agosto 8, 2026

Exportações aos EUA caem 5%: superávit fica 17% abaixo do esperado com importações crescendo 7,6%

Cédula de Real, moeda brasileira

“O Brasil faturou mais porque o preço médio dos produtos exportados avançou 10,8%, mas fisicamente vendeu menos”, afirma Gustavo Assis, CEO da Asset, sobre os dados de comércio exterior de julho, que mostraram uma queda de 5% nas exportações brasileiras aos Estados Unidos e um superávit comercial 17% abaixo do esperado, com as importações crescendo 7,6%. Nove economistas e gestores avaliam os efeitos do resultado sobre câmbio, inflação e a trajetória da Selic.

“O principal efeito das novas sobretaxas dos Estados Unidos pode aparecer menos no resultado agregado da economia e mais nas decisões das empresas. Enquanto não houver maior clareza sobre a duração e o alcance dessas medidas, companhias mais expostas ao mercado americano tendem a reavaliar investimentos, contratações e planos de expansão. Segundo estimativa do MDIC, com base no comércio bilateral de 2024, 23,1% das exportações brasileiras aos Estados Unidos estão sujeitas às novas sobretaxas decorrentes da Seção 301, enquanto 52,7% não são alcançadas nem por essas medidas nem pelas tarifas setoriais da Seção 232. Essa assimetria exige uma avaliação mais criteriosa da exposição de empresas, setores e ativos ao mercado americano”, afirma Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos.

“O dado mais importante para a atividade econômica não é o crescimento de 6,2% das exportações em dólares, mas a queda de 4,3% no volume embarcado. O Brasil faturou mais porque o preço médio dos produtos exportados avançou 10,8%, mas fisicamente vendeu menos. Os EUA representam hoje cerca de 10% das exportações do país, portanto o impacto agregado tende a ser limitado, mas pode ser bastante maior sobre setores e regiões mais dependentes daquele mercado”, diz Gustavo Assis, CEO da Asset.

“A leitura mais relevante do dado de julho é que o recuo nas vendas aos Estados Unidos ainda reflete condições de demanda, e não a nova sobretaxa, que passou a valer de forma plena apenas no fim do mês. O ponto a acompanhar no segundo semestre é a persistência da tarifa e o que ela representa para a entrada de divisas ao longo dos próximos meses”, avalia Peterson Rizzo, Head de Relações com Investidores da Multiplike.

“Existe um canal de alta de preços: se a deterioração comercial reduzir a oferta de dólares e provocar desvalorização persistente do real, produtos importados, insumos industriais, combustíveis e bens comercializáveis ficam mais caros em reais. Com a Selic reduzida para 14% nesta semana, o tarifaço não necessariamente interrompe o ciclo, mas aumenta a incerteza e torna menos provável uma sequência automática de cortes”, afirma Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco.

“A queda de 5% nas vendas aos Estados Unidos aconteceu num mês em que a exportação total do Brasil ainda cresceu 6,2%, com a Ásia subindo 11,5% e a China comprando quase um terço do que embarcamos. O que tira força do segundo semestre é bem mais a política monetária, com a Selic ainda em 14%, do que o tarifaço em si”, avalia André Matos, CEO da MA7 Capital.

“Uma desaceleração persistente tende a retirar parte do impulso da atividade econômica no segundo semestre, principalmente em setores industriais mais expostos. Do ponto de vista cambial, menores exportações significam uma redução da entrada de dólares, o que pode contribuir para alguma pressão de alta sobre a taxa de câmbio”, diz André Luiz Haas Caruso, CEO da Pilar Capital.

“Uma queda das vendas para os Estados Unidos não necessariamente significa perda equivalente para o Brasil. Estudo do BNDES sobre as tarifas anteriores constatou que, entre agosto e dezembro de 2025, a perda de US$ 3,8 bilhões nas vendas destinadas aos EUA foi mais que compensada por um aumento de US$ 11,6 bilhões das exportações ao restante do mundo. O problema é que essa substituição não funciona igualmente para todas as mercadorias”, pondera Letícia Moschioni, sócia da Finscale.

“O problema aparece se essa perda persistir e começar a afetar produção, margens e investimento nos setores mais expostos. Vemos mais risco para o real pelo canal financeiro — aumento da percepção de risco, saída de capital e piora das expectativas — do que pela redução direta do fluxo comercial com os Estados Unidos”, afirma Valdir Piran Jr., CEO do Grupo Intra.

“O Brasil exportou mais de US$ 34 bilhões no mês e ainda produziu superávit comercial de aproximadamente US$ 7 bilhões. A preocupação surge se a redução das vendas para os EUA se tornar persistente e coincidir com uma diminuição do superávit brasileiro. As importações cresceram 7,6%, mais do que as exportações, e o saldo ficou abaixo dos US$ 8,4 bilhões esperados pelo mercado”, conclui Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações.

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