- Quais avanços científicos, profissionais ou sociais merecem maior destaque atualmente?
Acredito que um dos principais avanços seja a compreensão do autismo para além do diagnóstico, olhando para a pessoa, seu contexto, suas potencialidades e suas necessidades. Também considero muito importante o avanço das práticas interdisciplinares e da avaliação individualizada, porque não existe uma única forma de ser autista. Hoje precisamos cada vez mais falar em acessibilidade, participação, autonomia e qualidade de vida.
- Como sua trajetória se conectou ao tema do autismo?
Minha aproximação com o autismo começou de uma forma muito pessoal: sou mãe de um menino com TEA, TDAH, dislexia e transtorno do processamento auditivo. Essa experiência despertou em mim uma busca incansável por conhecimento.
A partir daí, minha trajetória acadêmica e profissional foi se ampliando, especialmente na Educação, na Neuropsicopedagogia e na especialização em ABA. O que começou como uma necessidade de compreender melhor meu próprio filho acabou se transformando também em uma missão profissional: estudar, pesquisar e buscar formas mais humanas e individualizadas de compreender cada pessoa.
- Por que considera o tema da sua palestra importante?
Porque avaliar não deve significar apenas encontrar resultados ou identificar dificuldades. A avaliação precisa ajudar a compreender a pessoa em sua totalidade, considerando sua história, seu contexto, suas potencialidades e suas necessidades.
Minha contribuição é justamente trazer esse olhar mais humanizado para a avaliação neuropsicopedagógica, mostrando que o resultado não é o ponto final. Ele deve ser o ponto de partida para novas possibilidades.
- Quais são os principais obstáculos para a participação plena das pessoas autistas?
Ainda existem muitas barreiras, e nem todas estão na pessoa. Temos ambientes pouco acessíveis, excesso de estímulos, comunicação inadequada, expectativas rígidas, falta de informação e, principalmente, preconceito.
Precisamos compreender que adaptar não significa facilitar ou diminuir expectativas. Significa reduzir barreiras para que a pessoa tenha condições reais de demonstrar aquilo que sabe, pode fazer e pode desenvolver.
- Como a atuação interdisciplinar pode contribuir?
O trabalho interdisciplinar permite enxergar a pessoa por diferentes perspectivas, sem fragmentá-la. Educação, saúde, família e demais profissionais podem compartilhar informações e construir estratégias mais coerentes.
Quando existe diálogo entre essas áreas, conseguimos compreender melhor as necessidades, potencialidades e desafios de cada pessoa e pensar em caminhos realmente individualizados. - Quais práticas podem favorecer desenvolvimento, autonomia e qualidade de vida?
Eu destacaria três palavras: compreender, adaptar e acompanhar.
Precisamos compreender a história e o funcionamento daquela pessoa, adaptar ambientes, estratégias e formas de comunicação quando necessário, e acompanhar o processo ao longo do tempo. O objetivo não é simplesmente desenvolver habilidades, mas favorecer autonomia, participação, bem-estar e qualidade de vida.
- Que orientações considera essenciais para familiares e profissionais?
Primeiro, escutar. Muitas vezes a família conhece aspectos daquela pessoa que nenhum instrumento consegue revelar sozinho.
Também é importante evitar comparações e buscar estratégias individualizadas. Cada pessoa tem seu próprio ritmo, suas potencialidades e suas necessidades. E ninguém precisa caminhar sozinho: uma boa rede de apoio faz muita diferença.
- Como combater preconceitos e informações incorretas sobre o autismo?
Acredito que conhecimento de qualidade é uma das principais ferramentas. Precisamos falar sobre autismo com responsabilidade, base científica e, principalmente, com respeito às próprias pessoas autistas.
Congressos e espaços educativos são importantes justamente porque aproximam ciência, profissionais, famílias e sociedade, ajudando a substituir estereótipos por informação e compreensão.
- Quais avanços ainda são necessários nas políticas públicas?
Ainda precisamos avançar muito em acessibilidade, formação profissional, atendimento interdisciplinar e efetivação dos direitos das pessoas com deficiência.
Esse é, inclusive, um tema que pretendo aprofundar na minha trajetória acadêmica: minha pesquisa de doutorado será voltada justamente para políticas públicas de inclusão de pessoas com deficiência no ensino superior. Precisamos garantir não apenas o acesso, mas também permanência, participação e condições reais de aprendizagem.
- Existe alguma experiência que transformou sua forma de compreender o autismo?
Sem dúvida, a maternidade transformou profundamente meu olhar. Viver de perto os desafios e também as potencialidades de uma criança neurodivergente me fez perceber que, muitas vezes, aquilo que parece uma dificuldade individual também pode estar relacionado às barreiras existentes no ambiente.
Essa experiência me ensinou a olhar primeiro para a pessoa, e não apenas para o diagnóstico. E esse olhar acabou se tornando parte fundamental da minha atuação profissional.
- O que o público pode esperar da sua participação?
Espero proporcionar uma reflexão sobre avaliação, inclusão e acompanhamento, mostrando que uma avaliação não deve terminar em um relatório.
Ela precisa produzir compreensão e possibilidades. Quero que o público saia pensando não apenas em “qual foi o resultado?”, mas principalmente: “o que podemos fazer a partir daqui?”
- Qual mensagem gostaria de deixar?
Eu gostaria de deixar uma mensagem muito simples: pessoas não são diagnósticos, são histórias.
Que possamos olhar para além das dificuldades, reconhecer potencialidades e construir caminhos possíveis. Inclusão não é fazer a pessoa caber em um modelo; é transformar os ambientes e as estratégias para que ela possa participar, aprender, se desenvolver e viver com dignidade.
Porque, no final, o nosso olhar não pode terminar no diagnóstico. Ele precisa continuar na pessoa.
Samara Farias da Cunha
Neuropsicopedagoga; Psicopedagoga Clínica; Especialista em ABA & Doutoranda em Educação.
Palhoça, Santa Catarina.