agosto 17, 2026

Estudo inédito: 44% das empresas tiveram crédito negado nos últimos 12 meses

Com inadimplência recorde entre empresas e Selic elevada, levantamento interno da Intra Asset mostra como a análise de risco passou a depender menos do balanço isolado e mais do acompanhamento contínuo das companhias

A inadimplência corporativa chegou a um ponto de atenção para o mercado de crédito no Brasil. Segundo o Indicador de Inadimplência das Empresas, divulgado em junho, 9 milhões de CNPJs estavam negativados em abril de 2026, o maior número da série histórica. No mesmo mês, as empresas acumulavam 63,7 milhões de dívidas em atraso, somando R$ 220,9 bilhões, com média de 7,1 contas inadimplidas por companhia.

O ambiente financeiro também segue restritivo: a Selic está em 14,50% ao ano, após a decisão do Copom de abril, patamar elevado para empresas que dependem de capital de giro, alongamento de passivos e financiamento para sustentar a operação. O crédito ampliado destinado às empresas chegou a R$ 7,1 trilhões em abril, equivalente a 54,3% do PIB, com crescimento de 6,6% em 12 meses, puxado principalmente pelo avanço de 17,2% nos títulos de dívida.

Um levantamento interno da Intra Asset, feito a partir do histórico de análise de crédito da gestora nos últimos 6 anos, mostra que cerca de 1.500 grupos empresariais passaram por avaliação técnica. Desse total, a média de aprovação ficou próxima de 50%, enquanto aproximadamente 500 grupos chegaram a operar efetivamente com a casa. Hoje, a Intra mantém operações com cerca de 100 grupos empresariais. As análises envolvem companhias com faturamento anual superior a R$ 120 milhões, com cerca de 60% da exposição concentrada em empresas com receita acima de R$ 1 bilhão por ano. A carteira tem maior presença setorial de indústria (aproximadamente 45% da exposição), seguida por comércio, varejo, atacado e distribuidores (cerca de 30%) e agronegócio (aproximadamente 20%).

Para Fernando Moreira, diretor de Gestão de Fundos da Intra Asset, o dado mostra que a análise de risco precisa ir além dos demonstrativos financeiros tradicionais. “O balanço mostra uma parte importante da história, mas não mostra tudo. Em crédito corporativo, o ponto central é entender o movimento da empresa, o setor em que ela está inserida, a pressão sobre o caixa e os sinais que aparecem antes do problema se tornar inadimplência. Uma companhia pode parecer saudável nos demonstrativos e, ao mesmo tempo, carregar fragilidades que só aparecem quando se observa a operação de perto”, afirma Moreira.

A leitura de risco passa por indicadores como geração de caixa, liquidez, alavancagem, estrutura de capital, qualidade das garantias, governança, comportamento em bureaus de crédito, concentração de dívidas, dependência de capital de curto prazo, qualidade dos recebíveis, recorrência da receita, margens operacionais e capacidade de cobertura dos encargos financeiros.

Dos cerca de 500 grupos empresariais que já operaram com a Intra Asset, aproximadamente 100 seguem ativos hoje. Entre os demais 400, cerca de 70% deixaram a carteira após piora de risco e saída preventiva da exposição, enquanto 30% melhoraram sua condição financeira, quitaram as operações e voltaram a acessar crédito junto a grandes bancos.

“Em crédito, aprovar a operação é só o começo. O risco precisa ser acompanhado durante toda a vida da exposição. Uma empresa pode melhorar, pagar e voltar ao mercado bancário tradicional, mas também pode deteriorar rapidamente e exigir uma saída preventiva. O ponto central é não esperar o default aparecer para agir”, afirma Moreira.

Para as empresas que buscam crédito, esse novo ambiente muda a preparação antes mesmo da tomada de recursos: acesso a capital deixou de depender apenas de porte, faturamento ou histórico bancário e passou a exigir previsibilidade, organização financeira e capacidade de explicar com clareza a necessidade da operação.

Sobre a Intra Asset: Gestora de crédito estruturado, gestão de recursos e tecnologia. Fundada em 2020 como Intrabank, iniciou suas atividades com foco em consultoria e estruturação de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), expandindo ao longo dos anos sua atuação para gestão de fundos estruturados, incluindo crédito privado, fundos imobiliários e multimercados.

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