliar sua atuação. Vieram clientes de diferentes setores, projetos com bancos, telcos, indústrias e grandes eventos empresariais. A companhia passou a combinar software com produção audiovisual, oferecendo não só a tecnologia, mas a entrega mais completa da operação, uma resposta à própria demanda dos clientes, que preferiam concentrar tudo em um único fornecedor já homologado.

O movimento seguinte veio do próprio mercado. Conforme acumulavam transmissões e armazenavam mais conteúdo gravado, as empresas começaram a pedir à Netshow.me algo além das lives: elas queriam uma experiência de distribuição de vídeos mais estruturada, semelhante à de uma plataforma de streaming sob demanda. Em outras palavras, um “Netflix corporativo”.

Esse foi o segundo pivô da companhia: sair de uma oferta centrada em transmissões ao vivo para uma plataforma mais ampla de conteúdo sob demanda, estruturada como um SaaS de vídeo corporativo e acelerada via M&A em 2018.

“A empresa entrou no modelo SaaS e passou a estruturar soluções para transmissões corporativas. O produto evoluiu junto com o uso: primeiro lives, depois armazenamento, depois distribuição. O que os clientes pediam ajudava a definir o roadmap”.

Essa nova fase, porém, foi atravessada por um episódio duro na trajetória da companhia. Em 2018, o então CTO da empresa faleceu, o projeto travou, o time perdeu ritmo e a empresa precisou reagir. Em meio ao luto e à necessidade de reconstruir a energia interna, a Netshow.me decidiu comprar uma startup que já desenvolvia uma solução semelhante à que a empresa planejava criar internamente. O negócio foi viabilizado com uma nova rodada de investimento e deu origem ao “Netflix Corporativo”, produto que se tornaria o principal motor de crescimento da empresa.

Desse modo, a decisão mudou a trajetória. “Quando a pandemia chegou, a empresa já operava com duas frentes diretamente conectadas à nova demanda: transmissões ao vivo e plataformas de conteúdo corporativo. O impacto foi imediato, e o tráfego digital cresceu mais de 800% em um único dia. A empresa saiu de cerca de 30 para quase 100 funcionários em poucos meses e a receita quadruplicou.”

O crescimento veio rápido, mas trouxe uma enorme dor do crescimento com quebra de processos, elevada carga operacional e uma operação de guerra para dar conta da demanda massiva. No pós-pandemia, com a queda na demanda por lives, a empresa precisou ajustar o tamanho e rever a eficiência.

“A gente explodiu junto com o digital, mas estava afogado na operação”, diz. Depois do pico da pandemia, a demanda por transmissões ao vivo caiu, o mercado mudou e a empresa precisou encarar uma reorganização dura, com redução de equipe em mais de 60%, reavaliação de custos e mudança de mentalidade. “A gente percebeu que dava para fazer muito com muito menos gente”, afirma. “Parecia que número de funcionários era uma métrica de sucesso, e a gente viu que muitas vezes era uma métrica de vaidade.”

A reorganização foi seguida por uma nova frente de análise. Ao estudar o avanço do live commerce na China, um mercado que já movimenta centenas de bilhões de dólares e caminha para ultrapassar a marca de US$ 1 trilhão em transações, Arcoverde testou o modelo no Brasil após a aquisição de uma startup portuguesa em agosto de 2023. A primeira tentativa seguiu o padrão mais comum: integrar transmissões ao e-commerce das marcas.

Não funcionou exatamente como esperado. As marcas buscavam lives muito sofisticadas, com custos elevados de produção, impactando diretamente o retorno de cada transmissão. Isso trazia uma dinâmica de baixa recorrência para contratações. Sem contar que as redes sociais como Instagram e TikTok já apontavam globalmente para a entrada no universo do Live Commerce, o que certamente concentraria grande parte das vendas ao vivo. A decisão seria de descontinuar a operação da plataforma, já que dava mais trabalho do que resultado e tirava o foco das demais ofertas da empresa.

A tentativa no B2C acabou se mostrando pouco eficiente, o que levou ao terceiro pivô da empresa.

A virada veio de uma pergunta feita por uma cliente da indústria farmacêutica. Durante uma reunião sobre a plataforma de treinamento da EMS, uma executiva quis saber se a tecnologia de live commerce da Netshow.me poderia ser usada não para vender ao consumidor final, mas para vender às farmácias, ou seja, no modelo B2B. A equipe decidiu testar, e o que parecia algo específico virou a semente de uma nova categoria que está sendo construída pela empresa.

Nasceu ali o live commerce B2B. Aqui, a Netshow.me consolida seu terceiro pivô: a transição do live commerce B2C para o modelo B2B, que rapidamente se mostrou mais aderente e escalável.

“Em novembro de 2024, a companhia estruturou o que passou a chamar de live commerce B2B: transmissões ao vivo voltadas à venda de produtos de indústrias e distribuidores para os pontos de venda. Na prática, a live funciona como uma ação comercial em escala. A força de vendas convida clientes para entrar na transmissão, os produtos e combos são apresentados ao vivo, os pedidos são montados em tempo real e o time comercial faz o fechamento depois, com validação de crédito, upsell e recuperação de carrinho abandonado”, explica.

Os resultados fizeram o produto ganhar centralidade rapidamente dentro da operação. Segundo Arcoverde, a Netshow.me já movimentou mais de R$ 150 milhões em vendas com esse formato em seu primeiro ano de operação, com a meta de chegar a R$ 1 bilhão em GMV. A maior live já realizada pela empresa gerou R$ 25 milhões em uma hora e meia. “O produto que era um experimento, que a gente achou que não ia decolar, virou o que mais cresce dentro do nosso portfólio”, afirma.

“Usamos tecnologia para aumentar a eficiência comercial. Na prática, o modelo substitui parte das visitas físicas por eventos digitais com conversão direta. Em média, entre 30% e 40% da audiência realiza pedidos durante as transmissões.”

A história ajuda a explicar por que Daniel Arcoverde se tornou um nome recorrente em listas e reconhecimentos ligados ao empreendedorismo, como o Forbes 30 Under 30. Ao longo da trajetória, a Netshow.me recebeu prêmios nacionais e internacionais, atraiu investidores ligados a nomes de peso do ecossistema brasileiro e passou por diferentes ciclos de venture capital. Mas, no caso dele, o perfil executivo convive com um traço menos previsível.

Nas horas vagas, Arcoverde é guitarrista da The Corporates, banda formada por executivos C-level que transforma shows em arrecadação para causas sociais. O projeto reúne nomes de grandes empresas, tem agenda própria e destina integralmente a receita de patrocínios e bilheteria a instituições sociais. Segundo ele, o grupo já doou mais de R$ 600 mil ao longo do tempo. A logística é difícil, porque os integrantes vivem em agendas apertadas e viagens constantes, mas a música segue como a principal paixão fora do ambiente corporativo.

“Acho que minha grande paixão, meu hobby, é tocar guitarra”, diz. O detalhe não é periférico. Ajuda a revelar uma dimensão menos protocolar de um fundador acostumado a falar sobre fundraising, pivôs, M&A, CAC, conversão e escala, mas que também saiu do universo dos shows online sem abandonar a relação com o palco.

No fim, a trajetória de Arcoverde parece condensar um traço recorrente do empreendedor de tecnologia que sobrevive a mais de um ciclo de mercado: a capacidade de mudar de rota sem perder completamente o fio condutor da tese original. A Netshow.me começou vendendo shows pela internet, passou a estruturar transmissões corporativas, virou plataforma de conteúdo para empresas, cresceu com a digitalização forçada da pandemia, ajustou seu tamanho no pós-crise e agora tenta consolidar uma nova frente de vendas no B2B.

Para ele, a principal lição dessa caminhada está menos na insistência em uma ideia fixa e mais na disposição de recalcular a rota. “A melhor visão de futuro é aquela que evolui”, afirma. “Mudar de opinião é importante. A visão nunca está completa”.

https://www.linkedin.com/in/daniel-arcoverde/

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