setembro 8, 2026

Selic cai para 14%, mas consórcio bate recorde: quando ele realmente vale a pena?

Leonardo Baldez, economista e CEO do Grupo ISF

Sistema encerrou o primeiro semestre com 13,36 milhões de participantes ativos; para especialista, escolha para comprar carro ou imóvel depende mais do prazo e da organização financeira do que apenas do custo anunciado.

A redução da Selic para 14% ao ano, anunciada pelo Banco Central em 5 de agosto, trouxe novamente a expectativa de crédito mais barato para consumidores e empresas. O movimento, porém, ocorre enquanto outro instrumento de aquisição de patrimônio registra números recordes no país: o sistema de consórcios terminou o primeiro semestre de 2026 com 13,36 milhões de participantes ativos, alta de 12,6% em um ano, segundo a Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC).

Para Leonardo Baldez Augusto, economista, fundador e CEO do Grupo ISF Soluções Financeiras, ecossistema que atua nas áreas de consórcio, crédito e meios de pagamento, a queda dos juros não torna uma modalidade automaticamente melhor que a outra. A decisão entre financiar, entrar em um grupo ou esperar para comprar depende principalmente da urgência, do dinheiro disponível e da capacidade de planejamento do consumidor.

“Quem começa a comparação perguntando apenas qual tem a menor parcela já pode começar errado. É preciso saber quando o bem será necessário, quanto existe disponível para entrada ou lance, qual será o custo total da operação e quanto daquela renda pode ficar comprometida durante vários anos”, afirma.

O Copom reduziu a taxa básica em 0,25 ponto percentual na reunião de agosto, no quarto corte consecutivo, levando a Selic ao menor patamar desde março de 2025. Apesar do ciclo de redução, o Banco Central sinalizou cautela e não antecipou qual será sua próxima decisão. A autoridade monetária considera que os juros ainda precisam permanecer em nível restritivo para conduzir a inflação em direção à meta.

Consórcio cresce mesmo com início da queda dos juros

Os números ajudam a explicar por que a discussão ganhou espaço. Entre janeiro e junho deste ano, foram comercializadas 2,82 milhões de cotas de consórcio no Brasil, avanço de 14,6% em relação ao mesmo período de 2025. O volume de créditos vendidos alcançou R$ 278,99 bilhões, crescimento de 25,5%.

O movimento é particularmente forte no mercado imobiliário. As vendas de cotas destinadas a imóveis cresceram 41,9% no primeiro semestre, para 838,03 mil. O número de participantes ativos avançou 35,1%, alcançando 3,23 milhões. Nos veículos leves, foram quase 1 milhão de novas cotas comercializadas no período.

Para Baldez, parte do interesse pode estar relacionada à busca por alternativas diante do custo do crédito, mas ele alerta que consórcio e financiamento não são produtos equivalentes.

“O financiamento compra tempo. A pessoa precisa do carro ou do imóvel agora, recebe o recurso e paga por essa antecipação. No consórcio, existe outra lógica: o consumidor participa de um sistema de autofinanciamento e precisa considerar que a contemplação não tem data previamente garantida. É justamente por isso que planejamento e urgência precisam entrar na conta”, explica.

Segundo o Banco Central, o consórcio não é uma operação de crédito, mas uma modalidade de autofinanciamento. A contemplação acontece em assembleias, por sorteio ou lance, e depende da existência de recursos no grupo.

“Sem juros” não significa sem custo

Um dos principais erros, segundo o economista, é comparar apenas a taxa de juros de um financiamento com a informação de que o consórcio não cobra juros.

As prestações do consórcio incluem valores destinados ao fundo comum e à taxa de administração e podem incorporar outros componentes previstos em contrato, como fundo de reserva e seguro. Por isso, a análise precisa considerar o valor total que será desembolsado até o fim do plano.

“Não existe decisão financeira séria baseada apenas na frase ‘não tem juros’. Consórcio tem custos e financiamento tem custos. O consumidor precisa colocar os dois contratos lado a lado e entender quanto pagará, em quanto tempo e em quais condições terá acesso ao bem”, ressalta Baldez.

A mesma cautela vale para a expectativa de contemplação rápida. Ofertar um lance pode aumentar a possibilidade de receber a carta de crédito antes, mas não transforma a contemplação em certeza antecipada.

Quando esperar pode valer dinheiro

A diferença de prazo ajuda a definir qual caminho tende a ser mais adequado. Uma família que precisa substituir imediatamente o único carro usado para trabalhar, por exemplo, tem uma necessidade diferente daquela que pretende trocar o veículo dentro de três anos. Da mesma forma, quem precisa entrar em um imóvel agora precisa considerar aluguel, entrada disponível e custo de oportunidade durante o período de espera.

Para quem consegue programar a compra, Baldez defende que o planejamento deve começar antes da escolha do produto financeiro.

“Se a pessoa sabe que pretende trocar de carro daqui a quatro anos ou comprar um imóvel daqui a seis, ela ganhou uma coisa extremamente valiosa: tempo. A partir daí, pode comparar consórcio, investimentos para formação de entrada e financiamento futuro. Quem começa a pensar na compra apenas quando precisa do bem perde alternativas”, afirma.

E se a Selic continuar caindo?

Uma eventual continuidade do ciclo de redução dos juros tende a alterar gradualmente as condições do crédito, mas não significa necessariamente que todos os financiamentos ficarão baratos imediatamente. A Selic é uma referência para as demais taxas da economia, enquanto o custo oferecido ao consumidor também depende de fatores como risco de crédito, prazo, garantias e política de cada instituição financeira.

Por isso, Baldez considera inadequado escolher hoje uma modalidade apenas com base na expectativa de onde estarão os juros nos próximos meses.

“Esperar uma queda de juros pode fazer sentido para algumas pessoas, mas não pode ser uma aposta sem cálculo. Da mesma forma, entrar em um consórcio porque o financiamento está caro também não basta. A melhor escolha é aquela que encaixa a aquisição no orçamento sem transformar patrimônio em problema de caixa”, aponta.

Antes de decidir, o economista recomenda responder a quatro perguntas: quando o bem realmente será necessário; qual valor pode ser comprometido mensalmente; quanto existe disponível para entrada ou lance; e qual é o custo total das alternativas consideradas.

A trajetória recente do setor mostra que uma parcela crescente dos brasileiros está optando pelo planejamento de médio e longo prazo. Mas, para Baldez, o recorde de adesões não muda uma regra básica.

“Consórcio não é para todo mundo, assim como financiamento não é. Para quem precisa do bem imediatamente, previsibilidade de acesso pesa muito. Para quem pode planejar, esperar e organizar o patrimônio ao longo do tempo, a conta é diferente. O erro é escolher o produto antes de entender a necessidade”, conclui.

Sobre Leonardo Baldez

Leonardo Baldez Augusto é economista, empreendedor e fundador e CEO do Ecossistema ISF Soluções Financeiras, empresa que possui um hub de soluções, serviços e produtos financeiros. À frente da ISF Consórcio, operação exclusiva em parceria com o Banco do Brasil, lidera a maior estrutura de vendas de consórcio do país. O grupo também reúne a Guia Consórcio, plataforma multibandeiras integrada a escritórios de investimento, e a ISF Crédito, fintech parceira do BNDES voltada ao financiamento produtivo.

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