Setembro é marcado pelo amarelo, mas a mensagem que a campanha carrega vai muito além de uma cor. O Setembro Amarelo representa um importante movimento de conscientização sobre a prevenção do suicídio, a valorização da vida e a necessidade de ampliar os espaços de diálogo sobre saúde mental.
No mundo do trabalho, essa discussão ganha uma dimensão ainda mais relevante. Afinal, passamos uma parcela significativa de nossas vidas dentro das organizações, e as relações construídas nesse ambiente podem influenciar diretamente nossa percepção de bem-estar, pertencimento, reconhecimento e qualidade de vida.
Dados e orientações divulgados pela Fundacentro destacam que fatores presentes no ambiente profissional, como pressão excessiva, jornadas prolongadas, falta de reconhecimento, assédio e condições inadequadas de trabalho, podem contribuir para o sofrimento mental dos trabalhadores. A instituição também ressalta que a promoção da saúde mental precisa considerar as próprias condições estruturais de trabalho.
É justamente nesse ponto que o conceito de felicidade corporativa ganha importância.
Felicidade corporativa não é simplesmente “estar feliz no trabalho”
Falar em felicidade corporativa não significa defender que as empresas devam criar ambientes permanentemente descontraídos ou transformar problemas complexos em campanhas motivacionais.
Felicidade corporativa está relacionada à construção de condições organizacionais que favoreçam o bem-estar, o reconhecimento, relações saudáveis, desenvolvimento, propósito, equilíbrio entre vida pessoal e profissional e percepção de que o indivíduo é valorizado dentro da organização.
Essa perspectiva foi objeto do estudo “Felicidade Corporativa: um estudo de caso sobre a promoção do bem-estar no ambiente de trabalho”, publicado em 2025 na International Journal of Professional Business Review, de autoria de Fabrício Souza Ribeiro, Valdirene Ramos da Silva, Jhonata Jankowitsch e Robson Antonio Tavares Costa.
A pesquisa analisou respostas de 72 participantes por meio de questionário estruturado em escala Likert de cinco pontos e utilizou o coeficiente de correlação de Pearson para investigar relações entre diferentes dimensões do ambiente organizacional.
Os resultados chamam atenção para a relação entre diferentes fatores do ambiente de trabalho. O estudo identificou, por exemplo, uma correlação positiva de 0,71 entre suporte contra o estresse e saúde mental, além de uma correlação de 0,75 envolvendo critérios de meritocracia e reconhecimento. Também foram observadas relações relevantes entre estresse, ambiente organizacional e outras dimensões relacionadas ao bem-estar.
Esses resultados não significam que uma única variável determine a saúde mental de uma pessoa. Eles mostram, dentro do contexto estudado, que o ambiente organizacional e a forma como as pessoas são tratadas estão relacionados a diferentes percepções de bem-estar.
O problema começa quando o cuidado vira apenas discurso
Durante o Setembro Amarelo, muitas organizações promovem palestras, distribuem materiais informativos e incentivam seus colaboradores a falar sobre saúde mental.
Essas iniciativas podem contribuir para ampliar a conscientização. Entretanto, existe uma questão fundamental: o discurso sobre cuidado precisa ser acompanhado por práticas concretas de gestão.
Não é coerente falar sobre saúde mental durante uma campanha e, ao mesmo tempo, manter uma cultura marcada por excesso de cobrança, jornadas incompatíveis com a vida pessoal, ausência de reconhecimento, assédio ou falta de canais seguros de escuta.
A própria Fundacentro alerta que iniciativas isoladas de bem-estar não substituem boas condições estruturais de trabalho.
Por isso, uma organização comprometida com a saúde mental precisa olhar para além das campanhas.
Precisa perguntar:
As pessoas conseguem falar sobre suas dificuldades sem medo?
Existe respeito nas relações entre liderança e equipes?
O reconhecimento acontece de maneira justa?
As pessoas percebem sentido no trabalho que realizam?
Existe equilíbrio possível entre vida profissional e pessoal?
O estresse é tratado como um problema a ser compreendido ou apenas como uma característica inevitável do trabalho?
Essas perguntas fazem parte de uma agenda mais ampla de gestão de pessoas.
A liderança também faz parte da prevenção
A liderança exerce papel importante na construção da cultura organizacional.
Uma empresa pode disponibilizar benefícios, programas de assistência e campanhas de saúde mental. Mas, se o comportamento cotidiano das lideranças contradiz esses valores, a mensagem institucional perde força.
Criar espaços de escuta, estimular relações respeitosas, reconhecer contribuições, estabelecer expectativas realistas e observar sinais de sobrecarga são práticas que podem contribuir para ambientes mais saudáveis.
O Conselho Federal de Enfermagem, por exemplo, destaca a importância do diálogo e da construção de redes de apoio no contexto do Setembro Amarelo.
Isso ajuda a compreender que saúde mental não deve ser tratada exclusivamente como uma responsabilidade individual.
É claro que cada pessoa possui sua história, suas circunstâncias e suas necessidades. O acompanhamento profissional especializado é fundamental quando existe sofrimento psíquico ou risco à própria vida.
Mas as organizações também possuem responsabilidade sobre o ambiente que constroem.
O verdadeiro significado da felicidade corporativa
Meu estudo sobre felicidade corporativa parte justamente da necessidade de compreender que o bem-estar no trabalho é multidimensional.
Não existe uma fórmula única para produzir felicidade dentro de uma organização.
Remuneração, desenvolvimento profissional, comunicação, relacionamento com a liderança, reconhecimento, clima organizacional, propósito e equilíbrio entre vida pessoal e profissional podem assumir diferentes pesos dependendo do contexto e das pessoas envolvidas.
Na pesquisa, inclusive, a remuneração apareceu como menos relevante para a felicidade no trabalho do que alguns outros fatores analisados, resultado que merece ser interpretado dentro das características específicas da amostra e do contexto estudado.
Isso reforça uma conclusão importante: dinheiro importa, mas não explica sozinho a experiência humana dentro das organizações.
Pessoas também precisam se sentir respeitadas, reconhecidas, pertencentes e capazes de enxergar significado naquilo que fazem.
Setembro Amarelo precisa continuar depois de setembro
O dia 10 de setembro marca o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, mas a prevenção não pode estar limitada a um mês do calendário. Em 2026, o próprio Governo Federal voltou a destacar a importância da conscientização, da informação e das redes de apoio em torno da data.
Para as empresas, talvez a principal reflexão seja simples:
Que tipo de ambiente estamos construindo quando setembro termina?
Se o Setembro Amarelo servir apenas para colocar uma fita amarela na porta da empresa, sua mensagem será limitada.
Mas se servir para rever relações, ouvir pessoas, combater o assédio, melhorar processos, repensar cargas de trabalho, fortalecer lideranças e criar uma cultura genuinamente baseada no respeito e no cuidado, então a campanha poderá produzir uma transformação muito mais profunda.
A felicidade corporativa, nesse sentido, não deve ser entendida como a obrigação de estar feliz o tempo inteiro.
Ela representa uma perspectiva de gestão que reconhece que resultados sustentáveis dependem também de pessoas que tenham condições saudáveis para trabalhar, conviver, desenvolver-se e encontrar sentido no que fazem.
E talvez essa seja uma das principais mensagens do Setembro Amarelo para o mundo corporativo: cuidar das pessoas não pode ser apenas uma campanha. Precisa fazer parte da cultura.
Sobre o autor

Fabrício Ribeiro é administrador e economista, com atuação nas áreas de gestão, projetos, processos e desenvolvimento organizacional. Pesquisador e autor de trabalhos sobre gestão e felicidade corporativa, é autor do livro “Felicidade no trabalho” e coautor do estudo “Felicidade Corporativa: um estudo de caso sobre a promoção do bem-estar no ambiente de trabalho”, publicado em 2025 na International Journal of Professional Business Review.