Brasil registra milhões de novos negócios, mas dificuldades de organização e fidelização colocam a sobrevivência das operações no centro do planejamento para 2027
O brasileiro demonstra disposição para empreender, mas transformar uma ideia em um negócio duradouro continua sendo um desafio. Entre janeiro e agosto de 2026, o país registrou a abertura de 3,93 milhões de pequenos negócios, segundo o Sebrae.
O crescimento, porém, convive com dificuldades de gestão, limitações financeiras e falhas operacionais que podem comprometer a permanência das empresas. Com a aproximação de 2027, a atenção dos empresários começa a se voltar não apenas para novas vendas, mas também para a capacidade de manter os clientes já conquistados.
Bethel Lombardi, especialista em experiência do cliente, mentor, empresário e fundador da Encantar Mentory, empresa voltada à fidelização, jornada do consumidor e crescimento de receita, afirma que parte dos problemas enfrentados pelos pequenos negócios começa dentro da própria operação. Segundo ele, muitos empreendedores concentram esforços na conquista de compradores, mas deixam de acompanhar falhas que comprometem o relacionamento e geram perdas comerciais.
“O brasileiro tem iniciativa para empreender e encontra maneiras de colocar suas ideias em prática. O desafio é transformar essa capacidade em uma empresa organizada, que consiga crescer sem depender exclusivamente do esforço do dono. Muitas vezes, o empresário acredita que está perdendo clientes para o preço ou para a concorrência, quando o problema está nos próprios processos, em orçamentos esquecidos, promessas não cumpridas e falta de acompanhamento”, explica Lombardi.
A preocupação com a continuidade dos negócios encontra respaldo em outro levantamento do Sebrae, divulgado em setembro de 2026. O estudo identificou que 55% das empresas que não receberam consultoria da instituição permaneciam ativas após cinco anos, enquanto entre as atendidas esse percentual chegou a 77%.
Abrir uma empresa é diferente de mantê-la funcionando
Além dos desafios internos, os pequenos empresários precisam lidar com fatores externos, como carga tributária, custos operacionais, acesso ao crédito e mudanças regulatórias. No entanto, Lombardi avalia que atribuir as dificuldades exclusivamente à economia ou às decisões do governo pode impedir o empreendedor de identificar problemas sobre os quais possui maior controle.
“O empresário não controla os juros, os impostos ou as mudanças nas regras do país. Mas pode controlar como sua equipe atende, como os pedidos são registrados e como os clientes são acompanhados. Quando a empresa não organiza aquilo que depende dela, fica ainda mais vulnerável aos fatores externos. A gestão precisa funcionar mesmo quando as condições econômicas não são favoráveis”, afirma.
Na prática, a desorganização aparece em situações comuns. Um orçamento enviado sem acompanhamento, um prazo negociado que não chega à equipe responsável ou uma reclamação esquecida podem fazer o consumidor desistir de comprar novamente.
O custo das vendas que a empresa não percebe que perdeu
O empresário consegue acompanhar as vendas realizadas, mas nem sempre sabe quantos orçamentos ficaram sem resposta ou quantos consumidores deixaram de retornar após uma experiência negativa.
“O cliente nem sempre avisa que está indo embora. Muitas vezes, ele simplesmente não responde mais, deixa de renovar uma contratação ou procura outro fornecedor. Quando o empresário olha apenas para o faturamento, não percebe quantas oportunidades está desperdiçando”, ressalta.
A dependência excessiva do proprietário também compromete a produtividade. Quando decisões sobre pagamentos, entregas, reclamações e negociações precisam passar pelo dono, o atendimento fica mais lento e a equipe perde autonomia.
O que precisa mudar no planejamento para 2027
Para Lombardi, o último trimestre de 2026 representa uma oportunidade para revisar a operação antes de estabelecer metas para o próximo ano. A recomendação é começar por três processos: acompanhamento das oportunidades comerciais, registro dos compromissos assumidos e relacionamento após a venda.
“Antes de definir quanto pretende vender em 2027, o empresário precisa entender o que acontece com os clientes que já chegam até ele. Quem acompanha os orçamentos? Como a equipe sabe o que foi prometido? Quem verifica se o consumidor ficou satisfeito? Se essas respostas não estão claras, aumentar a meta comercial pode significar apenas aumentar a quantidade de problemas”, explica Lombardi.
Essas melhorias não exigem necessariamente investimentos elevados. Planilhas compartilhadas, cadastros organizados e responsabilidades definidas podem ajudar empresas de diferentes portes a reduzir falhas e acompanhar o desempenho da operação.
“O empreendedor brasileiro sabe começar, mas também precisa aprender a estruturar o negócio para continuar crescendo. Isso significa organizar pessoas, processos e responsabilidades, sem deixar toda a operação nas mãos do proprietário”, conclui Bethel Lombardi.
Sobre Bethel Lombardi: especialista em experiência do cliente (CX), mentor e empresário com mais de 24 anos de atuação, bacharel em Ciências Contábeis, criador do método EPL (Encantar Para Lucrar) e fundador da Encantar Mentory.