Para analistas ouvidos pela assessoria Guaratto Press, o avanço do dólar após as eleições soma um segundo choque de custos a uma indústria que já estava pressionada. O Índice de Preços ao Produtor (IPP) avançou 1,54% em setembro, com alta de 1,94% nos bens intermediários, e acumula 5,04% no ano. Segundo os especialistas, a depreciação do câmbio pode adicionar de 0,4 a 0,8 ponto percentual ao IPCA de 2027 e dificultar os cortes da Selic.
“As estimativas do próprio Banco Central indicam que, a cada 10% de alta do dólar, a inflação sobe cerca de 1 ponto percentual em 12 meses”, afirma André Matos, CEO da MA7 Capital.
O que dizem os economistas
André Matos, CEO da MA7 Capital: “O IPP de setembro mostra que a indústria já estava sob pressão antes da eleição. Os preços na porta das fábricas subiram 1,54%, a maior alta em meses, puxados por alimentos, petróleo e minérios, por causa do clima e da guerra no Oriente Médio. Agora, a disparada do dólar depois da eleição, de 8,21% em um único dia, soma um segundo choque a esse primeiro. As estimativas do próprio Banco Central indicam que, a cada 10% de alta do dólar, a inflação sobe cerca de 1 ponto percentual em 12 meses. Como o mercado já esperava um dólar de cerca de R$ 5,22 para 2027, se a moeda se mantiver entre R$ 5,40 e R$ 5,60, o efeito adicional sobre o IPCA do ano que vem deve ficar entre 0,4 e 0,8 ponto percentual. O problema é que a demanda está fraca, e nem todos conseguem repassar esses custos. Os mais pressionados são os setores que dependem de insumos importados e vendem para um consumidor endividado, como eletroeletrônicos, móveis, vestuário e construção civil. Nesses casos, as empresas devem absorver boa parte da alta, com perda de um a dois pontos de margem. Com a inflação de volta acima do teto da meta e a incerteza fiscal maior, o Banco Central perde espaço para continuar cortando a Selic. No meu cenário, sem uma sinalização fiscal clara do governo, a Selic termina 2027 entre 13,75% e 14,5%, bem acima dos 12% que o mercado projetava antes da eleição, e o Ibovespa fica entre 160 mil e 190 mil pontos. Se o governo anunciar nas próximas semanas uma equipe econômica com credibilidade e uma meta fiscal mais firme, os juros podem voltar para perto de 12,5% e a Bolsa recuperar os 200 mil pontos ao longo do ano.”
André Luiz Haas Caruso, CEO da Pilar Capital: “O IPP avançou 1,54% em setembro, com alta de 1,94% nos bens intermediários, sinalizando pressão sobre insumos utilizados pela construção e pela indústria. A valorização recente do dólar pode ampliar o custo de equipamentos e componentes importados, acrescentando entre 0,5 e 0,8 ponto percentual ao IPCA de 2027. Empresas com contratos já definidos e menor flexibilidade para reajustes podem enfrentar compressão de 2 a 3 pontos percentuais nas margens. A persistência inflacionária também dificulta a redução dos juros, com a Selic podendo encerrar 2027 entre 12,5% e 13,5% e o Ibovespa entre 160 mil e 185 mil pontos. Para o setor imobiliário, o ponto central será a estruturação de financiamentos compatíveis com os cronogramas das obras, a previsibilidade dos recebíveis e o planejamento de longo prazo.”
Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco: “O IPP de setembro evidencia que os custos produtivos já estavam pressionados antes das eleições, especialmente em alimentos, que subiram 2,40%, e indústrias extrativas, com alta de 11,04%. A valorização do dólar pode intensificar os custos de combustíveis, fertilizantes e equipamentos, acrescentando entre 0,4 e 0,8 ponto percentual ao IPCA de 2027. Na construção e no comércio de materiais, a dificuldade de repassar integralmente esses aumentos pode reduzir margens em cerca de 2 a 3 pontos percentuais. Com a inflação mais resistente, a Selic pode terminar 2027 entre 12,5% e 13,5%, enquanto o Ibovespa poderá oscilar entre 160 mil e 185 mil pontos. Esse cenário reforça a importância do planejamento financeiro, com operações de crédito estruturadas conforme as garantias disponíveis, a geração de caixa e os prazos de cada projeto.”
Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos: “A alta dos preços ao produtor mostra que a indústria já enfrentava pressão de custos antes mesmo da recente valorização do dólar, que tende a encarecer ainda mais matérias-primas e produtos importados. O problema é que o consumo enfraquecido limita a capacidade das empresas de repassar esses aumentos aos consumidores. Setores como varejo, construção e bens duráveis devem sentir mais esse efeito, com redução das margens de lucro. Acredito que parte dessa pressão chegará à inflação em 2027, dificultando cortes mais rápidos da Selic. Para a Bolsa, vejo um cenário de maior volatilidade e menor espaço para valorizações generalizadas, especialmente entre empresas endividadas e dependentes do consumo. Minha expectativa é de juros ainda elevados em 2027 e um Ibovespa mais seletivo, favorecendo empresas exportadoras, com baixo endividamento e maior capacidade de preservar sua rentabilidade.”
Letícia Moschioni, sócia da Finscale: “A alta de 1,54% do IPP mostra uma inflação impulsionada por custos, e não necessariamente por maior demanda. Com o dólar mais caro, insumos importados podem pressionar ainda mais os preços, acrescentando de 0,4 a 0,7 ponto percentual ao IPCA de 2027. Empresas de varejo e distribuição, que enfrentam consumidores mais sensíveis aos reajustes, podem registrar compressão de 1,5 a 3 pontos percentuais nas margens. Esse ambiente dificulta a flexibilização monetária, podendo manter a Selic entre 12,5% e 13,25% e o Ibovespa entre 165 mil e 185 mil pontos em 2027. A resposta empresarial passa por melhorar a gestão do capital de giro e dos recebíveis. Nesse cenário, as finanças embarcadas ganham espaço ao integrar pagamentos, crédito e cobrança às operações comerciais, permitindo maior eficiência e diversificação das receitas.”
Fábio Murad, consultor da Wiser Asset: “A valorização de 8,21% do dólar e a queda de 13,88% do Ibovespa após a eleição mostram como o risco político pode alterar rapidamente a precificação dos ativos brasileiros. O movimento ocorreu quando o IPP já acumulava alta de 5,04% no ano, com pressões sobre petróleo e alimentos. Caso o câmbio permaneça depreciado, o IPCA de 2027 poderá receber entre 0,4 e 0,8 ponto percentual adicional. Empresas dependentes de importações podem enfrentar redução de 2 a 4 pontos percentuais nas margens, limitando o espaço para cortes da Selic, que poderá encerrar 2027 entre 12,75% e 13,75%. Nesse cenário, o Ibovespa pode oscilar entre 155 mil e 185 mil pontos. Enquanto isso, a economia global apresenta oportunidades em diferentes setores e moedas. A exposição a ETFs internacionais e ativos dolarizados permite diversificar riscos, reduzindo a dependência exclusiva do desempenho brasileiro.”