Com a transição tributária em andamento, companhias precisam rever estratégia fiscal, precificação e estrutura financeira para evitar perda de competitividade
A reforma tributária deixou de ser um debate teórico e entrou definitivamente na rotina das empresas brasileiras. Com a regulamentação avançando e a aproximação da fase operacional do novo sistema, o tema passou a exigir mudanças concretas em processos internos, sistemas fiscais, contratos e planejamento financeiro.
Segundo Altair Heitor, contador, psicólogo, especialista em gestão tributária para o agronegócio e CFO da Palin & Martins, consultoria especializada em recuperação de créditos tributários e reestruturação fiscal, a adaptação precisa começar agora. “A reforma não é só mudança de imposto, é mudança de estratégia. Quem não se adaptar rápido perde competitividade”, afirma.
A regulamentação do novo modelo tributário estabeleceu uma transição que exigirá a convivência entre sistemas antigos e novos, com impactos operacionais relevantes já a partir deste ciclo de adaptação. Embora a implementação completa siga até 2033, o momento atual marca o início das adequações práticas, exigindo revisão antecipada de rotinas fiscais, parametrizações tecnológicas e fluxos operacionais.
Reforma tributária exige revisão além do departamento fiscal
Na avaliação de Altair, um dos erros mais comuns entre empresários é tratar a reforma tributária como um tema restrito à contabilidade ou ao jurídico tributário, quando, na prática, os impactos atravessam toda a operação.
“A empresa que olhar apenas para cálculo de imposto vai errar o diagnóstico. A reforma tributária afeta precificação, negociação com fornecedores, contratos comerciais, tecnologia, fluxo de caixa e até decisões de expansão. É uma reorganização operacional completa”, explica.
Na prática, a substituição gradual de tributos como PIS, Cofins, ICMS, ISS e parte do IPI por CBS, IBS e Imposto Seletivo muda a lógica de crédito tributário, apuração e conformidade fiscal. O novo sistema exigirá integração entre áreas que historicamente operavam de forma isolada, especialmente financeiro, fiscal, comercial, tecnologia e suprimentos.
Fluxo de caixa e competitividade entram na conta
Além da adequação regulatória, a transição também pressiona o caixa das empresas. Mudanças no aproveitamento de créditos tributários, ajustes em precificação e revisões contratuais podem afetar diretamente margem operacional e previsibilidade financeira.
Segundo Altair, o impacto tende a ser silencioso para empresas que não se anteciparem. “Erro de parametrização fiscal, classificação incorreta de operações ou falhas documentais podem gerar distorções relevantes. O empresário pode acreditar que está em conformidade, mas carregar passivos ocultos ou perder oportunidades legítimas de crédito tributário.”
O especialista afirma que empresas com maior organização fiscal e governança operacional tendem a atravessar a transição com vantagem competitiva. “Quem tiver estrutura, inteligência tributária e integração entre áreas vai reagir melhor. Aqueles que deixarem para a última hora provavelmente farão ajustes sob pressão, com custo maior e risco operacional elevado.”
A transição já começou
Para o contador, a principal mudança exigida neste momento é de postura empresarial. A reforma tributária deixou de ser apenas pauta legislativa e passou a integrar a agenda estratégica da gestão.
“O período de transição existe justamente para permitir ajustes estruturados. Ignorar esse momento significa abrir espaço para perda de eficiência, aumento de risco e redução de competitividade”, conclui.
Fonte: Altair Heitor, CFO da Palin & Martins