agosto 18, 2026

Ficamos mais ricos ou apenas consumimos como ricos?

Guilherme Pianezzer

Artigo de Guilherme Pianezzer

Hoje fui a um mercado de uma rede premium. Era voltado a um público de renda mais elevada, com lojas sofisticadas, produtos importados, cafés especiais, vinhos, queijos e uma variedade que dificilmente encontraríamos nos mercados frequentados pelas gerações anteriores.

Enquanto caminhava pelos corredores, uma pergunta me ocorreu: será que nós realmente ficamos mais ricos? A pergunta faz algum sentido quando observamos a proliferação desse tipo de estabelecimento. Em Curitiba, supermercados voltados às classes de renda média e alta abriram novas unidades, ampliaram serviços e passaram a oferecer experiências que vão muito além da simples compra de alimentos.

À primeira vista, parece uma demonstração evidente de prosperidade. E, em parte, é. Os dados mostram que a renda dos brasileiros apresentou melhora nos últimos anos. Em 2024, por exemplo, o rendimento domiciliar per capita atingiu o maior valor da série histórica iniciada em 2012, segundo o IBGE. Indicadores de pobreza e desigualdade também apresentaram avanços recentes. Portanto, não faria sentido defender simplesmente que o brasileiro está mais pobre ou que nada melhorou.

A questão é outra. Do ponto de vista econômico, renda, consumo e riqueza não são exatamente a mesma coisa. Renda é aquilo que recebemos. Consumo é aquilo que utilizamos dessa renda para adquirir bens e serviços. Riqueza envolve patrimônio, poupança, ativos e, principalmente, capacidade de sustentar determinado padrão de vida ao longo do tempo.

Uma pessoa pode ter uma boa renda e consumir produtos sofisticados sem possuir patrimônio algum. Pode comprar um vinho importado, trocar de celular, viajar eventualmente, frequentar restaurantes e supermercados de alto padrão e, ao mesmo tempo, morar de aluguel, possuir pouca reserva financeira e depender completamente do próximo salário.

É justamente aí que surge um paradoxo: o capitalismo contemporâneo conseguiu tornar o luxo divisível. Uma casa pode custar centenas de milhares de reais. A entrada de um financiamento pode exigir anos de economia. Um queijo importado, um café especial ou uma garrafa de vinho, porém, custam algumas dezenas de reais. Não precisamos ser ricos para experimentar pequenos símbolos de riqueza.

Não se trata de condenar alguém porque decidiu comprar um café melhor ou um produto diferente depois de uma semana inteira de trabalho. O interessante é perceber como pequenos luxos se tornaram relativamente acessíveis enquanto outros elementos fundamentais da segurança econômica parecem cada vez mais distantes.

A moradia talvez seja o exemplo mais evidente. Entre 2016 e 2025, segundo o IBGE, o número de domicílios alugados no Brasil cresceu mais de 50%. No mesmo período, o crescimento dos imóveis próprios já quitados foi muito menor. Para parte das gerações anteriores, o trabalho podia ser convertido ao longo dos anos em patrimônio: um terreno, uma casa, uma pequena propriedade. Hoje podemos estar construindo uma classe média diferente, definida menos pela propriedade e mais pelo consumo. Não é necessariamente pobre, é só mais frágil.

Há ainda outro aspecto. O consumo é extremamente visível. O patrimônio e a dívida, não. Vemos o carro, o celular, a viagem, o restaurante e o carrinho cheio no supermercado. Não vemos o financiamento, as parcelas do cartão, o aluguel, a falta de poupança ou o medo de perder a renda. Por isso, cidades repletas de supermercados premium, restaurantes sofisticados e serviços caros podem transmitir uma sensação de enriquecimento maior do que aquela realmente existente.

A expansão desses estabelecimentos certamente mostra que existe mercado consumidor para eles. Mas não demonstra, sozinha, que toda a sociedade se tornou mais rica. Pode revelar aumento de renda, mudanças de hábitos, concentração de riqueza e, principalmente, uma sociedade cada vez mais acostumada a comprar pequenas parcelas de uma experiência de luxo.

Talvez tenhamos, de fato, melhorado de vida em vários aspectos. Temos mais tecnologia, mais variedade, mais informação e acesso a produtos que nossos pais dificilmente conheceriam. Mas prosperidade não deveria ser medida apenas pela quantidade de opções disponíveis em uma prateleira.

Uma sociedade verdadeiramente próspera deveria permitir que o trabalho fosse transformado não somente em consumo, mas também em patrimônio, reserva, moradia, tempo e segurança. Ao sair do supermercado, portanto, fiquei com uma pergunta que talvez valha mais do que qualquer resposta pronta: ficamos realmente mais ricos ou apenas aprendemos a consumir como se fôssemos?

Guilherme Augusto Pianezzer é professor de Matemática Financeira, doutor em Métodos Numéricos pela UFPR e professor-tutor dos cursos de Exatas do Centro Universitário Internacional Uninter. É autor de mais de 10 livros nas áreas de matemática, estatística, economia e educação financeira. Atualmente é estudante do curso de ciências econômicas na mesma instituição.

Mais resultados...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors