Carlos Akira Sato*
O Brasil deixou de ser apenas um grande consumidor de tecnologia para se tornar um laboratório de inovação capaz de produzir empreendedores resilientes e soluções escaláveis em um ambiente altamente adverso. Essa percepção ganhou força depois que executivos de grandes empresas globais definiram as startups brasileiras como uma espécie de Santo Graal do setor, ou a “galinha dos ovos de ouro” — definição feita por Henry Couto, à frente do Google for Startups Accelerator. O insight reflete a capacidade do ecossistema local em desenvolver soluções competitivas mesmo com acesso restrito a capital. Contudo, essa metáfora positiva carrega uma provocação: se o ecossistema é tão promissor, quem realmente ficará com o valor gerado? Historicamente, financiou-se a expansão acelerada sem rentabilidade imediata, mas o empreendedor nacional convive com juros elevados, insegurança jurídica, complexidade tributária e custos regulatórios precoces que exigem eficiência operacional desde o primeiro dia.
Desafios de capital e a realidade do empreendedorismo local
A resiliência obriga as empresas emergentes a validar produtos e controlar despesas mais cedo, aprendendo na prática a fazer mais com menos. Embora os aportes em capital de risco tenham mostrado recuperação no país, o volume ainda é modesto diante do tamanho da economia nacional e do potencial inovador. Parcela expressiva do valor tecnológico surge antes mesmo de a empresa ter faturamento, quando profissionais identificam ineficiências em setores como finanças, agronegócio, saúde e logística.
O vazio entre a ideia e a empresa investível
- Falta de tração inicial: muitos projetos promissores morrem antes de chegar ao mercado por falta de capital semente.
- Barreiras de crédito tradicional: bancos exigem garantias e histórico financeiro que negócios em estágio inicial não possuem.
- Burocracia em incentivos públicos: processos lentos afastam fundadores que precisam de agilidade tecnológica.
- Custos regulatórios precoces: exigências de conformidade muitas vezes superam a capacidade financeira da estrutura inicial.
Para superar esse abismo e transformar projetos conceituais em estruturas atrativas para investidores, muitos empreendedores buscam suporte jurídico especializado em startups e empresas de tecnologia, garantindo segurança societária e regulatória desde os primeiros passos.
Dos unicórnios ao desafio da permanência do valor gerado
O país já provou sua capacidade de criar empresas avaliadas em mais de US$ 1 bilhão, especialmente em setores de forte apelo regulatório, como serviços financeiros e pagamentos. Contudo, o grande desafio não é apenas celebrar os unicórnios consolidados, mas impedir que o sucesso de poucas dezenas esconda a dificuldade enfrentada por milhares de projetos que continuam sem acesso a recursos operacionais. A presença de fundos e multinacionais internacionais deve ser celebrada por trazer infraestrutura e escala global, mas o país precisa construir mecanismos para reter uma parcela relevante da riqueza gerada. Quando a propriedade intelectual ou a sede de um negócio são transferidas para o exterior por falta de alternativas locais, o valor futuro deixa de circular na economia nacional.
Governança proporcional e o futuro da inovação nacional
A discussão central deve migrar do número de unicórnios existentes para a quantidade de boas ideias transformadas em empresas sustentáveis. Isso exige ambientes seguros de experimentação, universidades conectadas ao setor produtivo, fundos corporativos ativos e regulação proporcional baseada em risco. A governança não pode ser postergada para depois do crescimento, mas tampouco pode inviabilizar o negócio pré-operacional com exigências desproporcionais ao seu estágio de maturidade. Precisamos de um ambiente onde o empreendedorismo cresça por causa das condições oferecidas pelo país, garantindo segurança jurídica e capital estratégico para participar integralmente dos frutos dessa produção.
*Carlos Akira Sato é co-founder da Syscapital, conselheiro da Zuvia Digital Assets e especialista em Startups, Mercados Regulados, Governança e Inovação. É vice-presidente de Relações Institucionais da PAGOS (Associação de Gestão de Meios de Pagamentos Eletrônicos).