Prever se o dólar vai subir ou cair costuma concentrar a atenção de empresas expostas ao exterior, mas a cotação representa apenas uma parte dessa equação. Para importadores e exportadores, datas de pagamento, necessidade de capital de giro, exposição em moeda estrangeira e planejamento de caixa também interferem no resultado financeiro.
Entre janeiro e agosto de 2026, o comércio exterior brasileiro movimentou US$ 446,39 bilhões, segundo a Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Para Murillo Oliveira, especialista em investimentos e estruturação financeira internacional e Head of Treasury da Saygo Group, holding brasileira especializada em comércio exterior que integra câmbio, tecnologia e inteligência operacional, o risco começa antes do fechamento da moeda. “O dólar é a parte mais visível da operação, mas uma boa gestão cambial começa antes da contratação da moeda. Quando a empresa conhece seus prazos, a necessidade de caixa, a margem esperada e o nível de exposição, consegue tomar decisões com mais previsibilidade e escolher o momento e a estratégia mais adequados para cada operação”, afirma.
Juros ajudam a definir o risco
A política monetária no Brasil e nos Estados Unidos é um dos fatores que ajudam a explicar os movimentos do câmbio. Em setembro, Brasil e Estados Unidos voltaram a tomar decisões opostas sobre os juros na chamada “Super Quarta”. No dia 16, o Comitê de Política Monetária do Banco Central reduziu a Selic para 13,75% ao ano, enquanto o Federal Reserve elevou a taxa básica norte-americana para a faixa de 3,75% a 4% ao ano.
Diferenças entre juros, fluxo internacional de capital, percepção de risco e acontecimentos geopolíticos podem alterar a procura por ativos e moedas. Para a tesouraria de uma empresa, porém, acompanhar essas variáveis não significa tentar prever diariamente o próximo nível do dólar.
A proteção cambial, também conhecida como hedge, pode ser utilizada para limitar parte dessa exposição. A escolha depende do valor da obrigação ou do recebimento, do prazo, da moeda envolvida e da estrutura financeira de cada companhia. “Leitura macroeconômica serve para construir cenários e medir riscos, ela não substitui o planejamento financeiro. A empresa precisa saber quanto está exposta, por quanto tempo e qual movimento da moeda pode ser absorvido sem comprometer margem, caixa ou capital destinado à operação”, explica Murillo.
Operação pode ampliar o impacto cambial
Uma importadora que fecha hoje uma compra para pagar o fornecedor daqui a dois ou três meses já está exposta à variação cambial durante esse intervalo. No caso de uma exportadora, o movimento ocorre no sentido oposto: a empresa pode ter receita futura em dólar enquanto mantém despesas em reais.
Ronaldo Félix, especialista em comércio exterior e operações internacionais, sócio e diretor de operações da Saygo Group, explica que fechamento de câmbio, remessa, documentação, liquidação e pagamento não podem ser tratados como etapas isoladas. “Uma pequena diferença na cotação pode ganhar relevância quando aplicada a valores maiores, mas o custo também aparece quando os processos não conversam entre si. Se o câmbio é fechado sem considerar a data do pagamento, a disponibilidade de caixa ou a documentação necessária, a empresa pode resolver uma parte da operação e criar outro problema logo adiante”, afirma.
Uma variação de R$ 0,10 em uma obrigação de US$ 500 mil representa diferença de R$ 50 mil na conversão. O exemplo ajuda a dimensionar como movimentos relativamente pequenos podem afetar operações de maior valor, principalmente quando o prazo reduz a possibilidade de escolha.
Outro erro ocorre quando a empresa posterga a decisão esperando uma taxa mais favorável sem considerar o vencimento do compromisso assumido. À medida que a data do pagamento se aproxima, a flexibilidade diminui e o fechamento pode deixar de ser uma escolha para se tornar uma necessidade operacional.
Tecnologia ajuda a conectar etapas
A integração de informações operacionais e financeiras está entre os pontos trabalhados pela Saygo no desenvolvimento do Vision, plataforma voltada à centralização de dados ligados às operações internacionais. A ferramenta reúne informações como documentos, câmbio, prazos e custos, permitindo acompanhar diferentes etapas do processo em um mesmo ambiente.
Para Ronaldo Félix, a integração dessas informações ajuda a reduzir decisões tomadas de forma isolada. “Quando a empresa consegue visualizar documentação, pagamentos, prazos e movimentação da operação no mesmo fluxo, aumenta a capacidade de identificar onde um custo está surgindo e de agir antes que esse impacto avance para outras etapas”, aponta.
Previsibilidade reduz dependência da cotação
Para importadores, a moeda estrangeira interfere na formação do custo da mercadoria, no preço de venda e na necessidade de capital para concluir uma compra. Para exportadores, uma alteração antes do recebimento pode modificar o valor convertido para reais e afetar a rentabilidade prevista.
O objetivo da gestão, portanto, não é acertar o menor ou o maior ponto da moeda, mas reduzir a dependência de decisões tomadas sob pressão e aumentar a previsibilidade financeira. Ao integrar leitura macroeconômica, planejamento de caixa e execução operacional, empresas expostas ao exterior conseguem avaliar com mais clareza quanto risco podem assumir e quais medidas precisam ser tomadas antes do vencimento de seus compromissos.
Sobre a Saygo
Holding brasileira especializada em comércio exterior, formada pela unificação da Proseftur Assessoria em Comércio Exterior e da Zebra Corretora de Câmbio. Com mais de 23 anos de experiência, oferece soluções integradas para importadores e exportadores, abrangendo assessoria em operações internacionais, serviços cambiais e desenvolvimento de tecnologias para otimização de processos globais.
Fontes: Secretaria de Comércio Exterior (MDIC); Banco Central do Brasil; Federal Reserve.