Por Bruno Corano, economista da Corano Capital
As bolsas globais e os ativos brasileiros reagem de forma positiva ao resultado do primeiro turno porque o mercado interpretou a liderança de Flávio Bolsonaro como um aumento da probabilidade de mudança na condução da política econômica a partir de 2027. A percepção predominante é de que um eventual governo Flávio poderia buscar uma agenda mais favorável ao controle fiscal, à redução de incertezas, à previsibilidade regulatória e à melhora do ambiente de negócios.
Essa leitura reduz, pelo menos inicialmente, o prêmio de risco embutido nos ativos brasileiros. É por isso que vemos valorização de ações, queda esperada dos juros futuros, fortalecimento do real e uma reação particularmente forte em empresas que carregavam desconto político, como Petrobras e Banco do Brasil, além de setores domésticos mais sensíveis à taxa de juros, como bancos privados, construção civil, shoppings, varejo e empresas mais endividadas.
A reação, porém, não deve ser interpretada como a solução dos problemas estruturais do Brasil. Flávio venceu o primeiro turno, mas a vantagem foi apertada, de poucos milhões de votos, e o segundo turno continua sendo uma disputa competitiva. O mercado está precificando uma probabilidade maior de mudança, não uma certeza.
Além disso, ainda não há clareza suficiente sobre qual será a política econômica de um eventual governo Flávio. A expectativa é de uma condução melhor do que a atual, sobretudo em relação à responsabilidade fiscal, ao respeito às estatais e ao ambiente para o investimento privado. Mas será fundamental conhecer a equipe econômica, as prioridades de governo, a capacidade de articulação no Congresso e as medidas concretas que serão propostas.
O ponto central é que o Brasil continuará enfrentando os mesmos desafios fiscais. A maior parte do gasto público é obrigatória ou vinculada, o que limita muito a liberdade de ação de qualquer presidente. Portanto, uma mudança de governo não altera automaticamente a trajetória da dívida, o nível estrutural dos juros ou a qualidade do gasto público. O que pode mudar é a forma de enfrentar esses problemas, com maior disciplina, mais previsibilidade e disposição para fazer escolhas difíceis.
Do ponto de vista político, o resultado do Senado foi talvez a principal notícia da eleição. O aumento de senadores mais alinhados a uma visão de maior equilíbrio institucional e de limitação de excessos do Judiciário muda a correlação de forças em Brasília. Isso é relevante para o ambiente político e institucional, embora seus efeitos econômicos sejam indiretos e ocorram ao longo do tempo.
Para o segundo turno, Flávio parte de uma posição favorável. A tendência é que uma parcela importante dos votos de candidatos que ficaram fora da disputa migre para ele, especialmente os eleitores mais próximos de Romeu Zema e Ronaldo Caiado. Esses grupos têm afinidade maior com uma agenda de centro-direita, liberal na economia e crítica ao atual governo. Isso pode ampliar a vantagem inicial de Flávio.
Mas não é possível dar a eleição como resolvida. O número de abstenções foi muito elevado, com mais de 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas. Em uma corrida decidida por poucos milhões de votos, a mobilização desse eleitorado pode ser decisiva. Uma maior participação de eleitores mais alinhados a Flávio pode ampliar sua vantagem, mas uma mobilização favorável a Lula também pode inverter o resultado.
Minha leitura é que o mercado continuará reagindo positivamente enquanto enxergar aumento da probabilidade de uma mudança de rumo econômico. Mas o movimento deve ficar mais volátil nas próximas semanas, porque os preços podem oscilar de acordo com pesquisas, apoios políticos, debates e sinais sobre a composição de uma eventual equipe econômica.
Para o investidor, o momento pede equilíbrio. Há uma melhora clara de percepção sobre o Brasil, mas ainda existe risco eleitoral, fiscal e institucional. O caminho mais prudente é evitar euforia, manter diversificação e fazer alocações graduais, sem assumir que a eleição está decidida ou que a vitória de qualquer candidato, isoladamente, resolverá os desafios estruturais do país.
Bruno Corano, economista da Corano Capital