agosto 23, 2026

Selic a 12% em xeque: dívida projetada em 86,8% do PIB limita espaço para cortes em 2027

Eurozone interest rates

A dívida pública projetada em 86,8% do PIB em 2027 deve limitar o espaço do Banco Central para acelerar os cortes da Selic, mesmo com a atividade econômica perdendo força, avaliam nove especialistas do mercado financeiro ouvidos pela assessoria da Gueratto Press.

“A questão central não é apenas quanto o Banco Central poderá cortar a Selic, mas quanto dessa redução efetivamente chegará ao custo de capital da economia”, resume Cassio Viana de Jesus, de Investimentos e Novos Negócios da Pilar Capital.

Para o executivo, o fiscal de 2027 tem ligação direta com o funcionamento do mercado de capitais porque influencia a curva de juros e o prêmio de risco. “Se o mercado enxergar dificuldade para estabilizar a dívida pública, os juros longos podem permanecer elevados mesmo com cortes da Selic”, afirma.

Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, pondera que o Banco Central pode ter dificuldade para acelerar os cortes se houver piora na percepção fiscal. “Para 2027, o efeito seria um crescimento mais fraco, com crédito ainda caro, maior seletividade dos bancos e pior ambiente para empresas alavancadas”, diz.

André Matos, CEO da MA7 Capital, defende que fiscal e juro “não são dois assuntos, são o mesmo assunto”. Segundo ele, quando o mercado duvida da trajetória da dívida, cobra prêmio na ponta longa da curva — que determina o custo de captação das empresas, não a Selic do dia seguinte. “Eu não trabalho com recessão como cenário central, mas o risco é real: a economia pode entrar no ano já desalavancando, com empresas e famílias endividadas, e ainda precisar de política monetária restritiva”, avalia.

Volnei Eyng, CEO da gestora Multiplike, chama atenção para dois fatores que neutralizaram parte do aperto monetário em 2026: o aumento do crédito consignado e a expansão de FIDCs e neobancos. “Esse volume não se repete em 2027 […] a consequência natural é o aumento da inadimplência”, diz. Para o empresário, o recado é que “planejar aumento de faturamento em 2027 será desafiador”.

Cassio Viana de Jesus complementa que o Focus já aponta PIB de 1,50%, inflação de 4,24% e Selic de 12% ao final do ano — números que, segundo ele, ainda não incorporam plenamente riscos como a desaceleração dos serviços e do consumo.

Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco, destaca que a transmissão da política monetária para o crédito acontece com atraso. “Uma empresa ou uma família não sente uma Selic de 14% apenas no mês da decisão do Copom; sente quando precisa renovar uma dívida, financiar um investimento ou reorganizar o fluxo de caixa”, explica.

Gustavo Assis, CEO da Asset, lembra que o cenário externo adiciona outra camada de pressão: o Fed mantém juros entre 3,5% e 3,75% e a inflação americana segue acima da meta. “É possível, portanto, ter Selic menor e ainda conviver com custo de capital alto”, afirma.

Para Leticia Moschioni, sócia da Finscale, o sinal mais importante para 2027 pode não estar apenas no nível da Selic, mas na redução da abundância de capital. “O desafio de 2027 será transformar gestão financeira em estratégia operacional, olhando capital de giro, pagamentos e crédito de maneira integrada”, diz.

Já Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, reforça que o Brasil não define a trajetória dos juros isoladamente: depende também de quanto retorno um investidor consegue obter sem assumir risco de mercado emergente. “Uma melhora fiscal crível poderia reduzir parte desse prêmio mesmo antes de uma queda expressiva da Selic”, afirma.

Assessoria de imprensa: Luiza Torres, Priscila Oliveira e Fabrizio Gueratto.

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