setembro 16, 2026

Varejo físico recua 1,5% em agosto e entra no último quadrimestre do ano sob pressão das eleições e do crédito

Varejo físico no Brasil

IICV SEED aponta retração no fluxo de consumidores pelo segundo mês consecutivo, com forte contraste regional: Sul avança 8,4%, enquanto Nordeste e Sudeste registram quedas de 4,8% e 4,3%, respectivamente

O varejo físico brasileiro encerrou agosto sob pressão. O Índice de Intenção de Compra do Varejo (IICV) da SEED registrou retração de 1,5% no fluxo de consumidores na comparação anual (YoY), em um mês marcado pelo comprometimento da renda disponível das famílias, juros ainda elevados e aumento da percepção de risco diante do cenário político. O levantamento acompanha mensalmente o comportamento de aproximadamente 58 milhões de visitantes por mês em milhares de lojas de diferentes regiões e setores do país.

O resultado reforça um cenário de maior cautela por parte do consumidor. Mesmo um dos principais momentos sazonais do segundo semestre, a semana do Dia dos Pais, apresentou variação negativa de 0,3%, frustrando as expectativas de maior tração para o comércio.

Na avaliação da SEED, a combinação entre renda disponível mais comprometida e crédito ainda caro ajuda a explicar a perda de ritmo. Em agosto, a taxa básica de juros permanecia em patamar elevado, enquanto o crédito, importante impulsionador das vendas no varejo, continuava restringindo principalmente o consumo de produtos de maior valor agregado.

Cenário regional mostra um varejo dividido

A retração nacional esconde comportamentos bastante distintos entre as regiões brasileiras. Em agosto, o Sul apresentou crescimento de 8,4%, acelerando em relação à alta de 6,7% registrada em julho e consolidando uma trajetória de recuperação do fluxo.

O Centro-Oeste também voltou ao campo positivo, com avanço de 1,3%, depois da queda de 6,0% observada em julho. Já o Norte interrompeu uma sequência de dois meses de retração e registrou leve alta de 0,1%.

Na direção oposta, os grandes centros consumidores do país continuaram pressionados. O Sudeste recuou 4,3%, aprofundando a tendência negativa pelo terceiro mês consecutivo, enquanto o Nordeste apresentou queda de 4,8%, também mantendo três meses seguidos de retração.

“O mapa do varejo em agosto mostra uma divisão clara no ritmo de recuperação. Enquanto Sul e Centro-Oeste demonstram maior capacidade de recomposição do fluxo, Sudeste e Nordeste permanecem pressionados, sinalizando um consumidor mais reticente nos principais centros de consumo do país”, aponta Sidnei Raulino, fundador da SEED Digital.

Comércio de rua sente mais, enquanto shoppings mostram maior resiliência

O comportamento dos canais físicos também evidencia diferenças importantes. As lojas de rua registraram queda de 1,7% em agosto, ante retração de 0,3% em julho, chegando ao quarto mês consecutivo de resultado negativo.

Os shopping centers recuaram 0,4%, mas apresentaram melhora significativa em relação à queda de 5,1% registrada em julho. Segundo o estudo, o resultado indica maior resiliência dos centros de compras, que conseguiram absorver melhor o tráfego de consumidores diante do ambiente adverso.

Eleições entram no radar do varejo

Com o início do último quadrimestre do ano, o cenário político passa a ocupar espaço relevante nas projeções para o varejo físico. A análise histórica do IICV SEED sobre os períodos eleitorais de 2018 e 2022 mostra que o comportamento do consumidor pode mudar significativamente entre o período que antecede a votação e os meses seguintes à apuração.

Nos dois anos analisados, o mês de setembro, imediatamente anterior à eleição, apresentou crescimento do fluxo geral: 5,0% em 2018 e 7,8% em 2022. O comportamento muda nos domingos de votação, quando o fluxo das lojas sofreu retrações superiores a 50% nos dois turnos.

Para 2026, o primeiro turno está marcado para 4 de outubro, enquanto o segundo turno, caso necessário, ocorrerá em 25 de outubro. Com isso, novembro e dezembro podem representar momentos decisivos para a recuperação ou manutenção da cautela do consumidor.

Os dados históricos mostram dois cenários possíveis. Em 2018, a rápida definição do resultado eleitoral foi acompanhada por uma recuperação da confiança e da demanda represada, contribuindo para altas de 4,9% em novembro e 4,1% no Natal de dezembro. Já em 2022, um ambiente de maior disputa e incerteza manteve o consumidor mais cauteloso, com quedas de 0,7% em novembro e 2,1% em dezembro.

“Para o varejo, o último quadrimestre de 2026 será marcado por uma combinação de fatores. De um lado, temos datas comerciais importantes, como Black Friday e Natal, capazes de estimular a demanda. De outro, eleições e condições climáticas adversas podem adicionar volatilidade ao fluxo. A velocidade com que o ambiente político recuperar previsibilidade após a votação será um fator importante para determinar quanto da demanda represada poderá ser capturada no fim do ano”, conclui Raulino.

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