setembro 15, 2026

ENTREVISTA ESPECIAL — CONGRESSO AUTISMO EM EVIDÊNCIA

  1. O Congresso Autismo em Evidência propõe um diálogo nacional e internacional sobre o Transtorno do Espectro Autista. Na sua área de atuação, quais avanços científicos, profissionais ou sociais merecem maior destaque atualmente?
    Os avanços mais relevantes dos últimos anos estão na compreensão da etiologia multifatorial do TEA. Estudos de sequenciamento genômico ampliaram o número de genes associados ao transtorno, enquanto a pesquisa em epigenética, especialmente em metilação do DNA, começou a explicar como fatores ambientais interagem com a predisposição genética ao longo do desenvolvimento. Esse deslocamento de um modelo puramente genético para um modelo de interação gene-ambiente tem consequências práticas importantes, porque orienta políticas de prevenção e de identificação precoce com base em evidências, e não em suposições.
    Destaco ainda, a consolidação de práticas baseadas em evidências na formação de psicólogos e educadores, com maior rigor metodológico na avaliação e no acompanhamento de pessoas autistas.
  2. Como sua trajetória pessoal, acadêmica ou profissional se conectou ao tema do autismo e o que motivou sua participação no Congresso Autismo em Evidência?
    Minha conexão com o tema vem de duas frentes que se complementam. Na docência e na orientação acadêmica, coordeno o curso de Psicologia em uma instituição de ensino superior, leciono disciplina voltada aos perfis neurodesenvolvimentais, entre eles o TEA, o TDAH, e a condição de Altas Habilidades e Superdotação, e oriento pesquisas de pós-graduação centradas em neurodivergências. Antes disso, atuei como coordenadora pedagógica, período em que acompanhei de perto uma unidade escolar com aproximadamente 13% dos estudantes com algum tipo de laudo, o que aproximou minha formação teórica da realidade concreta da sala de aula. Participar do Congresso Autismo em Evidência é uma extensão natural dessas duas trajetórias, uma oportunidade de levar a um público mais amplo o mesmo rigor científico que exijo nas orientações que conduzo.
  3. Sua palestra abordará um tema relevante para a compreensão do TEA. Por que considera esse assunto importante e quais contribuições pretende apresentar ao público do congresso?
    Minha palestra trata da relação entre genética e ambiente nas origens do autismo, um tema que ainda gera muita confusão fora do meio científico. Considero esse assunto importante porque explicações simplificadas, seja atribuindo o TEA exclusivamente à genética, seja atribuindo-o a fatores ambientais isolados, prejudicam tanto a pesquisa quanto o acolhimento das famílias. Pretendo apresentar ao público um panorama construído a partir de estudos revisados por pares, incluindo meta-análises de gêmeos, estudos de associação genômica ampla e pesquisas sobre metilação do DNA, mostrando como esses achados se integram em um modelo de etiologia multifatorial.
  4. A inclusão é um dos eixos centrais do evento. Na prática, quais são atualmente os principais obstáculos para que pessoas autistas tenham participação plena na saúde, na educação, no trabalho e na sociedade?
    Na saúde, o principal obstáculo é o acesso desigual a diagnóstico precoce e a equipes multiprofissionais, especialmente fora dos grandes centros urbanos. Na educação, a formação insuficiente de professores para lidar com a heterogeneidade do espectro ainda compromete a qualidade da inclusão escolar, que muitas vezes se limita à presença física do estudante em sala sem adaptação pedagógica real. No mercado de trabalho, persistem barreiras culturais e falta de adaptação de processos seletivos e de rotinas de trabalho às necessidades sensoriais e comunicacionais de pessoas autistas. Em todos esses campos, a formação continuada de profissionais e a ampliação de políticas públicas de sustentação são condições necessárias para uma inclusão que vá além do discurso.
  5. A programação reúne profissionais de diferentes áreas. Como a atuação interdisciplinar pode contribuir para uma compreensão mais ampla, ética e individualizada das pessoas autistas?
    O TEA se manifesta de formas muito distintas entre indivíduos, o que torna a atuação de uma única área de conhecimento insuficiente para dar conta da complexidade do quadro. A integração entre psicologia, medicina, fonoaudiologia, terapia ocupacional, pedagogia e assistência social permite que o cuidado considere simultaneamente aspectos biológicos, cognitivos, comunicacionais e sociais da pessoa autista. A integração também reduz o risco de intervenções fragmentadas ou contraditórias entre profissionais, favorecendo planos terapêuticos coerentes e centrados na pessoa, não apenas no diagnóstico.
  6. Considerando sua experiência, quais práticas, estratégias ou formas de acompanhamento podem favorecer o desenvolvimento, a autonomia, o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas autistas?
    Na formação de futuros psicólogos, insisto na importância do diagnóstico diferencial cuidadoso, porque perfis neurodesenvolvimentais como TEA, TDAH e Altas Habilidades e Superdotação podem apresentar sinais que se sobrepõem, e um diagnóstico impreciso compromete todo o plano de intervenção seguinte. Também defendo, na orientação de pesquisas que conduzo, que a avaliação considere fatores de desenvolvimento ao longo do tempo, não apenas um recorte pontual, porque isso permite distinguir entre condições estruturais e quadros que se modificam conforme a intervenção. Na prática de acompanhamento, o acesso a equipe multiprofissional coordenada, com metas claras e revisadas periodicamente, segue sendo a estratégia mais consistente para favorecer autonomia e qualidade de vida.
  7. O autismo também repercute na vida familiar e na rede de apoio. Que orientações considera essenciais para familiares, cuidadores e profissionais que acompanham pessoas autistas?
    A orientação mais essencial é buscar informação qualificada, vinda de fontes científicas e de profissionais capacitados, em vez de recorrer a explicações baseadas em senso comum ou em conteúdos não verificados, que ainda circulam amplamente sobre o tema. Também considero fundamental que familiares e cuidadores tenham espaço de cuidado para si mesmos, porque o acompanhamento de uma pessoa autista costuma ser uma responsabilidade contínua e exigente. Para os profissionais, a orientação central é manter uma postura de escuta tanto da pessoa autista quanto de sua família, evitando protocolos rígidos que não considerem as particularidades de cada caso.
  8. Como congressos científicos e iniciativas educativas podem ajudar a combater preconceitos, informações incorretas, estigmas e visões limitadas sobre o autismo?
    Eventos como este cumprem um papel importante ao aproximar a produção científica do público geral e dos profissionais que atuam diretamente com pessoas autistas, traduzindo dados de pesquisa em linguagem acessível sem perder o rigor metodológico. Essa aproximação ajuda a substituir explicações simplistas, como a ideia de causas únicas para o TEA, por uma compreensão mais precisa da sua etiologia multifatorial. Iniciativas educativas contínuas, e não apenas eventos pontuais, são o caminho mais consistente para reduzir estigmas de forma duradoura.
  9. Em relação aos direitos e às políticas públicas, quais avanços ainda são necessários no Brasil e no cenário internacional para assegurar inclusão, acessibilidade, cuidado e respeito às pessoas autistas?
    No Brasil, a Lei Berenice Piana representou um avanço legal importante, mas sua implementação prática ainda é desigual entre estados e municípios, especialmente no acesso a terapias custeadas pelo sistema público de saúde. É necessário ampliar o financiamento de equipes multiprofissionais na rede pública e fortalecer a fiscalização do cumprimento da lei de inclusão escolar. No cenário internacional, o desafio comum é reduzir a distância entre países com sistemas de saúde e educação estruturados para o TEA e países onde o diagnóstico e o acompanhamento ainda são de acesso restrito.
  10. Existe alguma experiência pessoal ou profissional relacionada ao autismo que tenha transformado sua forma de compreender o tema ou de exercer sua profissão? Caso se sinta confortável, poderia compartilhá-la?
    Uma vivência que marcou minha compreensão do tema ocorreu durante minha atuação como coordenadora pedagógica em uma instituição de educação básica. Acompanhando o cotidiano escolar, percebi diferenças expressivas entre estudantes com o mesmo diagnóstico, cada um exigindo estratégias pedagógicas distintas para participar plenamente das aulas. Essa vivência reforçou, na prática, algo que hoje sustento cientificamente em sala de aula: o diagnóstico indica uma direção geral de compreensão, e o planejamento pedagógico precisa considerar a expressão individual de cada estudante. Apoiar as professoras nesse processo, traduzindo as particularidades de cada caso em estratégias concretas de sala de aula, tornou-se uma parte central do meu trabalho naquele período e segue orientando minha forma de ensinar sobre o tema hoje.
  11. O que o público pode esperar da sua participação e da palestra que apresentará no Congresso Autismo em Evidência?
    O público pode esperar uma apresentação fundamentada exclusivamente em estudos científicos revisados por pares, com indicação clara das fontes utilizadas, sobre a relação entre genética e ambiente nas origens do autismo. A proposta é oferecer um panorama atualizado e equilibrado, que evite tanto o reducionismo genético quanto o reducionismo ambiental, permitindo que cada participante compreenda o estado atual do conhecimento científico sobre o tema.
  12. Para finalizar, qual mensagem gostaria de deixar aos participantes do congresso, às pessoas autistas, às famílias, aos profissionais e à sociedade?
    A ciência sobre o autismo avança continuamente, e acompanhar esse avanço com rigor é uma responsabilidade de todos os que atuam ou convivem com o tema, sejam pesquisadores, profissionais, familiares ou a sociedade em geral. Que este congresso reforce o compromisso coletivo com práticas baseadas em evidências e com o respeito à individualidade de cada pessoa autista, para que o conhecimento científico se traduza em cuidado concreto e em inclusão real.

Michele Aparecida Cerqueira Rodrigues
Doutora em Psicologia
Cidade/País onde atua: São Paulo/Brasil

Congresso On-line Internacional Autismo em Evidência
📅
⏰ 7, 8 e 9 de outubro: a partir das 20h
⏰ 10 de outubro: a partir das 9h
🌎 Evento internacional 100% on-line
🕒 Horário de Brasília
🎓 Certificado de participação

Site oficial:
https://congressoautismoemevidencia.lovable.app/

Inscrições:
https://www.even3.com.br/congressoonlineautismoemevidencia-772281/

Instagram:
@congressoautismoemevidencia

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