Bruna Tomazetti
RESUMO
A saúde mental deixou de ser uma pauta restrita aos serviços de saúde e passou a constituir um dos grandes desafios contemporâneos para empresas, instituições, governos, famílias e sociedade. O crescimento dos transtornos mentais, o impacto do sofrimento psíquico sobre a vida profissional, os efeitos da violência e dos traumas, os desafios da infância e adolescência e as barreiras de acesso aos cuidados demonstram que respostas fragmentadas já não são suficientes. Este artigo apresenta a fundamentação do Simpósio Nacional Saúde Mental em Alerta – Da Crise à Ação, concebido como espaço de integração entre diferentes setores e áreas do conhecimento. Propõe cinco eixos temáticos: prevenção e crise; infância e adolescência; saúde mental e trabalho; políticas públicas e acesso; violência, trauma e proteção. O projeto prevê ainda a construção coletiva da Carta de Goiânia pela Saúde Mental, organizada em uma obra com participação dos integrantes do simpósio como coautores, reunindo problemas, propostas e responsabilidades. Defende-se uma abordagem transversal, capaz de transformar conhecimento em articulação, prevenção e ação.
Palavras-chave: saúde mental; gestão; trabalho; políticas públicas; prevenção; trauma; liderança; desenvolvimento humano.
1 INTRODUÇÃO
Durante décadas, a saúde mental foi tratada, em grande medida, como uma questão individual ou exclusivamente clínica. Essa perspectiva tornou-se insuficiente diante da complexidade dos fatores que interferem no bem-estar psicológico da população.
A Organização Mundial da Saúde estima que uma em cada oito pessoas no mundo vivia com algum transtorno mental em 2019, evidenciando a dimensão global do fenômeno (WHO, 2022). No Brasil, dados da Pesquisa Nacional de Saúde também demonstram a relevância dos transtornos mentais na população adulta, reforçando que o tema precisa ser observado para além dos consultórios e serviços especializados (IBGE, 2020).
No universo corporativo, a discussão assume dimensão estratégica. A Organização Mundial da Saúde e a Organização Internacional do Trabalho destacam que ambientes de trabalho seguros e saudáveis contribuem para a proteção da saúde mental, enquanto condições inadequadas podem ampliar riscos psicossociais e sofrimento relacionado ao trabalho (WHO; ILO, 2022).
Nesse cenário, uma pergunta torna-se inevitável: se a saúde mental atravessa todas as dimensões da vida, por que sua discussão ainda é frequentemente fragmentada?
É dessa inquietação que nasce o Simpósio Nacional Saúde Mental em Alerta – Da Crise à Ação.
2 POR QUE CONSTRUIR UM SIMPÓSIO NACIONAL DE SAÚDE MENTAL?
A proposta do simpósio não nasce da intenção de criar apenas mais um evento científico. Surge da percepção de que existe uma necessidade concreta de aproximar conhecimento, profissionais, instituições, gestores, empresários, pesquisadores, sociedade civil e poder público.
Saúde mental está presente na escola, na empresa, na família, na assistência social, na segurança pública, no sistema de justiça, na saúde, na educação, no empreendedorismo e nas políticas públicas.
Consequentemente, nenhuma área consegue responder sozinha à complexidade do problema.
A proposta é realizar uma transição conceitual:
da crise isolada para a construção coletiva de soluções;
da reação para a prevenção;
da fragmentação para a articulação;
do diagnóstico do problema para a definição de responsabilidades e ações.
O simpósio, portanto, foi estruturado para produzir conhecimento, conexões e proposições que possam ultrapassar os dois dias de programação.
3 CINCO EIXOS PARA UMA AGENDA NACIONAL
A estrutura do simpósio está organizada em cinco eixos temáticos, escolhidos por representarem dimensões estratégicas da saúde mental contemporânea.
3.1 Prevenção e crise
Prevenir significa agir antes que o sofrimento alcance níveis críticos.
Esse eixo aborda promoção da saúde mental, educação emocional, identificação de sinais de sofrimento, prevenção do suicídio, protocolos de crise e fortalecimento das redes de proteção.
A prevenção precisa deixar de ser compreendida como ação pontual e passar a integrar políticas institucionais permanentes.
A informação qualificada pode contribuir para que famílias, escolas, empresas e instituições reconheçam sinais de alerta e saibam onde buscar ajuda.
3.2 Infância e adolescência
A saúde mental começa a ser construída muito antes da vida adulta.
Experiências adversas na infância, violência, negligência, conflitos familiares, bullying, exclusão social, exposição inadequada às redes digitais e ausência de redes de proteção podem produzir impactos que atravessam diferentes fases da vida.
Discutir crianças e adolescentes significa, portanto, discutir também família, escola, comunidade, tecnologia, saúde, assistência e proteção social.
Esse eixo propõe olhar para a prevenção precoce como investimento humano e social.
3.3 Saúde mental e trabalho
O trabalho ocupa parte significativa da vida adulta e, por isso, não pode ser dissociado da saúde mental.
A OMS e a OIT estimam que 12 bilhões de dias de trabalho sejam perdidos anualmente no mundo em decorrência de depressão e ansiedade, com impacto econômico estimado em aproximadamente US$ 1 trilhão por ano (WHO; ILO, 2022).
Para administradores e líderes, essa realidade amplia a discussão sobre saúde mental: não se trata apenas de assistência ao trabalhador, mas também de gestão de riscos psicossociais, cultura organizacional, liderança, relações de trabalho, prevenção e sustentabilidade empresarial.
A pergunta estratégica deixa de ser apenas “como tratar quem adoeceu?” e passa a incluir:
“Que ambiente estamos construindo e quais fatores organizacionais podem proteger ou adoecer?”
3.4 Políticas públicas e acesso
Conhecimento sem acesso não produz transformação social.
Esse eixo discute a necessidade de integração entre saúde, assistência social, educação, segurança, justiça, organizações da sociedade civil e iniciativa privada.
A saúde mental exige redes articuladas, fluxos de atendimento, prevenção, financiamento, capacitação profissional e políticas públicas capazes de alcançar diferentes territórios e populações.
A questão central é transformar a existência de serviços e conhecimentos em acesso efetivo, continuidade do cuidado e proteção.
3.5 Violência, trauma e proteção
Violências produzem consequências individuais, familiares e sociais que podem permanecer por anos ou atravessar gerações.
Esse eixo aborda violência doméstica, violência contra crianças e adolescentes, situações traumáticas, proteção de vítimas, consequências psicossociais e estratégias de cuidado.
A compreensão do trauma amplia a possibilidade de interromper ciclos de sofrimento e construir intervenções mais qualificadas.
Nesse sentido, proteger não significa apenas responder depois que a violência ocorreu. Significa também identificar riscos, fortalecer vínculos, prevenir revitimizações e criar redes de proteção.
4 DA DISCUSSÃO À PRODUÇÃO DE UM DOCUMENTO PÚBLICO
Um dos diferenciais do projeto é que o simpósio não pretende encerrar sua contribuição no palco.
A proposta é transformar as discussões realizadas nos cinco eixos em uma obra coletiva, reunindo reflexões, evidências, experiências, propostas e compromissos.
Esse processo dará origem à Carta de Goiânia pela Saúde Mental, concebida como um documento público de mobilização e proposição.
A Carta terá como finalidade registrar:
- os principais desafios identificados;
- experiências e iniciativas que já vêm sendo desenvolvidas;
- propostas de enfrentamento;
- responsabilidades dos diferentes setores;
- possibilidades de articulação entre sociedade civil, empresas e poder público;
- caminhos para prevenção, cuidado e proteção.
Os participantes convidados para a construção da obra poderão atuar como coautores, contribuindo para que o documento represente uma construção plural e interdisciplinar.
A proposta é simples em sua essência, mas ambiciosa em seu propósito:
não apenas falar sobre o problema, mas registrar caminhos para enfrentá-lo.
5 SAÚDE MENTAL COMO PAUTA ESTRATÉGICA PARA ADMINISTRADORES
Para a Administração, a discussão sobre saúde mental precisa superar a ideia de que esse tema pertence exclusivamente ao departamento de Recursos Humanos.
Ele envolve liderança, governança, cultura, produtividade sustentável, gestão de pessoas, segurança, responsabilidade social, compliance, comunicação, inovação e continuidade dos negócios.
Um administrador não gerencia apenas processos. Gerencia pessoas, ambientes, decisões e consequências.
Por isso, compreender os fatores que interferem na saúde mental tornou-se parte importante da gestão contemporânea.
Empresas que discutem o tema de maneira estruturada podem avançar na identificação de riscos, no fortalecimento de ambientes mais saudáveis e na construção de estratégias preventivas.
A questão não é transformar gestores em profissionais de saúde.
É fazer com que gestores compreendam quando agir, como prevenir, como encaminhar e como construir ambientes institucionalmente mais protetivos.
6 DA CRISE À AÇÃO
O título do simpósio sintetiza sua principal proposta.
Da crise à ação significa reconhecer que os indicadores são importantes, mas insuficientes quando não produzem mobilização.
Significa transformar conhecimento em estratégia.
Transformar diagnóstico em prevenção.
Transformar experiências isoladas em rede.
Transformar diferentes vozes em propostas.
E transformar um evento em um movimento contínuo de construção coletiva.
O Simpósio Nacional Saúde Mental em Alerta – Da Crise à Ação, em Goiânia, propõe exatamente esse encontro: profissionais e instituições de diferentes campos reunidos para compreender a complexidade da saúde mental e construir possibilidades concretas de resposta.
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A saúde mental é transversal porque o ser humano é transversal.
Não existe educação de qualidade sem saúde mental. Não existe trabalho sustentável sem saúde mental. Não existe desenvolvimento social consistente sem saúde mental. Não existe política pública integral sem considerar saúde mental.
Por isso, a proposta do simpósio é ampliar a conversa e, principalmente, ampliar a responsabilidade.
A Carta de Goiânia pela Saúde Mental representa a tentativa de transformar a diversidade de conhecimentos e experiências reunidos no evento em um documento público, coletivo e propositivo.
O desafio brasileiro não é apenas reconhecer que existe uma crise.
É construir capacidade social, institucional e política para responder a ela.
A saúde mental entrou em alerta. Agora é hora de agir.
CHAMADA À AÇÃO
Se você é administrador, empresário, gestor, profissional de saúde, educador, pesquisador, estudante ou atua em qualquer área que impacte pessoas, esta pauta também é sua.
Participe do Simpósio Nacional Saúde Mental em Alerta – Da Crise à Ação, nos dias 09 e 10 de outubro, em Goiânia (GO).
Venha ampliar seu conhecimento, conectar-se a diferentes áreas e participar da construção de uma agenda nacional pela saúde mental.
Não será apenas um simpósio. Será o início de um movimento.
🎟️ Garanta sua participação:
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Vagas limitadas.
AUTORA

Bruna Tomazetti
Psicóloga – CRP 09/4147. Neurocientista, empresária, escritora e palestrante. Especialista em saúde mental, com atuação dedicada à integração entre saúde mental, desenvolvimento humano, gestão e transformação de realidades. Idealizadora do Simpósio Nacional Saúde Mental em Alerta – Da Crise à Ação.
REFERÊNCIAS
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde 2019: percepção do estado de saúde, estilos de vida, doenças crônicas e saúde bucal. Rio de Janeiro: IBGE, 2020.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE – WHO. World mental health report: transforming mental health for all. Geneva: World Health Organization, 2022.
WORLD HEALTH ORGANIZATION – WHO; INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION – ILO. Mental health at work: policy brief. Geneva: World Health Organization, 2022.
WORLD HEALTH ORGANIZATION – WHO. Mental health. Geneva: World Health Organization. Disponível em: https://www.who.int/health-topics/mental-health. Acesso em: 26 set. 2026.
WORLD HEALTH ORGANIZATION – WHO. Depressive disorder (depression). Geneva: World Health Organization. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/depression. Acesso em: 26 set. 2026.