O Dia dos Pais costuma trazer lembranças, encontros em família e homenagens àqueles que construíram histórias ao longo da vida. Para muitos empresários, no entanto, a data também desperta uma reflexão mais profunda: o que será deixado além do patrimônio, e principalmente, quem dará continuidade ao negócio construído ao longo de décadas. Ainda assim, a conversa sobre sucessão empresarial segue sendo adiada na maioria das famílias empresárias.
A preocupação ganha relevância em um país onde as empresas familiares representam cerca de 90% dos negócios, segundo levantamento do Sebrae e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar disso, apenas 24% dessas organizações possuem um plano de sucessão estruturado e documentado, de acordo com a Pesquisa Global de Empresas Familiares da PwC. O resultado é que patrimônios construídos ao longo de décadas podem enfrentar conflitos familiares, insegurança jurídica, dificuldades tributárias e até comprometer a continuidade do negócio.
Na Tributo Certo, essa discussão não faz parte apenas do discurso técnico — ela acontece diariamente na prática. Márcio Lopes, empresário, fundador e CEO da Tributo Certo, empresa brasileira especializada em inteligência tributária, contabilidade estratégica e recuperação de créditos fiscais, trabalha ao lado da filha, Julia Lopes, especialista em planejamento patrimonial e sucessório e responsável pela frente Legacy da empresa. Para eles, preparar a próxima geração é um processo que precisa começar muito antes da transferência formal da empresa.
“Existe uma ideia de que basta deixar a empresa para os filhos em um testamento ou contrato social. Na prática, isso não garante a continuidade do negócio. Quando o fundador evita discutir sucessão, ele acaba transferindo para a família decisões estratégicas que deveriam ter sido tomadas ainda em vida. O patrimônio permanece, mas a empresa pode perder valor justamente no momento em que mais precisa de estabilidade”, afirma Márcio.
Herança não garante continuidade
O planejamento sucessório vai muito além da divisão do patrimônio. Ele envolve a definição da governança, da estrutura societária, das responsabilidades de cada herdeiro e da forma como a empresa continuará sendo administrada.
Segundo Márcio, muitos empresários passam décadas dedicados ao crescimento da empresa, mas evitam tratar da própria sucessão por receio de perder protagonismo ou por acreditarem que ainda haverá tempo para discutir o assunto. “Planejar a sucessão não significa abrir mão da empresa. Significa construir um processo organizado para que a transição aconteça de forma segura. Quanto mais essa conversa é adiada, menores costumam ser as alternativas e maiores os riscos para a família e para o negócio”, destaca.
Para Julia, participar da construção desse processo dentro da própria empresa mostrou que sucessão não acontece de forma automática entre uma geração e outra. “A sucessão começa muito antes da transferência societária. Ela acontece quando existe troca de conhecimento, desenvolvimento da próxima geração e definição clara de responsabilidades. Sem esse preparo, os herdeiros podem receber um patrimônio importante, mas também uma série de conflitos e decisões complexas para administrar”, ressalta.
Na prática, os especialistas recomendam iniciar o diálogo familiar sobre o futuro da empresa, estabelecer critérios claros para a participação dos herdeiros na gestão, criar regras de governança, organizar a estrutura societária, avaliar antecipadamente os impactos tributários da sucessão e preparar gradualmente a próxima geração para assumir funções estratégicas.
Planejamento também reduz riscos tributários
Julia explica que o planejamento permite avaliar, com antecedência, a estrutura mais adequada para cada família e cada empresa, reduzindo riscos jurídicos, financeiros e fiscais. “O objetivo não é apenas organizar a sucessão, mas preservar o patrimônio para as próximas gerações”, afirma.
A preocupação também está alinhada aos desafios apontados pela 29ª CEO Survey da PwC, que mostra que líderes de empresas familiares dedicam 56% do tempo às demandas de curto prazo, enquanto apenas 11% conseguem direcionar atenção para temas estratégicos de longo prazo, como sucessão, governança e preservação do negócio.
Para Márcio, um dos maiores equívocos é acreditar que legado se resume ao patrimônio acumulado. “Os filhos podem herdar imóveis, participação societária e recursos financeiros. Mas, se não houver planejamento, também podem herdar conflitos familiares, insegurança jurídica e dificuldades para manter a empresa saudável. O verdadeiro legado é deixar uma organização preparada para continuar crescendo”, afirma.
Julia concorda e destaca que viver esse processo ao lado do pai reforçou a importância de iniciar a sucessão enquanto o fundador ainda participa ativamente da empresa. “Sucessão não significa substituir alguém. Significa preservar valores, conhecimento e a história construída ao longo dos anos para que a empresa continue evoluindo pelas próximas gerações”, conclui.