fevereiro 9, 2026

O novo eixo da economia global: entre tensões geopolíticas, crises comercial e a necessidade de cooperação estratégica

Vivemos um momento singular na economia global — uma encruzilhada em que decisões políticas, conflitos geopolíticos e disputas comerciais reconfiguram não apenas as rotas do comércio internacional, mas também as perspectivas de crescimento, emprego e estabilidade econômica em todas as regiões do mundo.

Vejo o atual cenário econômico como uma prova de que aspirações hegemônicas — sejam militares ou comerciais — não coexistem facilmente com um sistema global interdependente e resiliente.

Conflitos e seus impactos econômicos

O efeito da guerra entre Rússia e Ucrânia continua sendo um ponto crucial para entender o comportamento dos mercados globais. Instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e grandes centros de pesquisa econômica destacam que conflitos prolongados reduzem a confiança empresarial, elevam a incerteza e geram pressões inflacionárias em mercados que já enfrentam desafios pós-pandemia e desequilíbrios financeiros persistentes.

Estudos acadêmicos reforçam que a volatilidade nos mercados de câmbio e nos preços de commodities — especialmente energia e alimentos — está diretamente ligada à intensificação de conflitos e à dependência global de cadeias de suprimentos que ainda não se economizaram de choques externos.

Esses eventos não afetam apenas os países diretamente envolvidos, mas reverberam em toda a economia global, porque a conectividade entre mercados financeiramente avançados e economias emergentes tornou-se estreita demais para ignorar.

A guerra comercial entre Estados Unidos e China

Outra frente essencial de análise é a guerra comercial em curso entre os Estados Unidos e a China — uma disputa que vai muito além de tarifas e números: é uma luta pela hegemonia tecnológica, industrial e estratégica do século XXI.

Especialistas apontam que essa disputa aumentou o risco de estagflação global — um cenário em que o crescimento econômico desacelera, mesmo diante de inflação persistente — justamente porque as medidas protecionistas e retaliações tarifárias interrompem cadeias de valor que o mundo levou décadas para construir.

Em termos práticos, isso significa que empresas de tecnologia, manufatura, agroindústrias e serviços enfrentam custos mais elevados e menores previsões de crescimento, impactando a confiança de investidores e consumidores. As consequências se estendem a países de renda média e emergentes, que muitas vezes dependem dessas cadeias para exportar produtos e atrair investimentos.

Reconfiguração das cadeias globais de suprimentos

Em meio a essas tensões, há transformações estruturais em curso nas cadeias de suprimentos globais. Pesquisas recentes mostram que os fluxos comerciais entre grandes potências e economias emergentes estão sendo reconfigurados — com países buscando parceiros alternativos ou reforçando blocos regionais para reduzir a exposição a riscos externos.

Isso não significa o colapso do comércio internacional, mas sim a sua evolução para um modelo menos dependente de um único centro hegemônico. As estratégias “China+1”, intensificação das alianças do ASEAN, e a diversificação logística apontam para um desenho multipolar e menos vulnerável a choques específicos.

Os EUA: entre liderança e desafios internos

Mesmo com toda a sua capacidade econômica e tecnológica, os Estados Unidos enfrentam um paradoxo. A sua tradição de liderar a economia global por meio de influência financeira e política ocorre ao mesmo tempo que forças internas — como dívida pública elevada, tensões sociais e desafios na competitividade industrial — questionam sua hegemonia absoluta.

Esse contexto torna ainda mais relevante o papel de outras potências — como a União Europeia e a China — e também de blocos emergentes, como os BRICS, na criação de um equilíbrio mais amplo de poder econômico global.

A necessidade de cooperação inteligente

Diante deste complexo cenário, minha convicção como economista e gestor é clara: a globalização 3.0 exigirá equilíbrio entre soberania econômica e cooperação multilateral estratégica.

Não se trata de um retorno à dependência automática dos mercados internacionais sob um único dominador, mas sim de uma governança global econômica que permita:

  • Estabilidade de cadeias de suprimentos;
  • Redução de assimetrias de informação;
  • Mitigação responsável de riscos geopolíticos;
  • Incentivos para inovação e sustentabilidade.

Uma economia verdadeiramente global, ao mesmo tempo em que respeita a soberania de cada Estado, precisa reconhecer que a prosperidade compartilhada só é possível por meio da confiança, previsibilidade e do diálogo entre grandes e pequenos atores econômicos.

O mundo está redefinindo seus pilares econômicos. Guerras, sanções, disputas comerciais e novas alianças são sintomas — e não causas — de um processo profundo de rearranjo do poder econômico global. É nesse cenário que precisamos pensar políticas públicas, estratégias empresariais e alianças internacionais mais robustas, inteligentes e humanas.

A economia global não vai parar diante dos conflitos, mas vai amadurecer diante deles — desde que líderes, gestores e instituições estejam dispostos a aprender, adaptar e colaborar para um futuro sustentável para todos.

Fabrício Ribeiro
Administrador e Economista, especialista em Relações Internacionais.

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