março 29, 2026

Geopolítica do afeto – uma nova ordem mundial?

Lá se foram décadas e décadas de um mundo curvado à cultura dos EUA. E isso não é coincidência ou consagração. Isso foi uma estratégia bem pensada e executada: o Soft Power. 

Para tentar dominar o mundo e consolidar-se como potência global, não basta estabelecer sua moeda como a mais forte e equipar seu exército a ponto de torná-lo o maior poderio bélico do planeta. É preciso, também, ver em Hollywood uma espécie de Pentágono que, de outra maneira, insere seus tentáculos nas sociedades do mundo ao exportar seu idioma como necessidade, estilo de vida como caminho, jeito de ser como distintivo social até que o mundo passe a achar que, para ser feliz, precisa ser como você.

Em outras palavras, diferente do poder militar, o soft power é essa capacidade que tem uma nação de influenciar os outros pela atração e persuasão, usando de sua cultura, ideologia e valores como uma “moeda diplomática”, por assim dizer. Durante muito tempo, o “American Way of Life” foi consumido como o único padrão de sucesso e, portanto, almejado e desejado como um ideal de vida.

Até que o Brasil chegou.
E parece estar hackeando esse sistema pelas vias digitais.

Ao que muito indica, estamos testemunhando algo como uma inversão de fluxo. A antiga “síndrome de vira-lata”, que nos empurra a acreditar que o que vem de fora é invariavelmente melhor, vem sendo substituída por um orgulho estético que atrai olhares globais por meio da música, do estilo, da história e da ancestralidade. O dito “viralatismo” tem sido, agora, percebido como algo até meio cafona, dizem…

O Brasil não está apenas na moda – afinal, ‘Brazil Core’ é papo antigo, já. Coisa de 2022; o Brasil está se tornando referência. A tendência foi apenas o sintoma superficial, uma casca estética. O que vemos agora é o país sendo posto como fundamento, como referência de um novo modo de habitar o tempo.

E se o Rio e Salvador são a atual porta de entrada dos gringos, o samba acaba sendo a mensagem primeira de brasilidade. E samba não como retrato de nossa história; samba como “tecnologia ancestral”, como dizia-se por becos e vielas e, hoje, também se diz por calçadões, avenidas e telas de telefone mundo afora. É um projeto de existência que agora disputa símbolos em escala global. 

Enquanto alguns ainda buscam validação no Norte Global, o Brasil vence uma guerra cultural no sapatinho, mas nem tão silenciosamente: temos provocado desejo de Brasil por meio do som da nossa fala, das estrofes de nossas músicas, da opulência e da simplicidade estética que carregamos com o jeitinho brasileiro de existir. De 2025 pra cá, o que se observa é não apenas um interesse dos olhares do mundo como quem observa, da plateia, um espetáculo… mas uma vontade real de imersão, de fazer parte, de viver como a gente vive.

“Com licença”?!. Nana, nina, não… nossa música e nosso corpo dançam, hoje, com autopermissão. Ao que tudo indica, estamos vendo é o fim de um desejo de cópia e replicação que dá lugar a uma afirmação de identidade viva que resistiu. E que agora floresce.

Um Brasil que parou de olhar para o lado para se comparar;
Um mundo que olha para o Brasil com sede: parece querer aprender a sentir.

ÍMÃ GLOBAL
Essa mudança de percepção não é subjetiva. Ela se traduz em números e
fenômenos comportamentais; muitos deles, digitais:

  • Fábrica de memes vs Hollywood: se eles têm o cinema e a produção audiovisual de TV, nós temos a profusão de memes na velocidade da luz. Há anos, a internet brinca que, por lá, não é muito esperto ‘mexer’ com os brasileiros. A academia do Oscar ficou impactada com a invasão brasileira em suas postagens referentes à Fernanda Torres, no ano passado; o tsunami “Plz come to Brazil” que, vez por outra, toma de assalto a caixa de comentários de celebridades e artistas; Renata Sorrah, “the Math Lady” da internet, é nossa!
    Se os EUA ainda detêm o monopólio da imagem, é do Brasil o monopólio da atenção. Não é à toa, portanto, que influenciadores digitais gringos têm produzido conteúdos pontuais mirando no Brasil e nos brasileiros enquanto audiência.
  • O “Gringo Bracilêro” como fenômeno social: você abre o TikTok ou a aba explorer do Instagram e eles estão por toda parte. Francês, estadunidense, sueco, italiano, sul-africano, chinês… casos e mais casos de estrangeiros que trocaram seus países de origem pelo Brasil, dominaram a língua e, hoje, produzem conteúdo nas redes sociais celebrando as nossas “jabuticabas” e se maravilhando com as nossas peculiaridades: seja na comida, seja nos nossos diminutivos para tudo, seja na forma de nos relacionarmos com o outro.
  • Turismo em alta: batemos recordes sucessivos na entrada de estrangeiros que buscam o Brasil não apenas como um cartão-postal, mas como uma experiência de vida. Entre 2023 e 2024, o país registrou marcos históricos. De acordo com o Ministério do Turismo e a Embratur, recebemos cerca de 6 milhões de turistas estrangeiros – 62% mais que no período anterior. Eles deixaram mais de R$ 34 bilhões na economia, superando até mesmo o patamar pré-pandemia e o recorde anterior: a Copa do Mundo no Brasil.
  • A filosofia do samba: o samba deixou de ser apenas ritmo para ser reconhecido não só por profundidade intelectual como por escola de vida. No movimento mais recente desses desdobramentos culturais do Brasil atual pelo mundo, a gente tem se deparado com perfis de influenciadores estrangeiros que ‘viralizam’ ao traduzir letras complexas, descobrindo que o Brasil “sabe das coisas” e que o samba é, na verdade, uma crônica da alma humana, seja ela brasileira ou não. “Tá Escrito”, do Grupo Revelação, que o diga…
  • Intercâmbio musical: artistas como o cantor francês Arthur Albaz que escolhe gravar clássicos da Bossa Nova e do Samba, em português, fazendo pontes líricas com o seu francês, apontam que a nossa língua e melodia são, de novo, um frisson em termos de objet du désir global.

Mark Cardoso é Head de Marca & Comunicação no Marketing do Grupo Superlógica. Jornalista e publicitário, com mestrado em Marketing/Branding (Desenvolvimento de Marca) pela Universidade de Brasília (UnB), já acumula mais de 20 anos de experiência com passagens por veículos, agências, marcas e empresas. Com um livro publicado, o também psicanalista acredita na pergunta como início do movimento e, talvez por isso, já tenha vivido em cinco cidades diferentes.

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