Do auge da lista de Jeffrey Beall à sua queda em 2017, a experiência internacional acende um alerta: o combate a más práticas não pode se transformar em instrumento de perseguição midiática e
controle comercial de periódicos sérios.
O fantasma das listas negras
Nos últimos anos, o debate sobre revistas científicas “predatórias” se tornou um dos temas mais sensíveis da comunicação acadêmica global. Ao lado da preocupação legítima com a integridade científica, cresce o uso de listas negras e rankings opacos que, sob o discurso do combate ao predatório, acabam servindo como mecanismo informal de exclusão de concorrentes no mercado editorial.
Em vez de fortalecer critérios transparentes de avaliação, parte desse movimento aposta em classificações unilaterais, pouco auditáveis e com forte poder de destruição de reputações, tanto de periódicos quanto de pesquisadores. A história da lista de Jeffrey Beall é hoje um caso emblemático dessa fronteira tênue entre denúncia necessária e caça às bruxas acadêmica.
O caso Jeffrey Beall: ascensão e queda de uma “referência”
Bibliotecário da Universidade do Colorado, Jeffrey Beall ganhou notoriedade por compilar, a partir de 2008, uma lista de “potenciais, possíveis ou prováveis” editoras e periódicos predatórios no modelo open access. A lista, conhecida como Beall’s List, rapidamente se converteu em referência para bibliotecários, avaliadores e pesquisadores na tentativa de distinguir revistas sérias de publicações oportunistas, acusadas de cobrar taxas sem oferecer revisão por pares adequada.
O problema é que o instrumento, criado como esforço individual, nunca esteve imune a críticas. Diversos estudos apontaram falhas metodológicas, falta de transparência nos critérios, potencial viés contra o modelo open access e risco de falsos positivos, atingindo periódicos que, apesar de jovens ou periféricos, mantinham práticas editoriais regulares. Em janeiro de 2017, após anos de controvérsia, a lista foi abruptamente retirada do ar; relatos indicam uma combinação de pressões institucionais e ameaças legais como fatores decisivos para sua descontinuação.
Criador da Beall’s List também enfrenta questionamento judicial nos Estados Unidos
Além das críticas acadêmicas e das inúmeras citações em estudos sobre publicações predatórias, o próprio criador da chamada “Beall’s List”, Jeffrey Beall, também já enfrentou questionamentos no campo jurídico. Um exemplo recente é o caso Everett J. Prescott Inc. v. Timothy J. Beall, julgado em 2025 pela Corte Distrital dos Estados Unidos para o Distrito do Maine.
Na ação, a empresa Everett J. Prescott Inc. alegou que Beall publicou em redes sociais declarações consideradas falsas e prejudiciais à reputação da companhia. Entre as afirmações atribuídas a ele estavam acusações de que a empresa recompensaria práticas racistas, empregaria predadores sexuais e estaria envolvida ou colaborando com atividades criminosas. No processo, essas alegações foram enquadradas como difamação per se e interferência indevida em relações comerciais.
Do ponto de vista processual, o tribunal registrou default, ou revelia, contra Beall, após ele não apresentar resposta à ação dentro do prazo legal estabelecido pela corte. No sistema jurídico dos Estados Unidos, essa situação implica uma derrota processual naquela fase do caso, permitindo que o tribunal avance para etapas posteriores, como a definição de responsabilidade ou eventual indenização, sem a apresentação de defesa formal do réu.
Embora a revelia não represente uma condenação após julgamento completo do mérito, o episódio evidencia que o debate em torno das listas de periódicos considerados predatórios também transbordou do campo acadêmico para disputas judiciais, envolvendo acusações de danos reputacionais e impactos comerciais.
Ainda hoje, é possível ver que alguns que lutam pela integridade não respeitam a lei.
Quando o combate ao predatório vira negócio
A experiência internacional mostra que listas negras tornaram-se também um produto comercial, disputado por empresas, consultorias e associações que oferecem a universidades e agências de fomento “filtros” para separar periódicos recomendados e não recomendados. Estudos recentes sugerem que o uso acrítico dessas listas influencia decisões de publicação, citações e avaliação de programas de pós-graduação, mesmo anos depois da desativação da Beall’s List.
Ao mesmo tempo, cresce a crítica de que tais instrumentos podem ser usados para fragilizar revistas que competem com grandes grupos editoriais ou que operam em modelos alternativos de acesso aberto. A linha que separa a legítima proteção da comunidade científica do controle comercial de concorrentes é cada vez mais fina, especialmente quando rótulos como “predatório” são aplicados a periódicos com ISSN, indexação em bases reconhecidas, conselho editorial identificado e revisão por pares cega conduzida por pareceristas com expertise acadêmica.
O cenário brasileiro: idealismo, listas e riscos jurídicos
No Brasil, o debate sobre revistas predatórias tem se intensificado nos últimos anos, impulsionado pelo aumento de estudos e iniciativas dedicadas a identificar periódicos considerados duvidosos no sistema de comunicação científica. Ainda assim, levantamentos disponíveis indicam que a proporção de artigos brasileiros publicados em revistas claramente problemáticas permanece relativamente baixa quando analisada no conjunto da produção acadêmica nacional.
Nesse contexto, um artigo publicado em um periódico não indexado e de circulação limitada ganhou certa visibilidade ao propor um “mapeamento de revistas predatórias”. O estudo apresenta natureza descritiva e exploratória e fundamenta suas análises principalmente em dados quantitativos obtidos por meio de um questionário aplicado a pesquisadores em âmbito nacional. Segundo os próprios autores, o objetivo da investigação foi identificar periódicos brasileiros que executariam práticas editoriais classificadas como predatórias a partir da percepção de pesquisadores e pesquisadoras do país.
A fundamentação do trabalho reconhece que, em periódicos científicos legítimos, o processo editorial segue um fluxo estruturado e composto por diversas etapas. Entre essas etapas encontram-se a submissão do manuscrito, a avaliação por pares, revisões editoriais, comunicação com os autores, eventuais adequações no texto, retorno ao corpo editorial, editoração técnica, indexação e posterior publicação. Em condições regulares, esse processo pode levar meses até ser concluído. No entanto, observadores críticos apontam que o próprio estudo foi publicado em um periódico sem ampla indexação ou reconhecimento consolidado no cenário científico internacional. Esse aspecto levanta questionamentos sobre a coerência entre os critérios de qualidade editorial discutidos no artigo e o ambiente editorial em que o estudo foi divulgado.
Outro ponto sensível refere-se à metodologia empregada. O levantamento não se baseia em auditorias editoriais individualizadas, nem em análises documentais detalhadas de cada periódico citado. Em vez disso, os resultados derivam essencialmente de percepções, relatos e denúncias coletadas por meio de questionários respondidos por pesquisadores. Na prática, o estudo apresenta um panorama construído a partir de experiências relatadas pelos participantes, e não de verificações independentes e sistemáticas sobre os processos editoriais das revistas mencionadas.
Além disso, o artigo dedica pouca atenção à discussão de limitações metodológicas relevantes. Questões como possível viés de seleção dos respondentes, ausência de auditorias editoriais sistemáticas e a existência de situações intermediárias no ecossistema editorial científico praticamente não são problematizadas. Sem essa contextualização crítica, o leitor pode interpretar que as revistas citadas compõem um conjunto homogêneo de más práticas comprovadas, quando na realidade o cenário editorial tende a ser mais complexo e heterogêneo.
Uma inconsistência adicional aparece em um ponto central da argumentação. Os próprios autores reconhecem que determinados indicadores, quando considerados isoladamente, não são suficientes para classificar um periódico como predatório. Ainda assim, a apresentação dos resultados acaba organizada justamente em torno desses mesmos indicadores, que passam a funcionar, na prática, como base implícita para a categorização sugerida.
Esse tipo de abordagem insere-se em um movimento mais amplo observado no país, no qual associações acadêmicas, grupos de pesquisa e comitês institucionais têm buscado identificar e expor periódicos considerados problemáticos. Para parte dos especialistas, entretanto, algumas dessas iniciativas podem ser impulsionadas mais por um ideal normativo do que por protocolos técnicos robustos de avaliação editorial.
Nesse cenário, críticos alertam para os riscos de abordagens que assumem caráter excessivamente midiático ou acusatório, realizado por grupos militantes. Quando a classificação de periódicos como predatórios ocorre sem metodologia transparente, sem possibilidade de contraditório ou sem direito de resposta, abre-se espaço para questionamentos jurídicos e eventuais acusações de difamação. Experiências internacionais já demonstraram que listas públicas de periódicos podem gerar disputas legais quando editoras contestam os critérios utilizados para sua inclusão.
No contexto brasileiro, a preocupação central é que classificações precipitadas ou baseadas exclusivamente em percepções possam atingir também periódicos que, embora não possuam alto fator de impacto ou ampla indexação internacional, mantêm processos editoriais minimamente estruturados, com revisão por pares, transparência sobre o corpo editorial e presença em bases de indexação regionais ou temáticas. Nesses casos, parte da comunidade científica teme que a rotulagem informal de revistas como predatórias acabe restringindo, de forma indireta, a diversidade do ecossistema editorial e afetando pesquisadores que atuam de boa-fé em diferentes realidades institucionais, principalmente quando são debatidos ou publicados por concorrentes.
A tentação do atalho e o empobrecimento do debate acadêmico
Especialistas defendem que identificar problemas em periódicos exige investigações cuidadosas, dados de longo prazo e equipes com formação avançada em avaliação científica, bibliometria e ética em pesquisa. Em contraste, proliferam iniciativas baseadas em análises rápidas, janelas temporais estreitas e estudos conduzidos por grupos pouco experientes, que, com base em amostras limitadas, pretendem concluir sobre a suposta “baixa estatura” de revistas inteiras.
O resultado é um ambiente favorável a juízos apressados, em que rótulos se sobrepõem a evidências e listas apócrifas passam a orientar decisões de carreira, financiamento e reputação. Ao reproduzir sem crítica o discurso que cercou a Beall’s List, hoje amplamente questionada e formalmente descontinuada, parte da comunidade corre o risco de repetir o mesmo erro: transformar um problema real, o das más práticas editoriais, em instrumento de exclusão competitiva e de polarização no debate científico.
Ética, transparência e devido processo
A discussão atual sinaliza que combater fraudes e práticas predatórias é indispensável, mas não basta recorrer a listas negras ou a campanhas de descredibilização pública. Cada vez mais, organizações internacionais recomendam substituir taxonomias acusatórias por classificações mais neutras, como “não recomendadas”, acompanhadas de justificativas detalhadas, critérios objetivos e mecanismos de contestação.
Para não repetir o desfecho do caso Beall, especialistas sugerem uma agenda clara: fortalecer a educação científica sobre critérios editoriais mínimos; apoiar indexadores sérios e transparentes; e garantir que qualquer processo de rotulagem de periódicos seja ético, revisável e juridicamente responsável. Num cenário em que reputações podem ser destruídas em poucos dias, a ciência brasileira e internacional tem pouco a ganhar com cruzadas pessoais e muito a perder se o combate ao predatório for capturado por interesses comerciais ou por pesquisas frágeis travestidas de autoridade.