outubro 20, 2026

Empresas médias ampliam alavancagem, mas mudam perfil do endividamento

Marco Pereira, CEO e cofundador da Itera

Estudo com 42,4 mil balanços mostra alta de 47,7% na indústria e de 43,7% no comércio

As empresas brasileiras de médio porte aumentaram a alavancagem nos últimos três anos, sem uma expansão equivalente do peso de empréstimos e financiamentos no endividamento. Na indústria, o uso de capital de terceiros cresceu continuamente, enquanto a participação da dívida financeira caiu. No comércio, a alavancagem avançou 43,7%, mas a fatia das obrigações financeiras terminou 2026 praticamente no mesmo nível de 2023.

Os dados fazem parte do relatório “Endividamento do Middle Market”, da Itera, especializada em inteligência e automação para análise de crédito PJ no middle market. Produzido a partir da base do Itera Benchmark, o estudo analisou 42.440 balanços de 21.259 empresas com faturamento anual entre R$ 5 milhões e R$ 300 milhões. A amostra acompanha as mesmas empresas de 2023 a 2026 e adota a mediana dos indicadores para reduzir a influência de valores extremos.

“No middle market, a necessidade de financiamento envolve capital de giro e investimento, além das relações de prazo com clientes e fornecedores. Por isso, olhar apenas para o volume da dívida diz pouco. A estrutura de capital ajuda a entender como a empresa está financiando a operação e sustentando o crescimento”, afirma Marco Antonio Pereira, cofundador e CEO da Itera.

O comércio é o setor mais alavancado entre os três analisados. A mediana do indicador passou de 267,44 em 2023 para 384,40 em 2026, alta de 43,7%. Na indústria, o avanço foi maior: 47,7%, de 175,86 para 259,77. Serviços tiveram trajetória diferente. Depois de atingir 215,93 em 2025, a alavancagem recuou para 208,27 no ano seguinte.

Diferenças na composição do endividamento

Na indústria, a dívida financeira representava 62,66% do endividamento em 2023. A fatia chegou a 66,59% em 2024, mas caiu nos dois anos seguintes, para 58,41% em 2026. A indústria terminou o período, portanto, mais alavancada, mas com menor participação relativa de empréstimos, financiamentos e outras dívidas financeiras.

Os dados sugerem maior participação de passivos operacionais, como fornecedores, tributos e obrigações trabalhistas. O estudo relaciona o aumento das necessidades de financiamento da indústria a investimentos em expansão e maquinário e ao encarecimento de matérias-primas e da cadeia de suprimentos, mas não mede separadamente a contribuição desses fatores.

Comércio mantém peso da dívida financeira

No comércio, a alavancagem cresceu sem alteração relevante, entre as pontas da série, da participação da dívida financeira. Essa fatia saiu de 56,81% em 2023, atingiu 61,52% em 2024 e recuou para 56,23% em 2026.

A combinação indica que parte relevante do aumento dos passivos ocorreu fora das dívidas financeiras. Segundo o levantamento, fornecedores e outras obrigações operacionais têm peso importante no financiamento do capital de giro do comércio.

“Prazo de fornecedor também é uma forma de financiamento. A questão é distinguir quando esse passivo reflete maior poder de negociação na cadeia e quando revela pressão sobre o caixa. Para quem analisa crédito, são situações muito diferentes”, diz Pereira.

Em serviços, o quadro é distinto. A alavancagem atingiu o pico em 2025 e recuou no ano seguinte. A participação da dívida financeira acompanhou o movimento, caindo de 67,94% para 62,22%. Ainda assim, o setor encerrou o período com a maior proporção de dívida financeira entre os três analisados.

Os números apontam, assim, para estruturas de capital diferentes. Comércio e indústria ampliaram o uso de capital de terceiros, mas sem aumento correspondente do peso da dívida financeira. Em serviços, alavancagem e participação das obrigações financeiras recuaram em 2026.

A composição do passivo ganha relevância porque empréstimos, financiamentos e outras dívidas onerosas afetam o resultado por meio das despesas financeiras. Segundo o estudo, o aumento da alavancagem combinado a uma participação relevante dessas obrigações amplia a sensibilidade dos resultados ao custo da dívida e pode consumir parte do lucro operacional.

Base reúne dados de cerca de 40 mil empresas

Nos últimos cinco anos, a Itera processou mais de 126 mil demonstrações financeiras, que deram origem a aproximadamente 145 mil análises de crédito de cerca de 40 mil empresas brasileiras.

Os demonstrativos passam por leitura, extração, padronização e validação das informações contábeis. O processo permite colocar em uma mesma base documentos que originalmente apresentam estruturas e nomenclaturas diferentes. A partir dos dados estruturados, o Itera Benchmark compara empresas por setor, porte e região.

Para o estudo de alavancagem e endividamento, foram considerados 42.440 balanços de 21.259 empresas acompanhadas entre 2023 e 2026. Os resultados são apresentados pela mediana de cada setor.

Sobre a Itera

Fundada em 2008, a Itera é especialista em aceleração e inteligência de análise de crédito com foco no mercado middle PJ. A companhia combina IA proprietária, automação e curadoria humana especializada para apoiar bancos, FIDCs e instituições financeiras na operação e inteligência da concessão de crédito corporativo. Seu portfólio inclui soluções como Itera Balanço, Itera Relatório e Itera Benchmark, plataforma de inteligência financeira comparativa voltada à tomada de decisão em crédito, risco e viabilidade financeira. Saiba mais em: https://www.itera.com.br

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