outubro 31, 2026

Saída recorde de milionários do Brasil reforça Miami como centro do capital latino, mas a próxima onda de valorização está fora da cidade, aponta especialista

Para Cristiano Maschio, CEO da DCEX, o mercado de luxo do sul da Flórida já está precificado; Flórida Central, interior do Texas, Carolina do Norte e Georgia concentram o potencial de valorização entre 2030 e 2040.

A mudança de Jeff Bezos de Seattle para o sul da Flórida recolocou Miami no centro do debate sobre para onde vão as grandes fortunas. O fundador da Amazon, dono da segunda maior fortuna do mundo, estimada em US$ 365 bilhões, afirma ter se mudado para ficar perto dos pais. O contexto, porém, chama atenção: a Flórida não cobra imposto de renda estadual, enquanto o estado de Washington aprovou em março um adicional de 9,9% sobre rendas acima de US$ 1 milhão, que passa a valer em 2028.

Para Cristiano Maschio, CEO da DCEX e especialista em Patrimônio Global, Mercados Privados e Diversificação Internacional, praia, clima e voos diretos ajudam a explicar a atração, mas não são o fator decisivo. “O que Miami oferece, antes de tudo, é previsibilidade, e é justamente isso que falta em boa parte da América Latina”, afirma.

Um movimento latino-americano

Segundo o executivo, a busca das famílias da região por estabilidade não é nova. Na Argentina, décadas de inflação e controle cambial levaram mais de US$ 300 bilhões para fora do sistema financeiro local. Na Venezuela, a classe média e alta deixou o país após o colapso institucional. No México, a insegurança empurrou famílias empresariais para o Texas e a Flórida. “Em todos esses casos, o que se procura é um lugar onde contrato, propriedade e moeda não mudem de valor da noite para o dia”, diz Maschio.

Miami transformou essa demanda em um ecossistema, com bancos internacionais, multi-family offices e gestoras instalados na cidade para atender clientes de toda a região. Entre 2014 e 2024, o fluxo de riqueza vindo de México, Argentina, Chile e Peru para o private banking local cresceu cerca de 10% ao ano.

Brasil lidera a saída de milionários na América Latina

Nos últimos anos, o Brasil entrou de vez nesse movimento. Estimativas da Henley & Partners indicam que o país perdeu cerca de 1.200 milionários em 2025, contra 800 no ano anterior, a maior saída da América Latina e a sexta maior do mundo. A consultoria projeta números semelhantes para 2026, e, na avaliação de Maschio, a nova tributação de lucros e dividendos acima de R$ 50 mil por mês, em vigor desde janeiro, tende a manter essa pressão.

O perfil de quem deixa o país também mudou. “Se antes a diáspora brasileira buscava trabalho, hoje quem sai quer preservar capital, ter segurança jurídica e qualidade de vida”, explica o especialista. O destino preferido são os Estados Unidos, com destaque para a Flórida.

Parte relevante desse dinheiro vai para o mercado imobiliário. A região de Miami, Fort Lauderdale e West Palm Beach concentra 69,6% dos brasileiros que vivem na Flórida e respondeu, sozinha, por 8,7% de todo o interesse de compradores estrangeiros de imóveis nos Estados Unidos no primeiro trimestre de 2025. Os imóveis premium da cidade se valorizaram 67% em cinco anos. Em Key Biscayne, um dos endereços mais disputados, a renda familiar mediana chega a US$ 181.505, e quase seis em cada dez moradores nasceram fora do país.

O refúgio já está precificado

É nesse ponto que Maschio faz um alerta. Segundo ele, os mercados de luxo de Miami e Key Biscayne estão maduros, e quem compra hoje paga pelo valor construído nas últimas duas décadas. “Nas minhas projeções para 2030 a 2040, o sul da Flórida aparece com crescimento moderado. A próxima fronteira de valorização está nos mercados de entrada e de classe média, como a Flórida Central, o interior do Texas, a Carolina do Norte e a Georgia”, avalia.

Isso não tira de Miami o papel de centro financeiro do capital latino nos Estados Unidos, onde se abrem contas, se estruturam holdings e se planeja a sucessão. “Mas morar, investir e proteger patrimônio são decisões diferentes, e não precisam acontecer no mesmo CEP”, pondera.

Por isso, a recomendação do especialista é que, antes de escolher o endereço, a família defina qual papel cada ativo vai cumprir: moradia, renda, proteção cambial ou sucessão. “O endereço importa, mas a estratégia importa mais”, conclui.

Sobre Cristiano Maschio
Cristiano Maschio é CEO da DCEX e especialista em Patrimônio Global, Mercados Privados e Diversificação Internacional, com formação em Global Business Strategy (Wharton), Private Markets Investments (Oxford) e Blockchain & Crypto Applications (MIT). Atua com famílias latino-americanas na estruturação de patrimônio internacional e diversificação em mercados privados nos Estados Unidos.

Mais resultados...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors