setembro 14, 2026

ENTREVISTA ESPECIAL — CONGRESSO AUTISMO EM EVIDÊNCIA

  1. O Congresso Autismo em Evidência propõe um diálogo nacional e internacional sobre o Transtorno do Espectro Autista. Na sua área de atuação, quais avanços científicos, profissionais ou sociais merecem maior destaque atualmente?

Um dos avanços mais importantes é a compreensão do autismo para além de uma perspectiva exclusivamente diagnóstica. Atualmente, temos maior reconhecimento da heterogeneidade do espectro e da necessidade de compreender cada pessoa a partir de suas características individuais, seu contexto, suas necessidades de suporte e suas potencialidades.

No campo das Neurociências, da Psicologia e da Educação, também considero relevante o aprofundamento dos estudos sobre processamento e regulação sensorial, comunicação, funções executivas, aprendizagem e comportamento adaptativo. O desafio contemporâneo é transformar esse conhecimento científico em práticas qualificadas, éticas e individualizadas, evitando tanto a patologização excessiva quanto a simplificação do autismo.

  1. Como sua trajetória pessoal, acadêmica ou profissional se conectou ao tema do autismo e o que motivou sua participação no Congresso Autismo em Evidência?

Minha aproximação com o tema ocorreu pela convergência entre minha formação em Psicologia, Educação, Neurociências e Educação Especial e minha atuação como pesquisador e professor. O estudo do desenvolvimento humano sempre esteve relacionado à compreensão de como processos neurológicos, psicológicos, educacionais e sociais interagem na construção da aprendizagem e do comportamento.

Minha participação no Congresso nasce, portanto, do compromisso com a produção e a disseminação do conhecimento científico. Falar sobre autismo significa também discutir como podemos qualificar a avaliação, a intervenção e os ambientes nos quais essas pessoas vivem, aprendem, trabalham e estabelecem relações.

  1. Sua palestra abordará um tema relevante para a compreensão do TEA. Por que considera esse assunto importante e quais contribuições pretende apresentar ao público do congresso?

A regulação sensorial é fundamental porque as respostas a estímulos do ambiente podem interferir diretamente na participação, na comunicação, na aprendizagem, no comportamento e no bem-estar da pessoa autista. Minha proposta é discutir essa dimensão de maneira articulada aos critérios diagnósticos, especialmente aos Critérios A e B do DSM-5-TR, e à classificação apresentada pela CID-11.

Pretendo contribuir para que o público compreenda que manifestações comportamentais não devem ser analisadas de forma isolada. É necessário investigar sua função, o contexto em que aparecem e sua relação com as características individuais da pessoa. A partir dessa compreensão, podemos discutir possibilidades de acompanhamento e processos psicoterapêuticos mais individualizados, respeitando a singularidade e a dignidade da pessoa autista.

  1. A inclusão é um dos eixos centrais do evento. Na prática, quais são atualmente os principais obstáculos para que pessoas autistas tenham participação plena na saúde, na educação, no trabalho e na sociedade?

Um dos principais obstáculos ainda é a distância entre o reconhecimento formal dos direitos e sua efetivação cotidiana. A inclusão não se concretiza apenas pela presença física da pessoa autista em uma escola, universidade, serviço de saúde ou ambiente profissional. É necessário garantir acessibilidade, comunicação adequada, recursos de apoio, profissionais capacitados e condições que permitam participação efetiva.

Outro obstáculo é a permanência de concepções estereotipadas sobre o autismo. Pessoas autistas apresentam perfis muito diversos, e uma característica observada em determinado indivíduo não pode ser transformada em regra para todo o espectro. A inclusão exige que a sociedade se adapte também às diferentes formas de comunicação, interação, aprendizagem e processamento sensorial.

  1. A programação reúne profissionais de diferentes áreas. Como a atuação interdisciplinar pode contribuir para uma compreensão mais ampla, ética e individualizada das pessoas autistas?

O TEA não pode ser adequadamente compreendido por uma única área do conhecimento. Psicologia, Psiquiatria, Neurologia, Fonoaudiologia, Terapia Ocupacional, Educação, Educação Física, Enfermagem, Serviço Social e outras áreas podem oferecer perspectivas complementares.

A interdisciplinaridade permite construir uma compreensão mais ampla da pessoa, evitando que o indivíduo seja reduzido ao diagnóstico. O objetivo não deve ser simplesmente reunir diferentes profissionais, mas integrar conhecimentos e estabelecer objetivos coerentes de acompanhamento, sempre considerando a história, as necessidades, a autonomia, a comunicação e o contexto sociocultural da pessoa.

  1. Considerando sua experiência, quais práticas, estratégias ou formas de acompanhamento podem favorecer o desenvolvimento, a autonomia, o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas autistas?

As estratégias precisam partir de uma avaliação individualizada. Não existe uma intervenção universal capaz de responder da mesma maneira às necessidades de todas as pessoas autistas. É importante identificar demandas relacionadas à comunicação, aprendizagem, comportamento adaptativo, regulação emocional, processamento sensorial, participação social e autonomia.

Também considero essencial trabalhar com objetivos funcionais e significativos para a própria pessoa. A intervenção deve favorecer participação e qualidade de vida, e não simplesmente buscar eliminar comportamentos que sejam diferentes do padrão social. O acompanhamento deve respeitar os limites individuais e valorizar potencialidades, autonomia e formas próprias de expressão.

  1. O autismo também repercute na vida familiar e na rede de apoio. Que orientações considera essenciais para familiares, cuidadores e profissionais que acompanham pessoas autistas?

A primeira orientação é buscar informação científica de qualidade e evitar interpretações baseadas em generalizações. Cada pessoa autista possui uma história, um perfil de desenvolvimento e necessidades específicas. A família precisa ser compreendida como parte importante da rede de apoio, mas não deve carregar sozinha a responsabilidade pelo cuidado.

Também é fundamental substituir uma lógica centrada exclusivamente naquilo que a pessoa “não consegue fazer” por uma perspectiva que identifique recursos, potencialidades e possibilidades de desenvolvimento. Para profissionais, isso significa escutar a pessoa e sua família, observar o contexto e construir estratégias que tenham significado real na vida cotidiana.

  1. Como congressos científicos e iniciativas educativas podem ajudar a combater preconceitos, informações incorretas, estigmas e visões limitadas sobre o autismo?

A educação científica possui uma função social muito importante. Quando o conhecimento produzido pela pesquisa é compartilhado de maneira responsável, torna-se possível confrontar mitos, interpretações equivocadas e práticas sem fundamentação adequada.

Eventos como o Congresso Autismo em Evidência também possibilitam aproximar pesquisadores, profissionais, estudantes, famílias e sociedade. Essa aproximação favorece uma cultura de respeito à diversidade humana. Ciência, nesse contexto, não deve permanecer restrita ao ambiente acadêmico; precisa chegar aos espaços onde as decisões e as práticas acontecem.

  1. Em relação aos direitos e às políticas públicas, quais avanços ainda são necessários no Brasil e no cenário internacional para assegurar inclusão, acessibilidade, cuidado e respeito às pessoas autistas?

É necessário avançar na implementação efetiva das políticas existentes, especialmente nos aspectos relacionados ao diagnóstico qualificado, acesso aos serviços de saúde, educação inclusiva, formação profissional, acessibilidade e participação social. A existência de uma legislação não garante, por si só, que o direito seja efetivamente exercido.

Também precisamos de políticas que considerem as diferentes fases do ciclo de vida. O autismo não termina na infância. Crianças, adolescentes, adultos e idosos podem apresentar necessidades distintas, e as políticas públicas precisam acompanhar essa diversidade. Inclusão deve significar participação social com dignidade, autonomia e respeito, e não apenas acesso formal aos serviços.

  1. Existe alguma experiência pessoal ou profissional relacionada ao autismo que tenha transformado sua forma de compreender o tema ou de exercer sua profissão? Caso se sinta confortável, poderia compartilhá-la?

Minha experiência profissional como pesquisador e professor transformou progressivamente minha compreensão do autismo. O contato com diferentes contextos educacionais e com discussões relacionadas à Educação Especial mostrou-me que compreender uma pessoa exige mais do que identificar características diagnósticas. É preciso observar como ela aprende, comunica-se, interage, percebe o ambiente e responde às demandas cotidianas.

Essa perspectiva fortaleceu em mim a convicção de que o diagnóstico deve ser compreendido como uma referência clínica e não como uma definição integral da pessoa. O sujeito vem antes do rótulo. A ciência deve servir para ampliar possibilidades de participação, desenvolvimento e autonomia, e não para limitar expectativas.

  1. O que o público pode esperar da sua participação e da palestra que apresentará no Congresso Autismo em Evidência?

O público pode esperar uma abordagem científica, clínica e interdisciplinar sobre a regulação sensorial no TEA. Pretendo estabelecer uma relação entre os Critérios A e B do DSM-5-TR, a CID-11 e a compreensão dos processos envolvidos na avaliação e no acompanhamento psicoterapêutico.

A proposta é aproximar teoria e prática, discutindo como determinadas manifestações podem ser compreendidas dentro de um contexto mais amplo. Mais do que apresentar conceitos, espero estimular uma leitura crítica e individualizada do autismo, baseada em evidências científicas, ética profissional e respeito à singularidade humana.

  1. Para finalizar, qual mensagem gostaria de deixar aos participantes do congresso, às pessoas autistas, às famílias, aos profissionais e à sociedade?

Minha mensagem é que precisamos compreender o autismo com ciência, mas também com escuta, respeito e responsabilidade. A pessoa autista não pode ser reduzida ao diagnóstico, aos déficits ou às dificuldades observadas em determinado contexto. Existe uma pessoa com história, subjetividade, potencialidades, necessidades e direito à participação social.

Aos profissionais, deixo o convite para continuarmos estudando e qualificando nossas práticas. Às famílias, reforço a importância de buscar apoio e conhecimento confiável. Às pessoas autistas, que suas vozes sejam cada vez mais consideradas nos debates que dizem respeito às suas próprias vidas. E à sociedade, fica uma responsabilidade fundamental: inclusão não é apenas permitir que alguém esteja presente; é criar condições para que possa participar, comunicar-se, aprender, trabalhar, conviver e exercer sua autonomia com dignidade.

Rômulo Terminelis da Silva, Ph.D
CREF 001151-G/RR
Pós-doutorado em Educação com Ênfase em Educação Física – Logos University. Paris, França.
Pós-doutor em Neurociências – Logos University. Paris, França
Pós-doutor em Educação
E-mail: drromuloterminelis@hotmail.com https://orcid.org/0000-0001-
8911-5880
Programa de Pós-Graduação em Educação da Logos University
International- PPGE/Unilogos, Paris, França – (Probono)
Doutor em Educação, Logos University Internacional, Unilogos e Universidade Federal de Alagoas – UFAL. Doutor em Psicologia Clínica-
FACISA/UPE, PhD em Psicologia da Saúde – Université des Sciences de L’homme de Paris/França (ULSHP).
Professor Titular e Associado – Logos University Internacional, UniLogos.Paris, França.
(Probono).
Mestre em Educação- Unilogos, Paris, França
Professor da Universidade Estadual de Roraima – UERR nas disciplinas de História Antiga do Ocidente e
Pré-História e História Antiga do Oriente, Psicologia Educacional, Fundamentos da Educação, Educação Especial, Avaliação da Aprendizagem, Psicologia Social
Licenciado em História, Pedagogia, Filosofia, Ciências Biológicas, Educação Física, Bacharel em Psicologia.Licenciando em Educação Especial.
Classificado Professor Formador
Nível I – Orientador de
TCC (Bolsista CAPES/ UAB)
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Roraima
(IFRR). Orientador de Mestrado e Doutorado na Logos University International, Unilogos, Paris, França.
Professor Efetivo da Edução Básica- SEED. Neurocientista Clínico, Neuricientista da Aprendizagem, Psicopedagogo Institucional e Clínico. Psicanalista Clínico, Neuropsicólogo, Especialista em TCC, entre outras.

Congresso On-line Internacional Autismo em Evidência
📅
⏰ 7, 8 e 9 de outubro: a partir das 20h
⏰ 10 de outubro: a partir das 9h
🌎 Evento internacional 100% on-line
🕒 Horário de Brasília
🎓 Certificado de participação

Site oficial:
https://congressoautismoemevidencia.lovable.app/

Inscrições:
https://www.even3.com.br/congressoonlineautismoemevidencia-772281/

Instagram:
@congressoautismoemevidencia

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