Nova lógica de cobrança pode alterar fornecedores, centros de distribuição, preços, margens e planos de expansão
A Reforma Tributária começa a alterar decisões que vão além do cálculo de impostos nas empresas brasileiras. Em 2026, primeiro ano de implementação da CBS e do IBS, companhias passaram a testar se fornecedores, fábricas, centros de distribuição e estruturas definidas sob a antiga lógica tributária continuarão economicamente justificáveis. Pesquisa Tax do Amanhã 2026, da Deloitte, mostra que 89% das 148 organizações consultadas já fizeram estudos aprofundados sobre os efeitos da mudança.
Para Rica Mello, economista, empresário e executivo com trajetória em consultoria estratégica, gestão e desenvolvimento de negócios, a Reforma Tributária precisa entrar na agenda da direção. Antes de empreender, Mello atuou por cerca de dez anos na McKinsey & Company e na Bain & Company. “A discussão mais importante para o empresário não é apenas quanto ele vai pagar de imposto. É perguntar se a cadeia de negócios que construiu continua sendo a mais eficiente”, afirma.
Entre as empresas pesquisadas pela Deloitte que recebem incentivos fiscais e avaliaram os impactos das novas regras, 57% consideram rever a localização geográfica ou fazer ajustes na cadeia de suprimentos. Outros 27% não planejam mudar de endereço, mas avaliam alterações nessa estrutura.
Reforma Tributária coloca a cadeia de negócios em revisão
Durante décadas, benefícios tributários ajudaram a definir onde empresas instalavam fábricas, centros de distribuição e estoques e também influenciaram a escolha de fornecedores. Com a tributação no destino, essa lógica perde peso e aumenta a importância de fatores como custo de transporte, prazo de entrega, nível de serviço e proximidade do consumidor.
Análise da KPMG aponta que decisões sobre plantas, estoques, rotas e fornecedores tendem a considerar mais esses critérios. Estruturas montadas principalmente para aproveitar incentivos também podem perder justificativa econômica durante a transição.
Isso não significa, segundo Mello, que empresas devam fechar unidades ou trocar parceiros imediatamente. O primeiro movimento é testar novamente as premissas. “Uma decisão tomada há dez ou quinze anos pode ter sido correta para as condições daquele momento. O erro seria presumir que ela continuará correta depois de uma mudança nas premissas”, aponta.
A revisão também alcança a cadeia de fornecedores. Empresas escolhidas pela combinação entre preço, localização e vantagem tributária podem deixar de representar a opção mais competitiva. O mesmo vale para centros de distribuição posicionados a partir de benefícios fiscais que terão menor peso nos próximos anos.
Preço, caixa e contratos também entram na conta
Os impactos alcançam margens e formação de preços. Segundo a Deloitte, 51% das empresas que já estudaram os efeitos da reforma esperam aumento da carga tributária, enquanto 19% estimam efeito neutro e 16% projetam redução.
Para Rica, a resposta não deve ser simplesmente repassar uma eventual diferença ao consumidor. “Antes de decidir quanto cobrar, a empresa precisa entender o efeito sobre fornecedores, logística, créditos, margem, concorrência e demanda. Formação de preço é uma decisão de negócio”, ressalta.
O capital de giro também exige atenção. A KPMG alerta que mudanças na dinâmica de créditos podem alterar os fluxos financeiros e a necessidade de caixa de determinadas operações. Esse efeito, segundo Mello, precisa entrar nas projeções financeiras antes que apareça no resultado.
Contratos de longo prazo também merecem revisão. A nova composição de custos pode alterar condições negociadas com fornecedores e clientes, principalmente em acordos firmados para vigorar durante vários anos da transição.
Expansão precisa olhar para as regras do futuro
O calendário da Receita Federal reforça a necessidade de planejamento. Desde 1º de janeiro de 2026, documentos fiscais passaram a incorporar informações sobre CBS e IBS. Em 2027, PIS e Cofins serão extintos, enquanto a substituição gradual de ICMS e ISS pelo IBS ocorrerá entre 2029 e 2032, até a vigência integral do novo modelo em 2033.
Para empresas que planejam novas unidades, aquisições, centros de distribuição ou investimentos de longo prazo, isso significa calcular a viabilidade com base no sistema que estará vigente durante a vida econômica do projeto, e não apenas nas regras atuais.
Rica defende que 2026 seja usado para trabalhar com diferentes cenários. Uma empresa pode comparar fornecedores, localização de estoques, custos logísticos, margens e necessidade de caixa antes de executar uma decisão difícil de reverter.
“Planejamento estratégico não significa saber exatamente o que vai acontecer. Significa testar possibilidades antes que o problema apareça no resultado. A Reforma Tributária dá às empresas a oportunidade de simular diferentes caminhos antes de comprometer capital”, afirma.
Essa revisão também exige maior integração entre áreas. Fiscal e contabilidade precisam compartilhar informações com financeiro, comercial, compras, logística e direção para que uma decisão tomada por um departamento não produza ineficiência em outro.
Para o empresário, esse é o ponto em que a Reforma Tributária deixa definitivamente de ser apenas uma questão fiscal. “Uma empresa pode cumprir todas as novas obrigações e, ainda assim, continuar operando com uma cadeia desenhada para uma lógica que está desaparecendo. O desafio da gestão é descobrir o que ainda faz sentido e o que precisa ser revisto”, conclui Rica Mello.
Sobre Rica Mello
Rica Mello é economista, empresário e executivo com trajetória em consultoria estratégica, gestão e desenvolvimento de negócios. Antes de empreender, atuou por cerca de dez anos na McKinsey & Company e na Bain & Company. É formado em Economia pela Universidade de São Paulo (USP), possui MBA pela Kellogg School of Management, da Northwestern University, e participou do Executive Program da Singularity University, em 2019.
Fontes de pesquisa: Deloitte Brasil, KPMG Brasil e Receita Federal do Brasil.