Estudo da gestora mostra que a alternância de poder, sozinha, não estabiliza a dívida pública, e que a alta dos juros nos EUA eleva o piso dos juros brasileiros em qualquer cenário eleitoral
Mesmo que o próximo governo recupere a credibilidade fiscal, a alta dos juros reais nos Estados Unidos deve limitar a queda dos juros no Brasil, e com ela o fôlego do rali eleitoral. É o que aponta relatório da Ghia Multi Family Office divulgado às vésperas do 2º turno. Segundo a gestora, uma vitória de Flávio Bolsonaro no domingo ainda abriria espaço para novos ganhos, a depender da velocidade com que o novo governo apresentar um plano fiscal concreto.
O peso do exterior já apareceu no pregão desta quinta-feira (22). O Ibovespa recuou 1,15%, pressionado tanto pelas pesquisas que mostram uma disputa acirrada quanto pela aversão ao risco global, com o petróleo em alta pela tensão entre EUA e Irã e queda forte das bolsas americanas.
Logo após o 1º turno, o otimismo levou o Ibovespa a subir 7,7%, aos 206 mil pontos, e o dólar a cair 4,55%, para R$ 4,98. As taxas dos títulos públicos de longo prazo recuaram mais de 1 ponto percentual. Nos Estados Unidos, por outro lado, os juros vêm subindo. Segundo a Ghia, eles são pressionados pela inflação no contexto da guerra no Oriente Médio e pela preocupação com a dívida pública americana. Com os juros reais em alta lá e em queda aqui, diminuiu a diferença entre o que pagam os títulos brasileiros e os americanos.
Para a gestora, os investidores estão mais atentos às contas públicas das economias centrais, o que também aumenta a cobrança sobre países emergentes. Na prática, mesmo no cenário mais favorável, em que o mercado volta a confiar na política fiscal brasileira, o piso para os juros domésticos fica mais alto. O motivo não é só interno: os títulos do Tesouro americano, considerados os ativos mais seguros do mundo, passaram a pagar mais.
A conta fiscal
O relatório mostra que a troca de governo, por si só, não resolve o problema da dívida. A dívida bruta passou de cerca de 71% para quase 82% do PIB, e o país gastou R$ 1,16 trilhão com juros da dívida em 12 meses até junho. A Ghia simulou a trajetória da dívida em três cenários para os próximos dez anos:
- Continuidade do atual governo: crescimento de 2% ao ano, juro real de 8% e resultado primário zero.
- Alternância de poder: crescimento de 2%, juro real de 6,5% e superávit primário de 0,5% do PIB.
- Otimista: crescimento de 3%, juro real de 6% e superávit subindo de 0,5% para 1,5% do PIB.
Só no cenário otimista a dívida fica abaixo de 100% do PIB ao fim de dez anos, e mesmo nesse caso ela não se estabiliza. Pelas contas da gestora, com crescimento de 2% e juro real de 8%, seria preciso um superávit primário de 4,8% do PIB para estabilizar a dívida. O país não registra um superávit acima de 4% desde 2002.
O que esperar do 2º turno
Para a Ghia, boa parte do otimismo com a alternância de poder já está nos preços, o que torna o 2º turno assimétrico. Uma vitória de Flávio Bolsonaro confirmaria o que o mercado já antecipou, e novos ganhos dependeriam da rapidez na apresentação de um plano fiscal. Uma vitória de Lula deve devolver parte relevante do prêmio de risco que se dissolveu após o 1º turno, e nesse caso o cenário externo passaria a pesar ainda mais sobre os ativos locais.
Em qualquer dos casos, a gestora avalia que a nova composição do Congresso limita um ajuste fiscal pelo lado da receita. O mais provável, segundo o relatório, é que o ajuste continue gradual. Para o investidor, os juros reais seguem em patamar historicamente elevado em todos os cenários, o que combina remuneração alta na renda fixa atrelada à inflação com potencial de valorização caso a agenda fiscal ganhe credibilidade.
Confira o relatório completo em: https://www.ghiafamilyoffice.com.br/conteudos/eleicoes-2026-juros-divida-publica-plano-fiscal-report-tematico/