outubro 5, 2026

Novas regras para criptoativos ampliam combate à lavagem de dinheiro, avalia especialista

Adônis Brozoza

Adônis Brozoza pesquisa a relação entre criptomoedas e crimes financeiros desde 2019 e destaca avanços e desafios trazidos pelas novas exigências do Banco Central

As novas regras brasileiras para operações com criptoativos ampliam os instrumentos disponíveis para a prevenção à lavagem de dinheiro, mas também trazem desafios para instituições financeiras, empresas do setor e autoridades. A avaliação é do advogado brasileiro Adônis Martimbianco Brozoza, especialista em prevenção a crimes financeiros e pesquisador da relação entre criptomoedas e lavagem de dinheiro desde 2019.

Com a entrada em vigor das novas regras do Banco Central, determinadas operações envolvendo carteiras autocustodiadas passam a ter exigências adicionais de monitoramento e comunicação. Nesse tipo de carteira, o próprio usuário mantém as chaves de acesso aos ativos, sem a custódia de uma corretora ou de outra instituição. Para Brozoza, a mudança alcança uma das áreas mais sensíveis do controle das transações com criptoativos: a identificação de quem efetivamente controla os recursos movimentados.

“Uma das maiores dificuldades sempre foi conectar um endereço digital a uma pessoa ou empresa. A blockchain pode mostrar o caminho do dinheiro, mas nem sempre revela quem está por trás daquela carteira. Quando a regulação passa a exigir mais informações sobre essas operações, reduz uma zona de pouca visibilidade que vinha sendo explorada por quem tenta ocultar a origem ou o destino dos recursos”, afirma Brozoza.

O advogado ressalta que o avanço regulatório acompanha uma transformação mais ampla desse mercado. As stablecoins, moedas digitais geralmente vinculadas a ativos como o dólar, ganharam espaço nas transações e passaram a exigir maior atenção de autoridades e instituições responsáveis pelos mecanismos de prevenção a crimes financeiros.

Segundo Brozoza, a discussão deixou de estar concentrada apenas no Bitcoin.

“Quando comecei a pesquisar lavagem de dinheiro com criptoativos, em 2019, grande parte do debate girava em torno do Bitcoin e até de como classificar juridicamente aquele ativo. Hoje, o cenário é muito mais complexo. Temos stablecoins, diferentes redes, carteiras autocustodiadas e transações internacionais realizadas em segundos. Os mecanismos de prevenção precisam acompanhar essa evolução”, explica.

A mudança ocorre em um mercado em expansão. Segundo a Receita Federal, os brasileiros declararam R$ 505,5 bilhões em operações com criptoativos em 2025, alta de 21,5% em relação a 2024. Cerca de 71% desse volume envolveu stablecoins, enquanto aproximadamente R$ 105 bilhões passaram por carteiras autocustodiadas, modalidade que ganha maior atenção dos mecanismos de controle e prevenção à lavagem de dinheiro.

Adônis Brozoza

O advogado gaúcho Adônis Brozoza é membro do time de integridade do Grupo Banco Mundial em Washington D.C. e acumula larga experiência no segmento de compliance e prevenção à lavagem de dinheiro. Atuou como advogado de defesa na Operação Lava Jato e, posteriormente, no banco Morgan Stanley, onde operou na defesa da instituição. Adônis é mestre em direito pela Universidade de Columbia e habilitado para advogar no Brasil e em Nova York.

Redação: Marcelo Matusiak

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