setembro 10, 2026

Mercado jurídico busca profissionais prontos para a prática, não só o diploma

Anderson Silva, advogado e fundador da A2 Paralegal

A inteligência artificial transformou a rotina dos escritórios e departamentos jurídicos, automatizando pesquisas, análise documental e elaboração de minutas. Mas, paralelamente ao avanço tecnológico, uma deficiência estrutural continua sem solução: a formação de profissionais preparados para executar as atividades que mantêm empresas em funcionamento. Segundo o último Censo da Educação Superior, divulgado pelo Inep, o país ultrapassou 9 milhões de estudantes matriculados na graduação, mas empregadores de diferentes setores seguem apontando dificuldades para encontrar profissionais com experiência prática para atuar desde o primeiro dia de trabalho.

Para Anderson Silva, advogado, mestre em Direito Empresarial, professor e empreendedor, fundador da A2 Paralegal, especializada em operações jurídicas empresariais, essa distância entre universidade e mercado tornou-se um dos maiores desafios para a produtividade das organizações. “A inteligência artificial tende a reduzir o tempo gasto em tarefas operacionais repetitivas, mas ela não substitui profissionais que compreendem processos, sabem interpretar situações concretas e conseguem executar procedimentos com segurança. Em um mercado em que o acesso à informação foi praticamente democratizado, saber mais já não é suficiente. O diferencial está em transformar conhecimento em decisão, execução e resultado”, afirma.

A avaliação acompanha uma mudança no próprio perfil das empresas. Cada vez mais, departamentos jurídicos internos e escritórios especializados buscam profissionais capazes de atuar em operações societárias, abertura e regularização de empresas, registros em juntas comerciais, due diligence, compliance documental e organização de processos corporativos — atividades que exigem domínio técnico, conhecimento regulatório e capacidade de execução, competências que nem sempre são desenvolvidas ao longo da graduação.

Segundo Anderson, a universidade continua sendo essencial para a formação jurídica e desempenha papel fundamental na construção do pensamento crítico e da base teórica, embora enfrente desafios para acompanhar a evolução das demandas operacionais no ambiente empresarial. “O ensino superior forma excelentes profissionais do ponto de vista teórico. O problema é que muitas vezes o aluno conclui a graduação sem vivenciar como uma operação jurídica funciona na prática. […] Percebo que existe uma diferença enorme entre conhecer o Direito e saber fazer uma operação funcionar. E é justamente nessa distância que muitos profissionais perdem oportunidades e muitas empresas perdem produtividade”, explica.

O desafio deixou de ser informação e passou a ser aplicação

O avanço das tecnologias de automação também modificou as habilidades mais valorizadas pelas empresas. Se antes memorizar legislação ou dominar procedimentos burocráticos era suficiente para diferenciar um profissional, hoje cresce a demanda por pessoas capazes de resolver problemas, interpretar cenários, tomar decisões e integrar tecnologia à execução das atividades.

Relatórios internacionais sobre o futuro do trabalho, como o Future of Jobs Report do Fórum Econômico Mundial, apontam que competências como pensamento analítico, aprendizagem contínua, resolução de problemas complexos e adaptabilidade estarão entre as mais demandadas até o fim da década.

“As organizações deixaram de contratar apenas pelo diploma e passaram a valorizar quem consegue entregar resultado. Tecnologia pode acelerar uma tarefa, mas não substitui repertório, julgamento, responsabilidade e capacidade de execução. O profissional que entender isso não precisa competir com a inteligência artificial; precisa aprender a utilizá-la para ampliar a própria capacidade de entrega”, diz.

Mais do que esperar mudanças na formação universitária, Anderson defende que a solução passa por uma responsabilidade compartilhada entre instituições de ensino, empresas e os próprios profissionais. “A empresa não pode esperar que o profissional chegue completamente pronto, assim como a universidade não consegue reproduzir toda a dinâmica do ambiente corporativo. O caminho está em aproximar esses dois mundos […]. Quanto maior o negócio, maior a necessidade de criar pessoas capazes de assumir responsabilidades, tomar decisões e sustentar a operação sem depender o tempo todo do fundador ou de poucas lideranças”, afirma.

Formação prática amplia empregabilidade

Ao longo dos últimos 12 anos, atuando na estruturação de operações jurídicas empresariais, Anderson acompanhou a evolução do chamado mercado paralegal e identificou que a principal dificuldade de muitos profissionais não está na falta de conhecimento jurídico, mas na ausência de experiências que aproximem teoria e execução — percepção que o levou a criar o Desenvolvimento Para Todos (DPT), ecossistema educacional voltado à formação de profissionais e empreendedores com foco em metodologias baseadas em situações reais de mercado.

“O mercado não procura apenas pessoas que conheçam a legislação. Procura profissionais capazes de organizar operações, estruturar processos, atender clientes, utilizar ferramentas e compreender como uma empresa funciona. Conhecimento abre portas, mas é a capacidade de executar que constrói uma carreira”, conclui.

Sobre Anderson Silva

Advogado, mestre em Direito Empresarial, professor, empresário e empreendedor, é fundador da A2 Paralegal há mais de 12 anos, especializada em operações para o mercado jurídico. Também lidera o Desenvolvimento Para Todos (DPT), ecossistema educacional voltado à formação de profissionais e ao desenvolvimento de empreendedores.

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